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Dólar tem maior queda semanal desde novembro com BC e PEC

12 de março 2021 - 21h03 Por Estadão Contéudo
Dólar tem maior queda semanal desde novembro com BC e PEC
A estratégia mais ativa de intervenção do Banco Central no câmbio fez o dólar cair 2,18% nesta semana. Foi a maior desvalorização desde a última semana de novembro de 2020. A aprovação da PEC Emergencial também ajudou, enquanto a assinatura do pacote fiscal nos Estados Unidos, de US$ 1,9 trilhão, do presidente norte-americano, Joe Biden, teve efeitos mistos. Primeiro, fez a moeda a cair ante pares fortes e emergentes, diante da perspectiva de mais liquidez e crescimento na economia americana. Mas nesta sexta-feira fortalece a divisa dos Estados Unidos, inclusive ante o real, ao elevar o temor dos participantes do mercado de que o crescimento maior trará alta da inflação e a possibilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) ter de subir os juros mais cedo que o esperado. Por isso, o dólar subiu ante o real nesta sexta mesmo com leilão extra do Banco Central, de US$ 750 milhões. Mas a moeda do Brasil acabou tendo desempenho melhor que outras emergentes. A divisa americana subiu 1,31% na Turquia e 0,88% na África do Sul, enquanto ante o real fechou a sexta-feira com alta de 0,30%, cotado em R$ 5,5597. No mercado futuro, o dólar para abril subiu 0,26%, a R$ 5,5575. Apesar da melhora desta semana, a dúvida é se o real vai conseguir recuperar terreno de forma sustentada, avalia a analista de moedas e mercados emergentes do Commerzbank, Melanie Fischinger. Um novo ponto de incerteza ao já incerto cenário local foi a volta ao jogo político do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que traz preocupação com o avanço das reformas fiscais de Jair Bolsonaro, que pode querer medidas mais populistas. Para a semana que vem, é esperada a primeira alta de juros em vários meses pelo Banco Central, que pode dar algum alívio ao câmbio, mas a analista avalia que pode não ser suficiente para uma recuperação mais forte do real. Os próximos passos do BC, após quatro leilões extraordinários desde a quarta, vendendo US$ 3,2 bilhões, também permanecem incertos. "Certamente o que chamou mais atenção na semana foram as atuações de venda de moeda estrangeira (spot e swap) pelo BC em momentos de apreciação do real em relação aos seus pares, o que não é usual", comenta a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, em relatório. Ainda não está claro se foram atuações atípicas pontuais, ou se daqui para frente o BC será mais proativo no mercado de câmbio, avalia ela. Sobre a PEC Emergencial, apesar de desidratação relevante, ainda assim, o texto traz avanços para o reequilíbrio fiscal de médio e longo prazo. Com o cenário global mais desafiador e incertezas domésticas, o Itaú elevou nesta sexta a previsão para o dólar, prevendo a moeda em R$ 5,30 ao final do ano e R$ 5,50 em 2021, de estimativa anterior em R$ 5,00 para os dois anos. "O mercado está se ajustando à perspectiva de retirada de estímulos monetários nos EUA", comenta relatório do banco. Internamente, o Itaú observa que ainda existem muitas incertezas relacionadas à evolução da pandemia e à trajetória fiscal com a extensão do auxílio emergencial. Juros Os juros futuros fecharam o dia em alta, mais firme nos vencimentos de longo prazo, levando a curva a ganhar inclinação. As taxas curtas também subiram, mas em menor magnitude. O mercado operou durante todo o dia a reboque dos Treasuries, com o rendimento da T-Note de dez anos saltando para a marca de 1,63% nas máximas da sexta-feira, que não teve noticiário relevante na cena política. A poucos dias da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o mercado segue ajustando apostas para a Selic, hoje com o pêndulo pesando um pouco mais para a alta de 0,5 ponto. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 4,205% (regular) e 4,22% (estendida), de 4,121% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 5,889% para 5,97% (regular) e 5,96% (estendida). O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 7,44% (regular) e 7,40% (estendida), de 7,356% na quinta-feira. A do DI para janeiro de 2027 avançou de 7,884% para 8,02% (regular) e 7,96% (estendida). Com o movimento desta sexta, a ponta longa devolveu toda a queda da quinta, com a taxa para janeiro de 2027 novamente acima dos 8%, num dia que o dólar esteve relativamente bem comportado. Mas a taxa da T-Note de dez anos explodiu, na sequência da sanção, na quinta, do pacote fiscal americano de US$ 1,9 trilhão e da informação do presidente Joe Biden de que em maio todos os americanos adultos estarão vacinados contra a covid. "Se a onda de vendas do mercado de títulos se intensificar até a decisão do Fomc em 17 de março, o Fed pode finalmente ter que reagir contra o movimento dos rendimentos do Tesouro", avalia Edward Moya, analista da Oanda. Para Vladimir Caramaschi, estrategista-chefe da CA Indosuez Brasil, apesar da pressão que os Treasuries têm exercido na curva local, o