Os juros fecharam a segunda-feira, 22, em alta, mas desaceleraram o ritmo no período da tarde, especialmente os vencimentos longos que pela manhã chegaram a avançar mais de 20 pontos-base para terminar com alta de 15 pontos. O resultado da arrecadação de fevereiro, o melhor do mês na série histórica e acima da mediana das estimativas, trouxe algum alívio, minimizando o efeito negativo da intervenção do governo da Turquia no Banco Central do país - que penalizou de forma generalizada os ativos emergentes - e das preocupações com o descontrole da pandemia. De todo modo, a curva deu sequência ao ganho de inclinação visto na sessão anterior, uma vez que os curtos terminaram com viés de baixa.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 4,605%, de 4,625% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2025 terminou a sessão regular em 7,73%, de 7,595%. O DI para janeiro de 2027 fechou com taxa de 8,22%, de 8,084%.
Mesmo com o segmento de Treasuries nesta segunda-feira não atrapalhando, a curva incorporou prêmios tanto em função do exterior quanto pelos riscos domésticos. Na sexta-feira, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, destituiu o presidente do Banco Central do país depois da instituição elevar os juros em 2 pontos porcentuais, para 19%, acima das expectativas, gerando uma crise de confiança entre os agentes.
Por aqui, o mercado vê com muita preocupação a disparada dos casos e mortes por covid nas últimas semanas, em meio ao caos da falta de leitos, de oxigênio e equipamentos, o que acaba ofuscando qualquer tentativa de melhora em função do noticiário das vacinas.
A decisão do Ministério da Saúde de orientar os Estados a não reservarem lotes para a segunda dose foi bem recebida, na medida que sugere maior número de pessoas mais rapidamente imunizadas. "Com isso, tem dose nos municípios para ser utilizada e o ritmo dessa semana poderia surpreender. Mas o mercado ainda não coloca isso na conta", diz um gestor. "Difícil ver o lado positivo com os números atuais da pandemia. Na margem, tem alguma coisa boa, vide os dados de São Paulo que estão melhorando", completou.
No fim de semana, o pessimismo com Brasil ficou ainda mais evidente, com a informação de que um manifesto com mais de 500 assinaturas de empresários, economistas, banqueiros e acadêmicos, será enviado nesta semana ao presidente da República, Jair Bolsonaro, ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, e aos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). A demanda é por medidas efetivas de combate à pandemia.
À tarde, os dados da arrecadação surpreenderam positivamente e ajudaram a retirar pressão da curva. A Receita arrecadou R$ 127,7 bilhões em fevereiro, recorde da série histórica para o mês, ficando acima da mediana das estimativas dos analistas (R$ 124,7 bilhões) e perto do teto do intervalo (R$ 129 bilhões).
Porém, a desaceleração da alta não foi capaz de reverter o ganho de inclinação da curva, que já voltou aos níveis pré-Copom. O spread entre as taxas de janeiro de 2022 e janeiro de 2027 fechou nesta segunda-feira em 362 pontos, ante 346, 328 e 364 nas três últimas sessões.
Dólar
O real sentiu o baque junto com as moedas de seus pares emergentes e se desvalorizou frente ao dólar durante toda a sessão de negócios desta segunda-feira. Pesou tanto no exterior quanto por aqui mais uma troca no comando do banco central turco, a terceira desde 2019, por decisão do presidente da Turquia, dois dias depois de a autoridade monetária ter aumentado os juros, para 19% ao ano.
Esse fator externo caiu em um dia no qual a moeda já sofria com questões internas, como a piora no quadro de expansão da covid-19 e a ainda problemática situação fiscal do país, que ajudaram a pintar um quadro de tensão que levou mais cedo a cotação a R$ 5,5484 na máxima do dia no mercado à vista.
No fim da tarde, o dólar spot fechou em alta de 0,59%, cotado a R$ 5,5179. Ao mesmo tempo, no exterior, o dólar se fortalecia 7,65% ante a lira turca.
Para Samuel Castro, Estrategista de América Latina do BNP Paribas, houve uma elevação geral do nível de risco por parte da percepção dos investidores globais em relação aos mercados emergentes e o real entrou em um movimento muito similar de seus pares, nada fora do padrão.
Por outro lado, ressaltou Castro, ajudou o real nesta segunda-feira o fato de o Banco Central brasileiro ter iniciado, na quarta-feira passada, um processo de normalização da política monetária de uma maneira robusta e já indicando um novo ajuste forte. Não fosse isso, disse, a moeda local já estaria perdendo nesta segunda mais do que outras moedas de emergentes frente ao dólar.
No mercado externo mais cedo, a lira turca chegou a cair mais de 15% com a intervenção de troca da presidência do BC, recuando após o ministro das Finanças assegurar que o país continuará seguindo regras do mercado. Na avaliação de Edward Moya, analista de mercado financeiro da Oanda em Nova York, o agora antigo presidente do BC turco Naci Agbal foi um dos principais motivos pelos quais os investidores restauraram a confiança na posse de ativos turcos. Ele aumentou as taxas de juros em 875 pontos-base desde novembro e ajudou a estabilizar a lira.
