Buscar quarta-feira, 2 de setembro de 2026
(67) 99913-8196
Dourados
14°C
Geral

Dólar vai a R$ 5,80 com tensão política e fiscal, mas fecha a R$ 5,7663

29 de março 2021 - 20h19 Por Estadão Contéudo
Dólar vai a R$ 5,80 com tensão política e fiscal, mas fecha a R$ 5,7663
Após uma manhã tensa, que abriu caminho para que o dólar galgasse a R$ 5,8067, a divisa norte-americana amenizou o ímpeto frente ao real e chegou até a mínima de R$ 5,7381. De acordo com profissionais da área de câmbio, os riscos de pedaladas fiscais aliados às mostras de desorganização do governo, com o desembarque de ministros a quadros técnicos, dão um tom negativo para a moeda local. Houve ainda influência vinda do exterior, com os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano mais longos novamente em alta, o que contribuiu para que moedas de países emergentes desvalorizassem. O dólar à vista fechou em alta de 0,44%, a R$ 5,7663. Na manhã desta segunda-feira, a velocidade com a qual o real se desvalorizou frente à moeda norte-americana foi notória de problemas vistos no final de semana, que envolveu o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e congressistas, em especial a senadora Kátia Abreu. "Tanto que, depois de oficializada a saída de Araújo, houve um desmonte de posições, levando o dólar a uma queda adicional junto com o retorno do DXY naquele momento. Agora o mercado espera quem vai entrar no lugar. Mas a saída foi positiva", disse Thomás Giuberti, economista e sócio da Golden Investimentos. Após o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, pedir demissão, o governo teve mais uma baixa nesta segunda-feira. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, comunicou por meio de nota oficial divulgada pela assessoria estar deixando a pasta. No momento, o dólar que já estava arrefecido, oscilando em torno de R$ 5,74, acelerou para a marca dos R$ 5,77. Para Vanei Nagem, responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, a saída de Azevedo, pode ter se dado em um movimento para acomodar pedidos do chamado Centrão e é mais um fator que mostra a desorganização do governo. "O governo mostra que não está coeso", disse. Sobre o rebote do dólar, que persiste alto, sobre a inflação, Giuberti ressalta que o movimento coloca em dúvida a necessidade de o Banco Central apertar mais forte a política monetária já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). "Está com cara de que o dólar vai ficar alto mesmo. Será que o BC vai ter de elevar em um ponto porcentual a Selic? O Roberto Campos Neto presidente do BC disse que subiria 0,75 a não ser que houvesse algo mais extraordinário e o dólar nesse nível pode ser isso." Taxas de juros Os juros terminaram a segunda-feira em alta, refletindo tensões políticas e fiscais no Brasil e também mais um dia de estresse no segmento de Treasuries. As taxa longas tiveram alta de 13 pontos-base e as de curto prazo fecharam quase estáveis, configurando novo aumento de inclinação da curva. O desenho espelha as preocupações com a maquiagem da proposta de Orçamento 2021 para acomodar bilhões em emendas parlamentares e o aumento do ruído político envolvendo Ernesto Araújo, que acabou deixando o cargo. Lá fora, o retorno da T-Note de 10 anos acima 1,70%, mesmo num dia esvaziado de indicadores e sem leilões de venda de títulos, ajudou a inclinar a curva. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 4,736% para 4,765% e a do DI para janeiro de 2025 fechou a etapa regular em 8,26%, de 8,116% no ajuste de sexta-feira. A taxa do DI para janeiro de 2027 terminou em 8,83%, de 8,694%. Com mais uma edição do Boletim Focus apontando nova alta na mediana de Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 2021 (4,71% para 4,81%), os juros já abriram pressionados também pelo noticiário do fim de semana e, ainda pela manhã, chegaram a avançar 20 pontos-base na ponta longa. Internamente, o principal fator a empurrar as taxas foi o Orçamento 2021. O mercado reagiu relativamente bem à aprovação pelo Congresso na quinta-feira, relevando, num primeiro momento, os problemas fiscais que o texto apresentava. O economista Silvio Campos Neto, da Tendências, afirma que durante o fim de semana os agentes digeriram melhor o Orçamento, com uma leitura bastante disseminada de que há diversos problemas, inclusive legais. "Mais do que isso, ficou a mensagem de despreocupação com a questão fiscal, o que certamente amplia o desconforto da equipe econômica diante desta eventual 'vitória' da ala desenvolvimentista'", disse. Com dezenas de bilhões em emendas parlamentares colocadas no texto, a peça foi considerada "inexequível" pelo próprio Ministério da Economia, que calcula que a máquina do governo teria de funcionar com apenas R$ 49,5 bilhões até o final do ano - praticamente a metade do que os especialistas consideram o patamar mínimo para não ter uma paralisação. "O Orçamento como está não dá para ficar, dado o risco de questionamento jurídico. A Economia demorou a reagir e o presidente Bolsonaro se cala, parecendo dar anuência", disse o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa. Dada