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Dólar fecha com alta de 1,25% com preocupação fiscal, pandemia e treasuries

26 de março 2021 - 20h06 Por Estadão Contéudo
Dólar fecha com alta de 1,25% com preocupação fiscal, pandemia e treasuries
A acelerada do dólar à máxima de R$ 5,7568 na sessão desta sexta-feira indicou o maior valor desde dia 9 de março (R$ 5,7974). Segundo especialistas em câmbio, houve um conjunto de fatores, principalmente de ordem doméstica, muito embora também tenha refletido o avanço do rendimento dos títulos do Tesouro americano com prazos de vencimento mais longos em meio às perspectivas para recuperação mais acentuada da economia dos Estados Unidos, impulsionada pelo acelerado processo de vacinação contra a covid-19. Sem qualquer atuação do Banco Central, o dólar à vista encerrou com alta de 1,25%, cotado a 5,7413. Pontos de tensão seguem no radar dos investidores como as manobras fiscais, vistas na quinta-feira à noite para a aprovação do Orçamento de 2021, a pandemia descontrolada - dentro do entendimento de que serão requeridos mais gastos - e ainda a indicação pelo próprio Banco Central de que o ritmo de normalização da política monetária não deve ser tão forte como estava sendo precificado, mantendo, assim, o baixo diferencial de juros com o exterior. "Já se discute o retorno do estado de calamidade, o que dá um novo cheque em branco para gastos. Ou seja, um retorno à situação vista em 2020", diz Felipe Sichel, estrategista-chefe do banco digital Modalmais. "Há motivos do ponto de vista monetário, político e econômico. Os três trabalhando juntos para a desvalorização da moeda hoje", complementou Sichel. Nem notícias sobre a fabricação de vacinas nacionais aliviou a tensão dos investidores nesta sexta-feira que faz parte de um período de feriados antecipados, com prorrogação do estado emergencial até 11 de abril. Nesta sexta-feira, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou pela manhã nova vacina produzida pelo Instituto Butantan contra a covid-19. Batizada de Butanvac, o imunizante foi desenvolvido em solo nacional e terá o pedido para fase de testes clínicos protocolado nesta tarde junto à Agência Nacional de Vigilância (Anvisa). Além disso, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse ter mais uma vacina brasileira em desenvolvimento com a Universidade de São Paulo. Juros Os juros futuros não sustentaram o movimento de queda iniciado ainda na quinta-feira e fecharam a sexta-feira entre a estabilidade nos contratos longos e alta nos demais vértices. As taxas acompanharam a deterioração geral vista nos demais ativos e inverteram a direção na última hora da sessão regular, com o dólar renovando máximas acima de R$ 5,75 e o rendimento da T-Note de 10 anos voltando a se aproximar de 1,7%. Até então, a mensagem do Banco Central, na quinta, de que a normalização da Selic não deve levá-la até o nível neutro e a aprovação do Orçamento, ainda que o texto tenha sido enfraquecido do ponto de vista fiscal, produziam alívio de prêmios, além do fato de as taxas já terem subido muito nos últimos dias. Ainda que nesta sexta os curtos tenham tido desempenho pior do que os longos, no balanço da semana a curva teve ganho importante de inclinação, de cerca de 50 pontos. Por outro lado, no fim do dia, as apostas de aperto de 1,25 ponto porcentual na Selic no Copom de maio voltaram a ganhar espaço em relação ao cenário da manhã, mas ainda seguem minoritárias. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 4,676% na quinta para 4,725% e a do DI para janeiro de 2025 encerrou a sessão regular em 8,11%, de 8,05% no ajuste de quinta. A do DI para janeiro de 2027 terminou em 8,69%, de 8,674%. Os juros começaram o dia dando sequência ao movimento de quinta, com taxas em baixa firme, de mais de 10 pontos no trecho longo, favorecidos por um ambiente mais ameno após a aprovação do Orçamento no Congresso. A contabilidade "criativa" pela qual passou o texto para o encaixe de bilhões de reais em emendas parlamentares foi relevada pelo mercado, que olhou o copo meio cheio. "Ficou mais o lado de que o Orçamento passou e agora é 'página virada', mas com muitas dúvidas sobre transparência e o fato de que terá de fazer um contingenciamento grande", disse o estrategista da CA Indosuez Brasil, Vladimir Caramaschi. O Balanço de Pagamentos de fevereiro, com déficit menor do que o previsto e salto no Investimento Direto no País (IDP) muito acima do previsto, embora não tenha tido efeito diretamente nas taxas, contribuiu para encorajar a tomada de risco. "O mercado vinha tão estressado que chega uma hora que qualquer coisa ajuda", afirmou Caramaschi. À tarde, com maior pressão dos Treasuries afetando o dólar, a moeda americana passou a renovar máximas ante o real, enfraquecendo a Bolsa e zerando a queda dos juros, a despeito do noticiário positivo sobre vacinas contra covid-19 anunciado nesta sexta pelos governos federal e de São Paulo. Bolsa Após ter ensaiado estender os ganhos da quinta-feira, retomando o nível de 115 mil pontos no melhor momento desta sexta-feira, o Ibovespa chegou a se curvar à pressão do dólar, que foi a R$ 5,7568 na máxima desta sexta, lançando então o índice de ações da B3 a terreno negativo. Ao fim, mostrava alta de 0,91%, a 114.780,62 pontos, acumulando perda de 1,24% na semana, após ganho de 1,81% no intervalo anterior - nas últimas cinco semanas, sem interrupção, tem alternado perdas e ganhos, refletindo grau maior de incerteza associado à pandemia, à extensão do distanciamento, às iniciativas de mitigação de danos econômicos e sociais, e, no exterior, a pressão sobre os rendimentos dos Treasuries. No mês, faltando três sessões para o encerramento de março, o Ibovespa acumula ganho de 4,31%, colocando as perdas do ano a 3,56%. O giro financeiro desta sexta-feira ficou em R$ 33,2 bilhões. Com abertura a 113.750,08 pontos, o Ibovespa alcançou na máxima do dia os 115.415,60 pontos, com mínima, à tarde, a 113.305,43 pontos, enquanto o dólar à vista ia às máximas da sessão. "Esse dólar estourando reflete cenário fiscal que vem se estrangulando, pressionado pela crise do coronavírus, que resulta em apelo por mais gastos públicos, mais auxílio, mais medidas populistas, sem perspectiva ainda de alguma retomada econômica, o que se reflete em especial nas ações com exposição à mobilidade, como as administradoras de shoppings e as empresas do setor de educação", diz Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos. Heloïse Sanchez, analista da Terra Investimentos, observa em nota que a aprovação do Orçamento para 2021, na quinta, com emendas que elevam gastos, contribui para manter o real entre as moedas emergentes mais pressionadas. Assim, o peso do câmbio chegou a deixar em segundo plano o que de positivo emergiu nesta sexta-feira, como o anúncio da vacina própria do Butantan, em dia favorável no exterior, com boa leitura sobre a confiança do consumidor nos EUA e a reiteração, nesta semana, de viés ainda estimulativo para a política monetária americana. "Em ambiente de juros muito baixos lá fora, as ações de commodities refletiam isso, especialmente mais cedo, com o prosseguimento do 'reflation trade'", diz Akamine, chamando atenção também para o atraso na desobstrução do canal de Suez, que manteve o petróleo em alta acima de 4% nesta sexta. Em Nova York, os três índices de referência mostravam ganhos acima de 1% no fechamento, dando suporte ao segundo ganho consecutivo do Ibovespa, apesar das incertezas domésticas. Na ponta negativa do Ibovespa nesta sexta-feira, destaque para queda de 4,51% na ação da Cogna, à frente de Qualicorp (-3,42%) e de JHSF (-3,02%). No lado oposto, Pão de Açúcar subiu 5,90%, com Bradespar em alta de 5,69% e Gerdau PN, de 5,26%. No pior momento do dia, Petrobras chegou a zerar ganhos, mas ao fim da sessão mostrava alta de 1,12% na PN e de 1,48% na ON, enquanto Vale ON subia 3,34%. As ações de bancos chegaram a mostrar desempenho misto, mas ao fim se firmaram em alta, com destaque para Santander (+3,46%).