Moya ressalta que os primeiros comentários do novo líder da autoridade monetária, Sahap Kavcioglu, focaram na promoção da estabilidade econômica com custos de empréstimos mais baixos, o que está de acordo com o presidente Recep Erdogan.
Para ele, a crise na Turquia provavelmente será isolada, então o resto do mercado de câmbio emergente não deve se preocupar com temores de contágio. A Turquia será forçada a impor controles de capital para estabilizar os mercados, mas isso pode ser uma lição de futilidade. "O banco central turco provavelmente fará cortes nas taxas e os apelos por um controle da lira em relação ao dólar se tornarão o consenso no câmbio".
Bolsa
A arrecadação de impostos e contribuições federais a R$ 127,7 bilhões em fevereiro, o melhor resultado para o mês da série histórica, contribuiu para retirar parte da pressão sobre o dólar e o Ibovespa observada desde cedo, em dia desfavorável aos emergentes após a demissão do presidente do BC turco - o que reforça o sinal de que o intervencionismo político na economia e nas finanças públicas ainda é opção neste conjunto de países.
Ao final da sessão desta segunda-feira, o principal índice da B3 mostrava perda de 1,07%, aos 114.978,86 pontos, entre a máxima de 116.224,73 e a mínima da sessão, de 113.619,52, com abertura a 116.222,06 pontos. O giro financeiro foi de R$ 30,2 bilhões nesta segunda-feira - no mês, o Ibovespa avança 4,49%, limitando as perdas do ano a 3,39%.
Apesar do dia majoritariamente positivo nas bolsas do exterior, principalmente em Nova York, onde os ganhos nesta segunda chegaram a 1,23% (Nasdaq) no fechamento, com acomodação dos rendimentos dos Treasuries, especialmente dos vencimentos longos, paira a preocupação quanto a uma terceira onda de pandemia na Europa, que viu protestos neste fim de semana no Reino Unido, na França e na Alemanha, e prorrogação do lockdown neste último país, sinalizada nesta segunda, até 18 de abril.
"O pacote de emergentes foi afetado pelo episódio da Turquia, mas, para além disso, o mercado está começando a olhar com atenção a possibilidade de terceira onda de covid, o que se refletiu hoje no fechamento das taxas de 10 e 30 anos (yields), nos Estados Unidos, e neste avanço do Nasdaq, bem mais forte do que o do S&P 500", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group, que tem como cenário-base PIB em alta de 3,63% no fechamento do ano no Brasil e IPCA a 5%, com um segundo semestre de recuperação, com as vacinas.
O curtíssimo prazo, contudo, ainda é condicionado pela pandemia. "Após atingir 294 mil mortes por coronavírus no fim de semana, o Brasil segue no pior momento da crise sanitária, o que motivou governos estaduais a adotarem novas medidas de isolamento. Na Europa, existe preocupação com terceira onda da doença, que já levou a medidas restritivas em países como França, Itália, Alemanha e Holanda. Nesse cenário, a reação dos investidores é de aversão a risco, pela incerteza sobre a recuperação econômica", aponta Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos.
"À tarde, o gatilho que acabou por se impor foi a arrecadação federal, que contribuiu para amenizar um dia ruim desde cedo, com queda nos preços do minério de ferro (-2,71% no fechamento em Qingdao, China), preocupação sobre os emergentes após a demissão no BC turco e incerteza sobre a evolução da covid, especialmente na Europa", diz Rodrigo Friedrich, head de renda variável da Renova Invest.
"A queda de 6% (no minério de ferro) nesta madrugada, após atingir nova máxima do ano neste mês, deve-se a notícias de que o governo chinês irá apertar o cerco sobre o polo industrial de Tangshan, que responde por um quarto da produção de aço chinês", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Autoridades no polo siderúrgico de Tangshan anunciaram planos de coibir a produção das empresas locais até o fim de 2021, em um esforço para controlar emissões.
Assim, as ações de mineração e siderurgia estiveram entre as perdedoras do dia, com Vale ON em baixa de 1,66%, Usiminas, de 3,09%, Gerdau PN, de 3,04%, e CSN, de 1,71%. Destaque também para perdas de 2,00% na PN e de 1,87% na ON de Petrobras. A perspectiva de recrudescimento da pandemia na Europa pressionou em especial as ações de empresas ligadas à mobilidade, com Embraer (-7,44%), Azul (-6,10%) e Gol (-3,63%) segurando a ponta negativa do Ibovespa na sessão.
No lado oposto, Pão de Açúcar fechou em alta de 5,05%, à frente de Minerva (+3,26%) e Marfrig (+2,44%). O câmbio favorável para as exportadoras e a alta de 34,4% nas importações chinesas de carne bovina no primeiro bimestre do ano, divulgada pela Administração Geral de Alfândega da China (Gacc, na sigla em inglês), contribuíram para o avanço dos frigoríficos.