Considerado um dos políticos mais rígidos na adoção de normas de enfrentamento do novo coronavírus, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), criticou ontem a postura negacionista em relação à pandemia. "A situação está grave no planeta Terra. Em que planeta estão os negacionistas? Os que ainda não estão, serão entubados. Isso não é só a medicina que está dizendo, mas a probabilidade estatística", disse ele durante entrevista à TV Estadão.
A capital mineira registrou nas últimas 24 horas recorde de mortos: 92. A taxa de ocupação de UTIs está em 35%, e Kalil afirmou que busca farmacêuticas para comprar vacinas. Segundo ele, a prefeitura tem recursos para adquirir 4 milhões de doses, mas não consegue acordo para adquiri-las. A dificuldade também é enfrentada pelo prefeito da capital paulista, Bruno Covas (PSDB), que tenta lançar seu próprio plano de vacinação.
Sobre a conduta do presidente Jair Bolsonaro na crise sanitária, Kalil disse que o correto seria o chefe do Executivo admitir erros e parar de achar que as pessoas que não concordam com ele são suas inimigas. "Falta uma palavra no dicionário do presidente, e eu disse essa palavra hoje: 'errei'. 'Sou humano e errei'", declarou o prefeito de Belo Horizonte.
Para Kalil, o governo federal precisa dar uma guinada em todas as suas ações relativas à pandemia do coronavírus e trabalhar de forma conjunta com os demais entes federativos. Bolsonaro mantém embate constante com governadores e prefeitos por causa da adoção de medidas restritivas locais. "O que ele (Bolsonaro) fala tem peso. O que falta ao presidente da República é parar de criar inimigo. Ele tem que convocar governadores, prefeitos. Não precisa de intermediário, é uma questão hierárquica", disse Kalil.
Kalil avaliou também que "errou" ao indicar que poderia não cumprir a decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), de liberar cultos religiosos presenciais. "Por pior que sejam as decisões, elas devem ser cumpridas", afirmou.
No sábado, Nunes Marques autorizou o funcionamento de igrejas com a presença de fiéis. Após a decisão monocrática do ministro, Kalil disse, nas redes sociais, que, em Belo Horizonte, valeria para o domingo de Páscoa o decreto da prefeitura que havia proibido reuniões religiosas. Intimado por Nunes Marques a cumprir a determinação, o prefeito teve de recuar.
Sua posição contrária a qualquer tipo de aglomeração, no entanto, não mudou. "Quando se aglomera em qualquer lugar, desde um baile funk a um culto - e não estou aqui comparando -, se joga (a responsabilidade) no colo do profissional de saúde."
Críticas
O prefeito da capital mineira respondeu, ainda, às críticas feitas a ele por alguns dos principais líderes evangélicos do País. O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, chamou Kalil de "bobalhão" e "inescrupuloso". Já Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, disse que o prefeito é "louco" por, segundo o pastor, desrespeitar Deus.
"Ser agredido porque penso diferente é típico de quem não é cristão e não tem empatia. Os termos chulos devem ficar na boca dos desbocados", rebateu Kalil, que disse não conhecer pessoalmente Malafaia. "Só o vi no aeroporto uma vez, de terno e gravata e de rolex no braço."
No segundo mandato - foi reeleito em primeiro turno ano passado com 63% dos votos -, Kalil já determinou o fechamento de todas as atividades comerciais não essenciais na cidade em quatro oportunidades. A mais recente se deu no início de março e segue válida. Aos domingos, até mesmo padarias, supermercados e açougues fecham para evitar aglomerações.
"Eu sou atleticano fervoroso, mas, se estou proibido por uma questão sanitária de ir ao estádio, não sou menos torcedor por isso. Na pandemia, tenho que seguir o Atlético pela televisão", afirmou o prefeito.