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Bolsa fecha em baixa de 0,64%, a 118.430,53 pontos, com perda de 0,84% na semana

19 de fevereiro 2021 - 22h15 Por Estadão Contéudo
Bolsa fecha em baixa de 0,64%, a 118.430,53 pontos, com perda de 0,84% na semana
Como não podia deixar de ser, após a investida direta do presidente Bolsonaro sobre os reajustes dos combustíveis na noite de ontem, reiterada hoje em evento em Pernambuco, as ações da Petrobras fizeram o Ibovespa descolar do dia majoritariamente positivo no exterior, com o mercado voltando a ponderar o desejo de interferência na política de preços da estatal, o que já se mostrara um malogro no governo Dilma Rousseff. Tendo em vista a ameaça feita por Bolsonaro, de que haverá "consequências" para os aumentos "excessivos, fora da curva", a reticência sobre o futuro de Roberto Castello Branco à frente da empresa contribuiu para que Petrobras ON e PN fechassem respectivamente em queda de 7,92% e 6,63% - ainda assim, fora das mínimas do dia -, com o Ibovespa abaixo dos 119 mil pontos, em recuo de 0,64%, aos 118.430,53 pontos, nesta sexta-feira. Na semana de apenas três sessões, o índice da B3 acumulou perda de 0,84%, vindo de retração de 0,67% no intervalo anterior, limitando os ganhos no mês a 2,92% - no ano, o Ibovespa volta hoje a terreno negativo, em baixa de 0,49% em 2021. Assim como ontem, o giro financeiro foi sólido, a R$ 38,7 bilhões. Na mínima da sessão, o índice caiu abaixo dos 118 mil, a 117.867,30 pontos, saindo de abertura a 119.199,18, com máxima a 119.249,77 pontos. Com as ações de Petrobras segurando desde cedo a ponta negativa do índice, o desempenho positivo de Vale ON (bem moderado ao fim, a +0,38%) e do setor de siderurgia (CSN ON +3,22%, Gerdau PN +2,09%) aliviou parte do efeito sobre o Ibovespa, em dia em que outras ações também obtiveram bom avanço, como B2W (+6,81%), Azul (+3,31%) e Pão de Açúcar (+3,26%) - as três maiores altas da sessão. Em queda de 1,02%, a R$ 5,3854 no fechamento, o dólar foi fator positivo nesta sexta-feira em que os índices de ações em Nova York mostraram leve variação, perto da estabilidade no encerramento. A ofensiva de Bolsonaro sobre o comando de estatal lembra episódio recente, envolvendo o Banco do Brasil e o fechamento de agências, que colocou em risco o emprego do presidente da instituição, André Brandão, profissional com perfil de mercado e cuja permanência acabou sendo assegurada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, após o atrito com o presidente em janeiro. Agora, a tarefa envolve encontrar previsibilidade para os reajustes de combustíveis, especialmente o diesel, que afeta diretamente os caminhoneiros, tratados como apoiadores por Bolsonaro. Ainda que Castello Branco conte com o respaldo do Conselho de Administração, uma campanha de desgaste prolongado movida pelo Planalto, teme o mercado, pode resultar, no limite, em pedido de demissão - e mesmo que isso não venha a se efetivar, os sinais de interferência política nos preços da estatal são um problema em si. "Temos aí uma questão política, é preciso ver por quanto tempo isso vai perdurar", diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos. "Os preços da Petrobras guardam alguma defasagem, de forma que a tentativa de ingerência já constitui um problema. Para não falar de eventual substituição na presidência da empresa, o que resultaria em queda muito maior do que a vista hoje nas ações, mesmo que o substituto venha a ser alguém com perfil do agrado do mercado. Qualquer mudança agora deixaria evidente a intervenção na empresa", diz Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença. "O 'risco Bolsonaro' precisa ser reprecificado pelo mercado, há claramente um 'Bolsonaro não liberal'. O presidente está com vento contrário, em condição que não o agrada, agindo por impulso e buscando contato direto com o eleitor, a dona de casa que sabe o preço do gás, o cara que faz o frete. A situação é complexa para o presidente, tendo de administrar diferentes pressões sem perder de vista o eleitor", observa Pedro Paulo Silveira, gestor da Nova Futura Investimentos. Dólar O dólar voltou a acelerar o ritmo de queda no final dos negócios desta sexta-feira, após a baixa perder força no início da tarde. Com isso, conseguiu encerrar o dia abaixo de R$ 5,40, em sessão marcada por enfraquecimento da moeda americana no exterior. Mas ainda assim acabou fechando a semana, mais curta por conta do feriado de Carnaval, acumulando alta de 0,21%. No ano, sobe 3,8%, com o real no topo entre as divisas com pior desempenho perante o dólar. Hoje, o senador Marcio Bittar (MDB-AC) apresentou no Senado uma versão do parecer da PEC Emergencial para destravar o auxílio emergencial, com votação prevista para quinta-feira (25). Mas o clima de cautela com a situação fiscal persiste nas mesas de operação, alimentado