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Juros recuam com ajustes técnicos antes do Copom e dólar em queda

16 de março 2021 - 20h02 Por Estadão Contéudo
Juros recuam com ajustes técnicos antes do Copom e dólar em queda
Os juros futuros encerraram a terça-feira em queda, com as taxas longas cedendo em ritmo pouco mais acentuado que as demais e, com isso, a curva continuou perdendo inclinação. O mercado aproveitou o recuo do dólar e pressão menor no segmento dos Treasuries na maior parte da terça-feira para testar uma correção técnica, num dia também de baixa nos preços do petróleo no exterior. A poucos dias da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o alívio se deu na contramão do que sugeriam os indicadores da agenda, que teve Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de janeiro e Índice Geral de Preços - 10 (IGP-10) de março acima das medianas das estimativas. O cenário de apostas para a Selic na quarta-feira, pelo o que mostram as opções digitais na B3, praticamente não se alterou em relação a segunda-feira. O Tesouro contribuiu para retirar pressão da curva ao reduzir a oferta de NTN-B, especialmente nos vencimentos mais longos. No fechamento da sessão regular, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 estava em 4,26%, de 4,292% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 passou de 6,054% para 6,00%. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa a 7,37%, de 7,406% na segunda-feira, e a do DI para janeiro de 2027 caiu de 7,964% para 7,88%. André Alírio, operador de renda fixa da Nova Futura Investimentos, acredita que o câmbio bem comportado e os juros da T-Note andando de lado deram espaço para um ajuste de posições, após uma sequência de volatilidade acentuada nos últimos dias. "Esperava nova pressão na ponta curta e um alívio maior na longa, mas, no geral, descolou dos fundamentos", disse. Os dados do dia, em tese, dariam combustível para as apostas de alta da Selic. Antes da abertura, saiu o IGP-10 de março, com alta de 2,99%, superando a mediana das estimativas (2,84%). Ainda pela manhã, o Caged mostrou saldo positivo de 260.353 vagas, muito melhor do que apontava a mediana de 179 mil. É o melhor resultado para janeiro em 30 anos. Neste caso, porém, economistas acreditam que a partir de fevereiro o cenário começa a mudar, pois o mercado de trabalho já passará a captar efeitos mais severos do endurecimento da quarentena em grande parte do País. Na véspera das reuniões de política monetária mais importantes para o mercado brasileiro - Copom e Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) -, o quadro de apostas para a Selic na decisão de quarta se manteve. As opções digitais na B3 mostram um mercado dividido, com a concentração das fichas entre alta de 0,5 ponto porcentual e 0,75 ponto. O economista Felipe Azevedo, da Renova Invest, destaca que, ao contrário do padrão, desta vez não há consenso sobre como o Copom vai agir. "O mercado está perdido sobre as projeções. Tem casa falando em alta de 0,25 ponto e até de 2 pontos, mas 60% acham que deve vir aumento de 0,5 ponto", disse. Na avaliação dele, qualquer aperto diferente de 0,5 ou 0,75 ponto vai ser surpresa. "Pode ser que as curvas curtas e longas tenham impacto maior", comentou. O Tesouro Nacional abriu espaço para o alívio de prêmios na curva ao reduzir de 1,1 milhão na operação da semana passada para 850 mil o lote ofertado no leilão de venda de NTN-B, colocado integralmente. Segundo a Renascença, o DV01 (risco do mercado) caiu de R$ 4,59 milhões para R$ 1,85 milhão. Câmbio O dólar operou a terça-feira em queda, corrigindo os excessos da segunda-feira, quando o real se descolou de seus pares e foi a pior moeda no mercado internacional. Nos negócios da tarde, porém, o ritmo de baixa perdeu fôlego, na medida em que as taxas de retorno (yields) dos Treasuries americanos, que caíam mais cedo, voltaram a subir, e a moeda dos Estados Unidos novamente superou os R$ 5,60. No mercado doméstico, os investidores seguem na expectativa pelo final da reunião de política monetária do Banco Central, que pode ter o primeiro aumento de juros no Brasil desde 2015. No fechamento, o dólar à vista encerrou o dia cotado em R$ 5,6191, em baixa de 0,36%. No mercado futuro, o dólar para abril era negociado em leve alta de 0,07% às 17h40, a R$ 5,6240, em dia de baixo giro de negócios, enquanto os investidores aguardam o final da reunião do BC e do Federal Reserve, ambas nesta quarta-feira. Ao contrário do Brasil, o cenário na economia americana melhorou desde a última reunião de política monetária. Por isso, há grande expectativa dos participantes do mercado sobre as novas previsões dos dirigentes do Fed para indicadores da atividade americana e especialmente para a taxa de juros. Esta última vem no gráfico conhecido como "dot plot", que reúne as estimativas de todos os participantes da reunião. O dólar pode se fortalecer se este gráfico mostrar taxas mais altas pela frente, avalia a diretora em Nova York de moedas da gestora BK Asset Management, Kathy Lian. Euro e divisas de