cenário externo ainda é favorável, pois vê o juro americano em níveis baixos por um bom tempo. O problema maior é o quadro político. "O clima vai continuar ruim. Não vejo motivo para comemoração na PEC Emergencial", disse. Na quinta, o mercado relevou a desidratação do texto sofrida na passagem do Senado para a Câmara, olhando mais para o andamento da matéria em si. Projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado mostra que O governo terá de propor o corte de aproximadamente R$ 30 bilhões em benefícios tributários até setembro para cumprir o que está na PEC, que deve ser promulgada na segunda-feira. Na ponta curta, o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, afirma que os movimentos devem ser mais limitados, "pois estamos na antessala do Copom". Este trecho mostra o dilema a ser enfrentado na próxima semana. De um lado, o aumento das restrições de mobilidade e o fechamento do comércio e serviços em função da escalada da pandemia são fatores deflacionários na economia. De outro, o fortalecimento global do dólar e das commodities trazem pressão inflacionária e revisões recorrentes nas estimativas de inflação. "Os diretores terão de fazer um comunicado bem elaborado, que não assuste o mercado mas também não deixe transparecer que estão atrás da curva", disse Perfeito. Nesse contexto, boa parte do mercado acredita que esse "meio do caminho" indica uma alta de 0,5 ponto. Bolsa O Ibovespa conclui a semana acumulando leve perda de 0,90% no período, vindo de recuperação de 4,70% no intervalo anterior. Nesta sexta-feira, o índice da B3 se alinhou ao dia negativo no exterior, movido por novo avanço dos rendimentos dos Treasuries em meio à expectativa por mais inflação nos Estados Unidos, em consequência da política monetária acomodatícia e do novo pacote fiscal, de US$ 1,9 trilhão, sancionado na quinta-feira pelo presidente Joe Biden. Com a já precificada aprovação da PEC Emergencial, e o pouco efeito da leitura sobre o varejo doméstico nesta sexta-feira, o Ibovespa, vindo de três dias de ganhos, fechou esta última sessão da semana em baixa de 0,72%, aos 114.160,40, tendo se mantido em variação mais contida, entre mínima de 113.253,10 e máxima de 114.983,76 pontos, da abertura. Mais fraco, o giro financeiro foi de R$ 28,6 bilhões. No mês, o índice avança 3,75%, limitando as perdas a 4,08% no ano. "Os preços ao produtor nos EUA entregaram outro ganho sólido", observa em nota Edward Moya, analista da Oanda em Nova York, chamando atenção para o aumento da demanda final no PPI, na comparação ano a ano, de 1,7% para 2,8%, o maior desde 2018. Para o analista, o avanço da inflação ao produtor em fevereiro, que deve se estender ao mês seguinte, dá suporte à ideia de "uma subida modesta nos preços gerais", o que resultou nesta sessão em elevação dos rendimentos dos Treasuries. A depender da próxima leitura do índice, pode ganhar força o argumento de que descontrole da inflação é um "risco de curto prazo", conclui. Neste contexto, a atenção global se volta na próxima semana para a reunião do Fed, em busca de novos sinais sobre a orientação da política monetária nos Estados Unidos. "O mercado estressou um pouco esta semana com o aumento dos juros futuros lá fora, precificando uma retomada da economia com certa inflação nos Estados Unidos, o que abriu os juros de 10 anos. Mas, como um todo, o cenário ainda é positivo, o que tem segurado um pouco é o político e as dificuldades internas", diz Márcio Gomes, analista da Necton Investimentos, que vê espaço para o Ibovespa buscar os 116 mil pontos na próxima semana, se as ações de bancos, segmento de maior peso no índice, avançarem. "É interessante notar que mesmo o setor de shoppings, diretamente atingido pela retomada do lockdown, com ações que estavam muito 'amassadas', teve bom desempenho na semana, o que talvez indique que o mercado avalia que o fundo ficou para trás, e que a perspectiva é de melhora, com a vacinação", acrescenta o analista. Assim, Multiplan foi a segunda maior alta (+3,94%) do Ibovespa na sessão, acumulando até aqui ganho de 17,94% no mês. BR Malls subiu nesta sexta 2,21% e avança 10,90% em março, enquanto Iguatemi fechou a sexta em alta de 1,60%, avançando 10,36% no mês. Com queda de 3,08% no preço do minério de ferro nesta sexta-feira na China (Qingdao), o setor de mineração e siderurgia fechou o dia em baixa, puxada por Vale ON (-2,31%). Os bancos encerraram a sexta-feira na maioria com o mesmo desempenho da semana, negativo, com perdas entre 0,08% (Bradesco PN) e de 3,39% (Santander) acumuladas neste intervalo de cinco sessões. Refletindo o fortalecimento global do dólar em meio à pressão sobre os juros nos EUA, o petróleo teve dia de moderada correção após os ganhos recentes, colocando Petrobras ON e PN em baixa respectivamente de 1,09% e 0,52% no fechamento desta sexta-feira. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para perda de 5,21% em B2W, de 4,22% em Via Varejo, e de 3,56% em Lojas Americanas. No lado oposto, Embraer subiu 4,80%, Multiplan, 3,94% e Eztec, 3,03% na sessão.