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Com aversão a 'risco Lula', Bolsa fecha em queda de 3,98%

08 de março 2021 - 21h00 Por Estadão Contéudo
Com aversão a 'risco Lula', Bolsa fecha em queda de 3,98%
Os sinais de colapso do sistema de saúde doméstico e a progressão dos yields americanos mantinham o Ibovespa na defensiva nesta abertura de semana, mas nada pior, aos olhos do mercado, do que a possibilidade de uma candidatura Lula em 2022, livre de empecilhos na Justiça. Assim, a anulação pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), das condenações do ex-presidente nos processos relacionados à Lava Jato no Paraná lançou o Ibovespa em espiral de mínimas na tarde desta segunda-feira, 8, abaixo dos 111 mil pontos. Ao fim, mostrava queda de 3,98%, a 110.611,58 pontos, com mínima a 110.267,80 (-4,28%) e máxima a 115.202,23, da abertura. Em porcentual, foi a maior queda desde os 4,87% do último dia 22, quando o índice reagia à mudança na Petrobras e, agora, mantém-se pouco acima do nível de encerramento de 1º de março (110.334,83 pontos). O giro foi de R$ 49,5 bilhões na sessão de hoje - no mês, o Ibovespa ainda sobe 0,52%, com perda de 7,06% no ano. "Os DIs e o dólar explodiram com essa notícia, e a Bolsa veio abaixo. Depois, recuperou um pouco, com a percepção de que a decisão é monocrática, cabendo recurso (da PGR, que informou que apresentará). Isso vai longe, mas ruído e turbulência política nunca ajudam, ainda mais neste momento da pandemia. Falta de clareza nas regras é algo que afasta o investidor estrangeiro, que tem outras alternativas entre os emergentes", observa Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença. "A perspectiva de juros mais altos aqui, e também nos EUA, com a pressão vista sobre os rendimentos dos Treasuries, e uma recuperação doméstica ainda atrasada pela pandemia afetam o apetite por ativos de risco, como as ações. Temos uma situação difícil no câmbio e na atividade econômica doméstica, mas alguns setores ainda conseguem se destacar: os correlacionados a exportações, à economia externa, como o de commodities. O momento é defensivo", diz Romero Oliveira, especialista em renda variável da Valor Investimentos. Assim, após ter acumulado na semana passada recuperação de 4,70%, em seu melhor desempenho desde a primeira semana do ano, quando havia avançado 5,09%, o Ibovespa volta a ceder terreno, perdendo a carona da sessão positiva em Nova York, onde o Dow Jones renovou máxima histórica intradia, apesar de alertas de que uma bolha de ativos estaria em formação ante a complacência do Federal Reserve, que tem reiterado viés "dovish" para a política monetária dos EUA. "A Bolsa já estava em queda diante do avanço do coronavírus, com recordes de mortes, lotação de leitos e medidas de isolamento social ao redor do País e, com a notícia da recuperação dos direitos políticos de Lula, bateu mínimas" ao longo da tarde, reforçando o "movimento de aversão a risco", aponta Paula Zogbi, especialista da Rico Investimentos. "Além da surpresa da decisão de Fachin, a possibilidade de Lula em 2022 tem tudo para deixar a eleição ainda mais polarizada, e a grande preocupação do mercado fica por conta do rumo da situação fiscal, vide que o governo pouco avançou com a pauta até o momento. Essa preocupação se reflete em disparada dos juros futuros e forte inclinação da curva, assim como no câmbio, com o dólar voltando para a faixa (próxima) de R$ 5,80", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Assim, apenas duas ações do Ibovespa conseguiram escapar do mal-estar para fechar o dia em terreno positivo: Marfrig (+4,41%) e Eletrobras ON (+0,19%). Na ponta do Ibovespa, Localiza cedeu 9,39%, à frente de Locamerica (-9,23%) e de Eztec (-8,72%). Entre as blue chips, destaque para perdas acima de 4,5% em Petrobras (ON -4,81%, PN -5,76%) e de 4,58% para BB ON, liderando a queda entre os bancos no fechamento da sessão. Dólar O câmbio teve novo dia de pressão e o dólar passou toda a segunda-feira, 8, em alta, acima de R$ 5,70, em um misto de influências externas e internas. Internamente, a situação difícil da pandemia, com número de casos e óbitos em alta, vacinação ainda lenta e mais medidas de restrição, faz investidores ficarem mais cautelosos com o cenário econômico. Nos negócios da tarde, a moeda americana chegou superar os R$ 5,80, no caso do dólar futuro, com o anúncio da anulação da condenação na Lava Jato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, que torna o presidente elegível em 2022. No exterior, as taxas dos juros longos dos Estados Unidos voltaram a subir e assustar os investidores, após a aprovação do pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão de Joe Biden no Senado, o que ajuda a fortalecer a moeda americana internacionalmente, chegando, por exemplo, ao maior nível em 9 meses ante o iene do Japão. Apesar de o dólar ter superado os R$ 5,80, na maior máxima diária desde 30 de outubro do ano passado, o Banco Central não fez intervenção no mercado hoje, dia marcado por pressão também em outros emergentes. Ante a lira turca, o dólar chegou a disparar 2,6% nesta segunda-feira. No fechamento doméstico, o dólar à vista encerrou em alta de 1,77%, em R$ 5,7783, no maior nível desde o encerramento de 15 de maio de 2020 (R$ 5,83). No mercado