a repercussão muito negativa, o relator do Orçamento, Márcio Bittar (MDB-AC), estaria sendo cobrado a ajustar ainda nesta segunda-feira o excesso de emendas, segundo apurou o Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Com essa informação, as taxas, no começo da tarde, chegaram a desacelerar o avanço para menos de 10 pontos. Ajudou ainda no alívio a notícia da saída de Araújo, que já estava muito desgastado pelo fracasso na negociação com o exterior das vacinas contra a covid-19. A pá de cal, contudo, foram os ataques dele no domingo à senadora Kátia Abreu (PP-TO), do Centrão, insinuando que ela teria defendido interesses da China nas negociações da tecnologia 5G. Porém, mais tarde devolveram parte do alívio, com o rendimento da T-Note novamente rompendo 1,70%. "Não tivemos indicador que pudesse justificar hoje essa puxada dos Treasuries, embora, olhando mais para a trajetória, é claramente de alta", disse o economista da SulAmérica que, no entanto, esperava que as taxas ficassem estabilizadas em nível alto até pelo menos a divulgação do relatório de emprego nos Estados Unidos. Bolsa Em dia de bom desempenho para empresas com receita em dólar e exposição à demanda externa, como as de commodities, siderurgia e parte dos frigoríficos, o Ibovespa retomou a linha de 115 mil pontos, atingindo seu melhor nível de fechamento desde o último dia 19 (116.221,58 pontos). Nesta segunda-feira, de máxima intradia a R$ 5,8067 e de fechamento a R$ 5,7663 (+0,44%) para o dólar à vista, o índice da B3 encerrou em alta de 0,56%, a 115.418,72 pontos, entre mínima de 114.095,70 e máxima de 115.552,84 pontos, com giro moderado, a R$ 25,7 bilhões. Faltando duas sessões para o fim do mês, o Ibovespa acumula ganho de 4,89% em março, limitando as perdas do ano a 3,02%. Após alerta sobre prejuízos em bancos estrangeiros, como Credit Suisse e Nomura, em razão de um fundo americano não ter cumprido compromissos, o desempenho misto do setor financeiro (Santander -2,93%, Bradesco ON +0,73%), o de maior peso no Ibovespa, foi o contraponto ao avanço dos segmentos de commodities (Vale ON +2,56%, Petrobras PN +1,58%) e siderurgia (CSN ON +3,67%), em dia de forte alta, de 4,08%, no minério de ferro em Qingdao (China), impulsionada por leitura acima do esperado para o lucro industrial chinês no primeiro bimestre, "o que reforça a expectativa de aumento da demanda em vista da forte atividade", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Destaque também para Minerva (+6,51%), segunda maior alta dentre os componentes do Ibovespa. No lado oposto, Eztec fechou em baixa de 3,04%, à frente de Santander (-2,93%), de Sul América (-2,81%) e de Cyrela (-2,58%). No pódio do dia, além de Minerva, Taesa (+6,37%) e Pão de Açúcar mais uma vez na ponta (+7,10%). "Os papéis ligados ao mercado externo, com receita dolarizada, como os de commodities e parte dos frigoríficos, vêm performando muito bem, nessa aposta em ações com exposição a países com perspectiva de recuperação mais clara do que o Brasil. As empresas ligadas ao setor interno continuam sofrendo mais, como varejo e construção civil", diz Romero Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos, em Vitória. "O foco do mercado continua no Orçamento, aprovado na semana passada: se pode ter burlado em alguma medida o teto de gastos, o que continua se refletindo em estresse nos DIs futuros, em prêmio de risco nos juros. A dúvida é se este orçamento será executado, foco do mercado daqui para frente. A política externa também ganhou atenção e, com a saída do Ernesto Araújo, a expectativa é se haverá melhora de acesso a vacinas e insumos que chegam do exterior, a depender de quem será o escolhido para substituí-lo", acrescenta Oliveira. As incertezas sobre a política, em meio à mais recente dança de cadeiras em Brasília, contribuem para alimentar a expectativa por maior acomodação do Centrão no governo, em momento em que o fiscal continua no foco do mercado, após a controversa aprovação do Orçamento. "No texto, despesas obrigatórias, como Previdência e folha de pagamento dos servidores públicos, estão subestimadas entre R$ 30 e 40 bilhões, aumentando muito a probabilidade de paralisação do governo (shutdown)", diz Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos. Soluções "criativas" para o Orçamento de 2021, que pareceu incorporar emendas de parlamentares em detrimento de uma percepção realista sobre as necessidades de custeio, mantêm os investidores na defensiva, após a própria equipe econômica ter ventilado que a peça orçamentária seria "inexequível". "As incertezas fiscais pesaram sobre o índice (Bovespa) na sessão de hoje, em função dos cortes realizados em despesas primárias obrigatórias e pelo crescimento de gastos em outras áreas, para viabilizar as emendas parlamentares propostas. Com isso, deputados federais de diversos partidos enviaram uma carta ao presidente Jair Bolsonaro solicitando informações sobre medidas para o cumprimento das regras fiscais, sem incorrer em crime de responsabilidade", observa Thayná Vieira, economista da Toro Investimentos.