ainda pela decisão de Jair Bolsonaro de zerar o PIS/Cofins sobre o diesel e o gás de cozinha, que trará perda de receitas para o governo, o que limita qualquer movimento de melhora mais forte do real, ressaltam profissionais das mesas de câmbio. "Parece um projeto que para em pé, mas a reação do mercado mostra ceticismo grande em relação ao processo de negociação política, que apresenta grandes riscos de diluição das medidas de ajuste", comentam os analistas da Blueline Asset Management, destacando também o ruído na questão dos combustíveis. No final da manhã, o efeito de forte fluxo de entrada de capital por conta de uma operação de uma única empresa levou o dólar para as mínimas do dia, a R$ 5,36. No fechamento, o dólar encerrou a semana cotado em R$ 5,3854 no mercado à vista, em queda de 1,02% hoje. O dólar futuro para março caiu 0,82%, a R$ 5,3845. Para o economista em Nova York do Natixis para América Latina, Benito Berber, o câmbio no Brasil está sob renovada pressão desde que o governo voltou a falar em criar programas sociais, na reta final de 2020, o que aumentou o temor dos participantes do mercado de que o teto de gastos fosse ser violado este ano. Um programa de auxílio temporário desde que condicionado a reformas não seria mal recebido pelo mercado. Ele observa que por ora, com nomes alinhados ao governo nas presidências do Senado e da Câmara, a perspectiva é de avanços de reformas pró-mercado, mas não sem concessões, ou o toma-lá-dá-cá, ressalta o economista. Para os analistas do Citigroup em Nova York, os ativos, sobretudo o câmbio, só devem ter reação mais forte se o governo conseguir aprovar o auxílio com as contrapartes, sem divisão ou diluição das PECs. Essa discussão dos condicionantes já está de certa forma embutida nos preços dos ativos, por isso, a reação maior virá com a aprovação efetiva, que pode dar alívio importante ao câmbio. Juros Os juros futuros fecharam o dia em alta, refletindo a piora do risco político provocada pelas declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre a Petrobras e o anúncio de isenção de impostos federais para gás de cozinha e diesel num momento de crise fiscal. O avanço foi mais pronunciado nos vencimentos longos, configurando ganho de inclinação. No entanto, a percepção geral dos agentes é de que o "estrago" foi menor do que o esperado em dia de novo avanço do yield dos Treasuries, até porque o câmbio esteve surpreendentemente bem comportado, com o dólar em queda na maior parte da sexta-feira. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 3,407% para 3,435% (regular) e 3,44% (estendida) e a do DI para janeiro de 2023 passou de 5,067% para 5,145% (regular) e 5,13% (estendida. O DI para janeiro de 2025 encerrou a regular em 6,72% e a estendida em 6,69%, de 6,635% ontem, e a do DI para janeiro de 2027 terminou a regular em 7,37% e a estendida em 7,33%, de 7,274%. No fechamento da etapa regular, as taxas longas abriam cerca de 10 pontos-base, mas a expectativa era de que subissem muito mais, com Bolsonaro confirmando hoje que haverá "sim" mudanças na Petrobras, ainda que mantenha o discurso de que não vai interferir na política de preços da empresa. Ele cobrou previsibilidade nos reajustes, após a estatal anunciar aumento de 15,2% no diesel e de 10,2% na gasolina a partir de hoje. Preocupado com os impactos na inflação, anunciou isenção permanente de tributos sobre o gás de cozinha e por dois meses sobre o diesel. A questão é que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) exige compensação com a elevação de outro tributo ou corte de subsídio, mas sobre isso o governo não se manifestou. Cálculos do diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, Felipe Salto, mostram que zerar a cobrança da alíquota de PIS/Cofins sobre o óleo diesel por dois meses significa abrir mão de R$ 3,3 bilhões. "A decisão de reduzir plenamente (zerar) os impostos federais no diesel e gás de cozinha sem cobertura por si só é negativa pela questão fiscal, pois reduz arrecadação e aumenta o déficit", afirma a JF Trust, em relatório, destacando que são medidas consideradas "heterodoxas". Vinicius Alves, estrategista da Tullett Prebon, afirmou que esperava uma reação mais tensa dos mercados de câmbio e juros aos eventos de ontem, mas a curva inclinou "pouco". "Ainda mais em função da expectativa de uma PEC mais desidratada, segundo matérias trazidas pela imprensa", afirmou, referindo-se à proposta que vai destravar o pagamento do auxílio emergencial. Nesta tarde, o senador Marcio Bittar (MDB-AC) entregou o relatório ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Ao Broadcast Político, o relator antecipou que o parecer estabelece gatilhos para congelar despesas na União, nos Estados e nos municípios quando os gastos atingirem 95% da arrecadação. A expectativa é de que a PEC seja votada na quinta-feira (25).