futuro, o dólar para abril subiu 3,26%, cotado em R$ 5,8820, acelerando ainda mais a alta após Jair Bolsonaro alertar no início da noite que a PEC Emergencial pode não ser aprovada na Câmara "se não retirar artigos". "Não tenho lembrança de momento econômico tão desconfortável", afirma o chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), José Júlio Senna, em evento nesta segunda-feira, em conjunto com o Estadão. "É muito difícil ser otimista com o real neste momento", disse Senna, citando entre os fatores que vêm contribuindo para a desvalorização, os ruídos em Brasília, interferências do governo, políticas de cunho populista de Jair Bolsonaro, falta de apetite do Executivo e Congresso para enfrentar diretamente os desequilíbrios fiscais agora. Com Lula elegível em 2022 após a decisão de Fachin, cresce ainda mais a chance de Jair Bolsonaro "ir totalmente para o populismo", avalia o sócio da Armor Capital, Alfredo Menezes, ex-tesoureiro, no Twitter. Com a notícia, o dólar futuro para abril bateu em R$ 5,8040. Para o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, há no mercado o temor de que a Câmara possa retirar o limite do auxílio de R$ 44 bilhões na votação da PEC Emergencial. Mas ele acha que os deputados são sensíveis ao país e vão entender a gravidade dos efeitos de uma desidratação maior do texto para a economia se isso ocorrer. "Espero que o final seja de responsabilidade na gestão fiscal", disse em live da Genial Investimentos na tarde de hoje. Padovani contou que com os diversos economistas que tem conversado, ninguém acredita fazer sentido o dólar a R$ 5,70 no Brasil. Em sua visão, o "ambiente local confuso" tem peso para a pressão no câmbio e o real tende a ganhar força com o BC voltando a subir juros e mais clareza fiscal com a aprovação da PEC na Câmara sem desidratação adicional. Juros Os juros futuros fecharam a segunda-feira, 8, com alta expressiva. Já estavam bastante pressionados desde cedo pelo exterior, pelo reajuste de preços de combustíveis, tensão com escalada da Covid no País e, no fim do dia, a informação de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, anulou as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Lava Jato trouxe nova rodada de estresse para a curva. De ganhos em torno de 20 pontos, os vencimentos intermediários, os que mais sofreram nesta segunda-feira, passaram a subir mais de 40 pontos. A leitura é de que, com os direitos políticos recuperados, Lula poderá disputar a eleição de 2022, o que é visto com um potencial acelerador para a tendência populista do governo Bolsonaro e um risco de antecipação da campanha eleitoral que pode atrapalhar a agenda de reformas. O quadro de apostas para a Selic voltou a ficar mais conservador, com a expectativa de alta de 0,75 ponto porcentual em março novamente ganhando terreno. Segundo o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, a curva precificava nesta tarde 61 pontos-base de aumento para o Copom na semana que vem, o que representa uma divisão do quadro, com 56% de probabilidade de elevação de 0,5 ponto porcentual e 44% de chance de alta de 0,75 ponto. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 3,950% (regular) e 3,990% (estendida), de 3,809% no ajuste de sexta-feira, e o DI para janeiro de 2024 subiu de 6,386% para 6,73% (regular) e 6,83% (estendida). A taxa do DI para janeiro de 2025 encerrou a regular em 7,27% e a estendida em 7,40%, de 6,955%, e a do DI para janeiro de 2027 passou de 7,594% para 7,86% (regular) e 8,01% (estendida). As taxas recompuseram boa parte do prêmio descontado na sexta-feira. Inicialmente, a aprovação do pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão pelo Senado americano no fim de semana endossou receios de alta da inflação nos Estados Unidos, levando o yield da T-Note de dez anos para 1,60%. Segundo Rostagno, havia alguma expectativa de que o Senado pudesse desidratar o pacote, o que não aconteceu. O projeto agora volta para a Câmara. "Como a maioria lá é democrata, o valor deve ser mantido", disse. No fim da manhã, outra rodada de máximas na curva local foi vista após o anúncio da Petrobras de novo reajuste nos preços de combustíveis, reforçando a percepção ruim para a inflação e, mais que isso, elevando o temor sobre uma greve de caminhoneiros - categoria cujos protestos derrubaram o presidente da Petrobras. José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, defendeu hoje que o ciclo de aperto monetário seja "crível" para o mercado. "O BC não pode entrar com a mão fraca", afirmou Senna, durante seminário promovido em parceria com o Estadão. Para ele, uma ação rápida poderia reduzir a "inclinação" da curva e o BC deveria "seguir o mercado", ou seja, subir a Selic na mesma proporção apontada pelas taxas dos títulos negociados. "O BC deve agir rápido sim e no nível que o mercado está esperando", afirmou Senna. A poucos minutos do fim da sessão regular, o mercado foi pego de surpresa com a decisão de Fachin, com os agentes passando a precificar maior chance de polarização nas eleições e risco de travamento da agenda de reformas. "Tínhamos uma janela considerada viável para reformas até setembro mais ou menos, mas se a campanha eleitoral for antecipada a chance de reformas impopulares, mas necessárias, passarem cai muito", disse Rostagno.