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Dólar cai a R$ 5,67 com exterior enquanto impasse do Orçamento persiste

14 de abril 2021 - 20h08 Por Estadão Contéudo
Dólar cai a R$ 5,67 com exterior enquanto impasse do Orçamento persiste
As incertezas sobre o Orçamento de 2021 persistem, em dia sem novas desdobramentos sobre o tema, mas influenciada pelo exterior positivo, em pregão marcado por queda mundial do dólar, a moeda americana teve dia de perdas também ante o real. Em dia com apetite por risco de emergentes no exterior, após bons balanços de grandes bancos americanos e dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) reforçando a manutenção de estímulos, operadores relataram entrada de fluxo externo no mercado doméstico e perspectiva de novos aportes, em meio a emissões de ações e renda fixa de empresas. Notícias de mais vacinas da Pfizer para o Brasil também ajudaram, enquanto as mesas de operação monitoraram o noticiário político, em dia de julgamentos no Supremo, sobre a CPI da pandemia, que foi confirmada pelos demais ministros, e as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva. No fechamento do mercado, o dólar à vista encerrou o dia em queda de 0,82%, a R$ 5,6705. Já o dólar futuro para maio cedia 1,04%, a R$ 5,6650 às 17h40. Com o Ibovespa superando os 120 mil pontos, houve relatos de novos fluxos nesta quarta para o Brasil. Dados do Banco Central desta quarta-feira mostram fluxo cambial de US$ 1,064 bilhão entre os dias 5 a 9 de abril, dos quais US$ 927 milhões pelo canal financeiro. Depois deste período, houve outras operações, como a venda de debêntures da Vale da carteira do BNDES, em operação de R$ 11,5 bilhões, com demanda duas vezes maior que a oferta. O analista de mercados do banco Western Union, Joe Manimbo, observa que, diferente de março, abril tem sido marcado por um dólar mais fraco no mercado internacional. E este movimento continuou nesta quarta, com a divisa dos EUA testando mínimas em um mês ante pares como o euro e o dólar canadense. Este movimento beneficia também as moedas de emergentes. Para ele, as constantes manifestações do Federal Reserve de que não tem pressa em retirar os estímulos monetários, mesmo com inflação mais pressionada, estão ajudando. Nesta quarta, o presidente do Fed, Jerome Powell, em seu aguardado discurso, afirmou que a instituição pode tolerar a inflação mais alta e moderadamente acima dos 2% das meta "por algum tempo". Ele ressaltou que elevação de juros antes de 2022 é "altamente improvável". No Brasil, o economista para o país do Barclays, Roberto Secemski, avalia que o orçamento de 2021 não é executável e ameaça o teto de gastos. O maior desafio para resolver a questão é político, comenta ele, pois houve corte de despesas obrigatórios para abrigar emendas parlamentares. Possivelmente, alguma cicatriz vai ficar entre o Planalto e o Congresso após a resolução do imbróglio, avalia em nota. A PEC do governo, vista como uma solução para renovar os programas de combate à pandemia e destravar o Orçamento de 2021, gerou muitas críticas e está sendo reformulada. Juros Os juros fecharam a quarta-feira em queda, favorecida pelo apetite ao risco visto no mercado de moedas emergentes, especialmente após declarações do presidente do Federal Reserve, no período tarde, e, internamente, reforço na sinalização do Banco Central sobre o plano de voo para a política monetária. Os agentes seguem à espera de novidades da área fiscal, sobretudo no tocante ao Orçamento, com alguma expectativa também de mudança na chamada PEC "fura-teto", após a reação fortemente negativa à ideia. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou a sessão regular em 4,735%, de 4,792% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 8,396% para 8,30%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa em 8,95%, após terminar a terça-feira em 9,025% no maior nível desde março do ano passado. Os DIs já recuavam no começo do dia, repercutindo declarações de presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na terça à noite. "Ele reforçou que uma nova alta de 0,75 ponto da Selic já está contratada e que o câmbio em si não é o motivo para subir juro", afirmou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa. Mas, ainda pela manhã, chegaram a zerar a queda e ensaiar alta, após o presidente Jair Bolsonaro dizer que aguarda "uma sinalização do povo" para "tomar providências" a respeito das consequências econômicas causadas pela pandemia da covid-19. "Estávamos bem pela manhã, mas aí vieram essas palavras mais fortes, esse tom mais bélico, para estressar o mercado", afirmou o gestor de renda fixa da Sicredi Asset, Cassio Andrade Xavier. No entanto, como