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Juros sobem com ata do Copom, preocupações com cenário fiscal e pandemia

23 de março 2021 - 20h15 Por Estadão Contéudo
Juros sobem com ata do Copom, preocupações com cenário fiscal e pandemia
Os juros futuros terminaram a sessão desta terça-feira em alta firme nos vencimentos longos e moderada nos curtos, descolados da queda do dólar e do retorno dos Treasuries. Mesmo considerada mais "hawkish" (dura) do que o esperado pelos analistas, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) não conseguiu reduzir a inclinação da curva. O desenho da curva é atribuído ao aumento das preocupações com o cenário fiscal conforme vão piorando os números da covid-19 no Brasil, na medida em que, segundo a leitura da ata, a pandemia parece preocupar o BC mais pelo lado fiscal do que pelo lado da atividade. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou a etapa regular em 4,675%, de 4,615% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 7,735% para 7,91%. O DI para janeiro de janeiro de 2027 fechou com taxa de 8,43%, de 8,224%. Logo após a decisão do Copom, profissionais da área de renda fixa alertavam para o fato de que a desinclinação da curva tinha uma sustentação frágil em meio aos crescentes riscos fiscais e políticos, mesmo com o Copom sinalizando postura mais agressiva. Na ata, o Copom já antecipou que, sem alterações no atual balanço de riscos, pretende subir a Selic novamente em 0,75 ponto porcentual na reunião de 4 e 5 de maio. Cita uma estratégia de ajuste mais célere como forma de evitar colocar em xeque a meta de inflação de 2021 e garantir o cumprimento em 2022. Com respeito à pandemia, avaliou que os riscos fiscais de curto prazo seguem elevados devido ao agravamento, o que coloca um viés de alta nas suas projeções para a inflação. Ao mesmo tempo, uma eventual "reversão econômica" causada pelo recrudescimento da pandemia deve levar a uma queda da atividade "bem menos profunda" que a observada em 2020. "A leitura do mercado é a de que o BC está operando o risco fiscal e não somente a inflação. E quando olhamos para as contas públicas o cenário é desanimador", afirma o trader de renda fixa da Sicredi Asset Danilo Alencar. Ele lembra que o calendário para as reformas está "cada vez mais curto", com a proximidade do período eleitoral. Para o Itaú Unibanco, a ata apresentou um tom "claramente altista para os próximos movimentos de juros". "As autoridades continuam otimistas com a recuperação da economia, apesar da grave piora da situação da pandemia no país, e indicam que, a despeito da taxa de desemprego elevada, enxergam redução mais rápida do que a que era prevista para o hiato do produto", afirmam os economistas do banco. E o noticiário da pandemia segue alarmante nesta terça-feira com recorde no número de mortes (1.021) em 24 horas em São Paulo e relatos de que o Centro de Contingência ao Coronavírus do Estado vai propor ao governado João Doria a prorrogação da fase emergencial por mais 15 dias. O sistema de saúde no Brasil se mantém em estado crítico, com esgotamento nos leitos de UTI disponíveis e falta de equipamentos e oxigênio. Nesta terça, o Ministério da Saúde mudou novamente o cronograma de entrega vacinas e espera, agora, receber cerca de 9 milhões de doses a menos em abril do modelo AstraZeneca/Oxford, envasado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Nesse contexto, cresce a pressão por mais medidas fiscais para atenuar o choque, como por exemplo valor maior do que os R$ 250 do tíquete médio para o auxilio emergencial. Dólar Descolado de seus pares emergentes, onde ainda reverbera a aversão ao risco por conta da troca abrupta do presidente do banco central turco, o real se valorizou frente ao dólar na sessão desta terça-feira e a cotação chegou a voltar ao nível de sexta-feira, quando ainda havia reflexos mais positivos sobre a decisão de arrocho monetário, levando a taxa Selic a 2,75% ao ano. No entanto, bem próximo ao fechamento, o dólar virou e passou a oscilar em terreno positivo, pontualmente, com o movimento ocorrendo em sintonia com a piora do Ibovespa e indicando uma saída de recursos, segundo Durval Corrêa, assessor financeiro da Via Brasil Serviços Empresariais. Assim, o dólar fechou em queda de 0,04%, cotado a R$ 5,5157. O racional para o dia, entretanto, prevaleceu. De acordo com especialistas em câmbio, para além do impacto direto na moeda local pela mensagem mais dura contida na ata do Copom, o câmbio reage à queda dos juros dos treasuries americanos, principalmente na ponta longa de vencimento de dez anos. Para Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual digital, o câmbio mais tranquilo é mais reflexo com os yields somando à política de leilões que o Banco Central vem fazendo. Na sessão de negócios desta terça, as taxas dos títulos de dez anos do governo americano chegaram a cair mais de 