emergentes seriam penalizadas neste cenário. Outra fonte de interesse é ver os comentários do presidente do Fed, Jerome Powell, sobre a recente elevação dos yields americanos, comenta Lian. No Brasil, o Banco Central "está pronto para agir", avalia o economista da consultoria internacional TS Lombard, Wilson Ferrarezi, em nota. Ele espera elevação de 0,50 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic. Na medida em que a pressão inflacionária deve seguir no curto prazo, por conta de alta, por exemplo, nos preços dos combustíveis, Ferrarezi vê novas elevações de juros pela frente e projeta a Selic terminando o ano em 4%. Medidas adicionais de isolamento social devem pesar na atividade no curto prazo, mas a TS vê a vacinação ganhando força pela frente, chegando a 50 milhões de pessoas ao final de abril. Apesar do início do ciclo de elevação dos juros, gestores de América Latina ouvidos este mês pelo Bank of America não esperam muita apreciação do real, em meio a incertezas fiscais e ruídos políticos. A grande maioria dos entrevistados, entre os dias 8 e 12, vê o dólar terminando o ano entre R$ 5,30 e R$ 5,60. Ao mesmo tempo não há mais gestores prevendo o dólar acima de R$ 6,00 ao final do ano, como havia em fevereiro (cerca de 5%). Bolsa O Ibovespa se manteve abaixo dos 114 mil pontos em boa parte da tarde, acompanhando a piora do humor em Nova York, onde S&P 500 e Nasdaq devolveram os ganhos observados mais cedo e chegaram a se unificar ao blue chip Dow Jones em ajuste negativo na sessão, após ambos os índices de Wall Street terem renovado máximas históricas no dia anterior. Nesta terça-feira, véspera de decisão de política monetária nos Estados Unidos, a ponta longa da curva de juros americana voltou a sofrer pressão, especialmente no vencimento de 30 anos. Aqui, a boa leitura sobre a geração de vagas em janeiro, do Caged, não anula o viés negativo para o mercado de trabalho em meio ao agravamento da pandemia no País. Em contexto de fraca atividade e de inflação em alta, à espera de aumento na Selic ao fim da reunião do Copom na quarta-feira, o Ibovespa não encontrou gatilho para emendar ganho na sessão, definida na noite de segunda-feira a substituição do ministro da Saúde, em solução que não parece implicar nova abordagem ao combate à pandemia, ainda fora de controle no Brasil. Nesta terça, o índice da B3 fechou em baixa de 0,72%, a 114.018,78 pontos, tendo oscilado entre mínima de 113.370,08 pontos e máxima de 114.974,22 pontos, com giro a R$ 28,7 bilhões. Na semana, o Ibovespa cede 0,12%, mas avança 3,62% no mês - no ano, cai 4,20%. Para o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, o Caged surpreendeu positivamente, em criação líquida de mais de 260 mil empregos de carteira assinada em janeiro, com desligamentos bem abaixo do esperado para o mês. "Essa é mais uma estatística positiva em janeiro que não deverá ser observada com a devida atenção, em função do recrudescimento da pandemia, que rouba a perspectiva de cenários positivos para a atividade", observa em nota. Com relação à pandemia, o gosto final foi de que o presidente Jair Bolsonaro, sem ouvir o Centrão, optou pela continuidade na mudança, ao decidir trocar o general Eduardo Pazuello pelo médico Marcelo Queiroga, que logo na chegada afirmou que o ministro da Saúde é executor de política de governo, e que dará prosseguimento ao trabalho anterior. Nesta terça-feira, Bolsonaro atingiu recorde de menções negativas no Twitter desde o início do mandato, de acordo com levantamento do Modalmais e da consultoria AP Exata. Nesta terça, o presidente teve 73% de menções negativas (alta de 5 pontos percentuais em relação a segunda-feira). "Não sei se o próximo ministro será bom ou não, mas ajudaria muito se a burocracia em Brasília abrisse espaço para que o setor privado participasse da compra de vacinas. A resposta continua sendo a mesma: vacina. Enquanto não houver, a Bolsa seguirá volátil", diz Pedro Galdi, analista da Mirae. "Hoje, prevaleceu a expectativa para o início da elevação de juros, com inflação que começa a correr. Nos EUA, ainda não amanhã, mas a mensagem (do Fed) deve vir mais salgada", acrescenta. O foco do mercado estará concentrado nesta quarta-feira na melhora das projeções para a economia dos EUA e na comunicação do Federal Reserve sobre a inclinação da curva de juros. Em meio a lento progresso da vacinação fora de países como Estados Unidos, Reino Unido, Israel e Chile, e a colocação em dúvida, em parte da Europa, do imunizante da AstraZeneca, o petróleo fechou nesta terça em baixa pela terceira sessão seguida, posicionando as ações da Petrobras (PN -1,56%, ON -1,50%) entre as perdedoras do dia, enquanto Vale ON, apesar da alta de 1,83% no preço do minério em Qingdao (China), cedeu 0,32% no fechamento desta terça-feira. Na ponta positiva do Ibovespa, destaque para Usiminas (+8,55%), à frente de Klabin (+4,37%) e Braskem (+4,11%). No lado oposto, CVC caiu 7,46%, Gol, 6,36%, e Azul, 6,19%. Entre os bancos, o desempenho também foi majoritariamente negativo, com perdas de até 3,51% (Santander).