Buscar terça-feira, 1 de setembro de 2026
(67) 99913-8196
Dourados
17°C
Geral

Taxas de juros caem com melhora do apetite ao risco no exterior e sinais do BC

25 de março 2021 - 20h30 Por Estadão Contéudo
Taxas de juros caem com melhora do apetite ao risco no exterior e sinais do BC
O mercado de juros conseguiu algum respiro nesta quinta-feira, com as taxas terminando em baixa, após subirem fortemente desde a última sexta-feira. O noticiário da pandemia continua mantendo o risco fiscal e político elevados, mas alguns fatores nesta quinta conseguiram se contrapor, entre eles a melhora do apetite pelo risco no exterior, o leilão muito pequeno do Tesouro e a leitura das entrevistas do presidente e do diretor de Política Econômica do Banco Central, Roberto Campos Neto e Fábio Kanczuk, pela ordem, após a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI). O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) deste mês ficou abaixo da mediana das estimativas, mas por outro lado trouxe abertura considerada negativa. No fim da sessão regular, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 caiu de 4,741% para 4,665% e a do DI para janeiro de 2025, de 8,156% para 8,05%. O DI para janeiro de 2027 encerrou em 8,67%, de 8,70%. Ainda que no fechamento as variações tenham sido pequenas perto do nível de inclinação da curva, ao longo do dia o mercado enfrentou alguma volatilidade. Pela manhã, as taxas davam sequência à trajetória de alta pressionadas pelo alerta, na quarta, do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), segundo o qual o Legislativo não tolerará novos erros no enfrentamento da pandemia e que "os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos; alguns, fatais". No começo da tarde, o presidente Jair Bolsonaro disse ter conversado com Lira e que não há nenhum problema entre os dois. "Nunca teve nada errado entre nós. Sou velho amigo de Parlamento", disse. Com o aparente corte de arestas, o mercado se acalmou, também porque o dólar engatou sequência de mínimas, levando as taxas futuras a recuarem mais de 10 pontos no trecho longo, mas depois desaceleraram o ritmo de queda dado que a moeda americana voltou a subir ante o real. Vinicius Alves, estrategista da Tullett Prebon, relaciona o alívio nas taxas curtas à leitura das declarações de Campos Neto e Kanczuk. "Reforçaram que a normalização da Selic não chegará no nível neutro", destacou. Ou seja, o ciclo de aperto pode ser menor do que o mercado está precificando, com Selic acima de 6% no fim do ano. O presidente do BC afirmou que não está no horizonte de curto prazo do BC a normalização total da taxa em direção ao nível neutro. "Se a normalização é parcial, significa que nós não entendemos que esse movimento deva acontecer (na íntegra) agora", afirmou. Campos Neto negou categoricamente que o BC estivesse atrás da curva. "Não." O leilão pequeno do Tesouro contribuiu ao não adicionar estresse. A instituição ofertou apenas 150 mil LTN, ante 2,050 milhões na semana passada, vendendo todo o lote. O interesse pelas NTN-F, diante do contexto turbulento em termos fiscais e políticos, mais uma vez foi fraco. O IPCA-15 de março subiu 0,93%, abaixo da mediana das estimativas (0,96%), o que não serviu de consolo pois a abertura foi considerada ruim. O indicador de difusão atingiu a marca de 65,7%, de 62,4% em fevereiro, de acordo com a Asa Investments. Dólar O dólar passou a etapa vespertina dos negócios pressionado, mais perto das máximas da sessão (R$ 5,68), indicando o sentimento de cautela dos investidores pelo aumento da tensão política e com preocupações sobre o quadro fiscal diante de pressões por mais gastos para enfrentar a grave pandemia no Brasil - e que podem colocar novamente o teto de gastos em risco. Além disso, especialistas em câmbio disseram que também pesou a indicação do presidente do Banco Central, de que o nível do câmbio não influencia a autoridade monetária a fazer um ajuste nos juros maior ou menor. Para Vanei Nagem, gestor de câmbio da Terra Investimentos, o cenário político está muito ruim e o temor que deixa os investidores ressabiados é que o presidente Jair Bolsonaro perca a governabilidade para o Centrão. Após o discurso da quarta do presidente da Câmara, dando demonstração de "insatisfação" em relação à condução da crise sanitária pelo governo, nesta quinta o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), cobrou mudanças na política do Ministério de Relações Exteriores (MRE) depois de depoimento do chanceler Ernesto Araújo aos senadores na quarta-feira. Nagem também afirmou que a possibilidade de haver uma extensão das restrições em São Paulo e em várias outras partes do país deixa de sobreaviso quanto aos impactos sobre a retomada da economia. "Já começam a precificar o baque econômico antes", disse. Sobre