tem sido a tônica recente, a queda das taxas continua a ser tratada como movimento pontual, sem qualquer mudança de tendência enquanto perdurarem no horizonte as incertezas fiscais. "Não dá para chamar o que vimos hoje como ponto de inflexão, a curva vai seguir empinada. O imbróglio do Orçamento permanece, mas hoje foi colocado um pouco em stand by", previu Camargo Rosa. O noticiário em torno da PEC "fura-teto", que sugere R$ 18 bilhões em emendas para obras fora da regra, segue no radar. Nada de concreto ainda foi decidido, mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse a interlocutores que a proposta de tirar do teto de gastos tal montante foi uma "variante que escapou do laboratório". A equipe econômica alertou que a proposta não seria bem-recebida porque esses gastos não têm relação direta com a pandemia. Bolsa O Ibovespa retomou nesta quarta-feira a linha de 120 mil pontos pela primeira vez desde fevereiro, em terceiro ganho consecutivo, refletindo a expectativa positiva para a economia norte-americana em meio ao início da temporada de resultados do primeiro trimestre, aberta pelos bancos. Aqui, com um primeiro semestre há tempos considerado perdido, a atenção se volta para normalização gradual nos seis meses finais de 2021, a depender do ritmo da vacinação, em ano agravado por incerteza fiscal que tem se refletido de forma mais próxima no câmbio e nos juros futuros. Nesta quarta, auxiliado por ganho acima de 4% no Brent e WTI, o Ibovespa fechou em alta de 0,84%, a 120.294,68 pontos, entre mínima de 119.297,53, da abertura, e máxima de 120.871,45 pontos, no maior nível de encerramento desde 17 de fevereiro (120.355,79 pontos). "O avanço das commodities e o 'reflation trade' continuam acontecendo, globalmente, com base na expectativa de uma retomada mais forte da economia americana. Os resultados no primeiro trimestre de grandes bancos, como JPMorgan e Goldman Sachs, um setor cíclico, reforçam a perspectiva positiva para o ano nos Estados Unidos. Diferentemente do que costuma ocorrer, as expectativas de resultado para a temporada foram sendo revisadas para cima ao longo do tempo, refletindo esta melhora. A expectativa é de que os lucros das empresas que compõem o S&P 500 tenham crescimento de 25% a 35% em relação ao mesmo período do ano passado", observa Erminio Lucci, CEO da BGC Liquidez. Lucci chama também atenção para outro ponto: apesar da recuperação do Ibovespa, estendida de março para esta primeira quinzena de abril, o giro financeiro tem se mantido fraco, e a volatilidade, contida, refletindo a dificuldade de se construir posição para o médio prazo, em razão do grau de incerteza que afeta, em especial, a economia doméstica. Ainda assim, ele identifica busca por "ativo real", especialmente em setores que acompanham a demanda externa, como o de commodities. Aqui, acrescenta Lucci, o apelo das ações reflete ainda o ambiente de juros reais negativos, com o "próximo Copom já precificado". Nesta quarta, com giro a R$ 64,4 bilhões, reforçado pelo vencimento de futuros sobre o índice, o Ibovespa sustentou o topo intermediário de 120 mil pontos, operando na estreita faixa entre 119 mil e 120 mil no intradia pela primeira vez desde 8 de fevereiro, tendo fechado a primeira sessão de abril aos 115.253,31 pontos. Após ganho de 6% em março, em recuperação parcial de perdas superiores a 4% e 3% respectivamente em fevereiro e janeiro, o Ibovespa, perto do fechamento da primeira quinzena de abril, acumula até aqui ganho de 3,14% no mês, desde a terça em terreno positivo no ano - nesta quarta, passa a acumular alta de 1,07% em 2021. A mudança de direção ocorre a despeito da persistente preocupação sobre o fiscal - situação agravada por Orçamento ainda indefinido para 2021, sujeito a iniciativas "fura-teto" em meio a uma pandemia que cobra preço alto do ritmo de atividade doméstica e dos gastos públicos. Sem novidades internas que contribuam para melhorar o humor, o Ibovespa pega carona nas commodities, estimuladas pela recuperação cada vez mais firme nos Estados Unidos e já mais consolidada na China. Nesta quarta, Petrobras (PN +1,59%, ON +1,60%) e, em especial, Vale ON (+3,30%), a R$ 107,00, alinharam-se a siderurgia (Usiminas +4,21%, CSN +3,17%) e bancos (Santander +2,01%, Itaú PN +1,28%) na mesma direção. Parte das ações com exposição à economia doméstica, que estiveram entre as vencedoras do dia anterior, voltaram a cair nesta quarta, com Cogna (-4,62%), B2W (-2,77%) e Lojas Americanas (-3,16%) entre as componentes do Ibovespa de pior desempenho na sessão, assim como Iguatemi (-3,18%). Na ponta positiva do Ibovespa, destaque para Marfrig (+5,54%), CVC (+5,36%) e Minerva (+3,86%), além de Usiminas (+4,21%).