3%. Frasson explica que esta semana dois dados do mercado imobiliário vieram muito abaixo das expectativas, como as vendas de casas novas, mostrando que a economia americana não está se recuperando tão forte como parecia nos dados de janeiro. "E isso deu força para o discurso que os integrantes do Fed vem fazendo", notou o economista do BTG Pactual digital. Muito embora o câmbio tenha reagido mais positivamente nesta terça, o contexto atual com a pandemia praticamente em descontrole no Brasil e os riscos fiscais - reformas por fazer, pressão por mais gastos para auxílio, e um governo federal ainda sem orçamento no ano corrente - deixam a cautela no ar, impedindo uma queda mais acentuada do dólar. No exterior, as principais moedas de emergentes pares do real tiverem um dia de desvalorização, com o rublo da Rússia encabeçando as perdas. Às 17h10, o dólar subia 2,10% ante o rublo, 1,69% ante o peso chileno, 1,54% ante a lira turca e 1,40% ante o peso mexicano. "Moedas que mais caem mais são de BCs mais politizados", notou um gestor, fazendo uma comparação com o Banco Central brasileiro, que agora têm autonomia de "fato e de direto". "Um BC autônomo deixa o risco na política monetária mais escasso", afirmou. Bolsa Em dia negativo em Nova York e especialmente para os futuros de petróleo, em meio à apreciação do dólar no exterior e a receios sobre os efeitos econômicos da terceira onda de covid-19 na Europa, o Ibovespa chegou a ensaiar recuperação, aos 115 mil pontos, mas acabou se firmando em baixa ainda no meio da tarde, e passou a renovar mínimas na hora final dos negócios. Assim, no encerramento, o índice da B3 mostrava perda de 1,49%, aos 113.261,80 pontos, entre mínima de 113.061,89 (-1,67%) e máxima de 115.598,66 pontos, com giro a R$ 31,9 bilhões. Na semana, cede 2,55%, com ganhos no mês limitados a 2,93% - no ano, perde 4,84%. Há exatamente um ano, em 23 de março de 2020 o Ibovespa atingia o menor nível de fechamento do ciclo da pandemia, a 63.569,62 pontos - a recuperação em um ano é de 78,17%. O recrudescimento da pandemia neste março de 2021, na Europa e no Brasil, coloca para o segundo semestre a expectativa de retomada da economia, em meio a renovações de lockdown, aqui e lá fora. Durante a maior parte do dia, na contramão do avanço do dólar no exterior, decorrente da aversão ao risco pandêmico, a acomodação da moeda americana abaixo de R$ 5,50, a R$ 5,46 na mínima do dia, contribuía para moderar o ajuste do Ibovespa - em dia de ata do Copom 'hawkish', na esteira da decisão da semana passada, quando o BC surpreendeu ao elevar a Selic a 2,75% ao ano. Com o agravamento da aversão a risco desde o exterior, o dólar à vista acabou por mudar de sinal no fim de tarde para fechar o dia quase estável, em leve baixa de 0,04%, a R$ 5,5157. Com perdas acima de 6% nos futuros de petróleo, Petrobras PN fechou nesta terça em queda de 3,06% e a ON, de 2,30%, com Vale ON em baixa de 2,31%, as três nas mínimas da sessão no encerramento, em dia de fortalecimento do dólar no exterior ante referências como euro, iene e libra (DXY). Apesar da ata 'hawkish' do Copom, as ações de bancos também tiveram tarde negativa, com perdas de até 3,61% (BB ON). Na ponta do Ibovespa, Azul cedeu 6,80%, à frente de Gerdau PN (-4,36%) e CSN (-4,29%). Na face oposta, IRB subiu 5,91%, CVC, 5,56%, e Marfrig, 3,98%. Pesou a percepção de que a pandemia, a lentidão da vacinação e a falta de coordenação da União com Estados e municípios na reação ao colapso hospitalar mantêm elevado grau de incerteza sobre a economia doméstica, agravada pela prorrogação de lockdown em países como a Alemanha e, aqui, pelo relato de que o Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo enviou ao governador João Doria proposta para estender a fase emergencial no Estado por mais 15 dias. No exterior, sinal de que o governo americano poderá vir a ter de elevar impostos em meio ao esforço fiscal para dar sustentação à economia contribuiu para firmar os índices de ações em Nova York em terreno negativo nesta tarde, em renovação de mínimas que se refletiram também no desempenho do Ibovespa. Em audiência no Congresso dos EUA, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, reiterou o compromisso com a máxima geração de emprego e a meta de inflação de 2%, enquanto a secretária do Tesouro, Janet Yellen, "evitou confirmar que o governo aumentará os impostos cobrados de grandes empresas e pessoas que recebem mais de US$ 400 mil por ano, mas destacou a necessidade de elevar receitas", observa em nota Heloïse Sanchez, analista da Terra Investimentos. "Yellen não desmentiu. Isso sugere que haverá mesmo aumento de impostos, o que explica esta queda de quase 1% para o Dow Jones, em dia em que passada a ata do Copom, pela manhã, o mercado acompanhou o exterior, a partir do Powell e da Yellen no Congresso americano", diz Jefferson Laatus, estrategista do Grupo Laatus.