as declarações de Campos Neto, o gestor de câmbio afirmou que a indicação de que não deve elevar a taxa Selic para além dos 0,75 ponto porcentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) fez o dólar esticar a ponto de o BC ter de intervir. Pela manhã, a autoridade monetária vendeu o lote integral de US$ 3 bilhões ofertados em três leilões de linha (venda de dólares com compromisso de recompra). Ao mesmo tempo, moedas de emergentes pares do real seguiram desvalorizadas frente ao dólar durante a sessão, com destaque para a lira turca, frente a qual o dólar subia 0,56%, às 16h55. Por aqui, o dólar à vista encerrou o dia em alta de 0,55%, cotado a R$ 5,6705, tendo oscilado entre a máxima de R$ 5,6817 e a mínima de R$ 5,6193. Bolsa Em dia no qual o humor externo seguiu em parte afetado pela retomada da pandemia na Europa, com extensão de lockdown em meio ao que se teme como terceira onda de covid-19, os investidores, mesmo com o dólar em alta na sessão, foram às compras na B3 em busca de ações com desconto, como as de Petrobras e bancos, na maioria muito depreciadas no ano. Assim, o Ibovespa encontrou fôlego para retomar o nível de 113 mil pontos, chegando a flertar com o de 114 mil, entre mínima de 110.926,74 - menor nível intradia desde 10 de março - e máxima de 114.024,30 pontos nesta quinta-feira. Ao fim, vindo de três perdas consecutivas acima de 1%, o índice mostrava alta de 1,50%, a 113.749,90 pontos, com giro a R$ 36,2 bilhões. Na semana, ainda cede 2,13%, colocando os ganhos do mês a 3,38% - no ano, perde 4,43%. Apesar do ajuste negativo dos preços da commodity após salto de quase 6% no dia anterior, as ações da Petrobras, que acompanharam na quarta a perda de fôlego dos componentes do Ibovespa em direção ao fim do pregão, tiveram recuperação nesta quinta, com a PN em alta de 1,67% e a ON, de 1,91%, no fechamento. Destaque também para parte do setor de siderurgia (Gerdau PN +1,49%), para o segmento de bancos, que acumula perdas de até 22,5% no ano (BB ON), todo positivo nesta quinta (Bradesco PN +2,23%, Itaú PN +1,77%), e especialmente para o setor de utilities, com Eletrobras ON em alta de 4,96% no encerramento, reagindo bem à indicação do próximo presidente da empresa. "Por mais que o processo seja questionado e visto negativamente pelo mercado, a indicação de um nome técnico e que possui um bom trânsito no meio político eleva o humor dos analistas para que possa ocorrer a capitalização da companhia (Eletrobras)", aponta a Ativa Research. Na ponta do Ibovespa, Equatorial fechou nesta quinta-feira em alta de 6,95%, seguida por Pão de Açúcar (+5,25%) e Via Varejo (+5,24%). No lado oposto, Sul América cedeu 2,82%, CCR, 2,11%, e Minerva, 1,51%. No cenário macro, o Relatório Trimestral de Inflação, divulgado no período da manhã, mantém a perspectiva "hawkish" já expressada no comunicado sobre a decisão de política monetária da semana passada, e especialmente na ata do Copom. O dia também reservou novos comentários do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e do ministro da Economia, Paulo Guedes, em geral bem recebidos pelo mercado. "O presidente do BC disse que, embora a mudança (na Selic) tenha começado na última reunião do Copom, a taxa básica de juros não deixaria de ser estimulativa", observa em nota Heloïse Sanchez, analista da Terra Investimentos. Por sua vez, "Guedes afirmou que além do auxílio emergencial, assim que o Orçamento for aprovado, irá antecipar diversos benefícios, na ordem de R$ 50 bilhões, para ajudar na 'guerra' contra a pandemia." "No começo da tarde, Campos Neto afirmou que o Copom não subirá a Selic a ponto de deixar de estimular a economia e deu a entender que o mercado está exagerando no ritmo de alta. A partir de agora, o Bacen e o mercado vão precisar ponderar aumento global da inflação - que, aparentemente, não irá dar trégua no curto prazo - e a perspectiva de crescimento para o Brasil, que segue em queda com o avanço da pandemia", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. A inflação, aqui e fora, permanece como um fator de preocupação para o mercado, especialmente pelo efeito que poderá causar à política monetária dos Estados Unidos, ainda muito afrouxada. "Teremos nos próximos meses um aumento relevante da inflação em 12 meses e, neste momento, houve uma reprecificação importante dos títulos do Tesouro americano, com elevação expressiva das taxas", aponta a ASA Investments, chamando atenção para quadro não favorável aos emergentes, "sensíveis a juros mais elevados". "E tais efeitos devem ser ainda mais importantes para o Brasil, que tem se mostrado inepto em lidar com a pandemia e com um viés claramente populista no campo fiscal", acrescenta a ASA, antecipando "mais inflação, juros mais altos e menor crescimento" como corolário desta conjuntura.