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Dólar tem 4ª queda seguida com exterior positivo e recua 1,6% na semana

16 de abril 2021 - 20h15 Por Estadão Contéudo
Dólar tem 4ª queda seguida com exterior positivo e recua 1,6% na semana
O aumento da busca por ativos de risco no exterior, estimulado por bons indicadores da economia dos Estados Unidos e o alívio nos juros longos americanos, ajudou o dólar a engatar nesta sexta-feira o quarto dia seguido de queda ante o real, mesmo com o impasse no orçamento de 2021 e os crescentes ruídos políticos. Nos últimos cinco dias, a moeda americana acumulou baixa de 1,6%, a maior das últimas quatro semanas, ajudada também pela entrada de fluxo externo para o Brasil, financeiro e de exportação. Com isso, a valorização do dólar no ano caiu para 7,6%, bem abaixo que foi no pior momento de 2021 até agora, em meados de março, quando chegou a subir 12%. O alerta dos profissionais das mesas de câmbio é que um ponto de inflexão para o real será se o presidente da República, Jair Bolsonaro, vai sancionar ou não o orçamento na semana que vem, com ou sem vetos. Em evento reservado nesta sexta do BTG Pactual, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mostrou otimismo e sinalizou que a questão do orçamento de 2021 será resolvida "sem rupturas", além de declarar mais de uma vez que as reformas vão andar. Lira não cravou se Bolsonaro vai sancionar o texto sem vetos, mas disse esperar que isso aconteça. As declarações otimistas de Lira ajudaram o dólar a bater mínimas, caindo para a casa dos R$ 5,57 durante o evento, na sede do BTG em São Paulo. O economista-chefe da consultoria inglesa Capital Economics para mercados emergentes, William Jackson, está mais cético com o cenário para reformas no Brasil, em meio ao imbróglio do Orçamento. Qualquer que seja a solução na semana que vem para o impasse, pode ficar mais difícil e desafiador o avanço das reformas no Brasil, avalia ele. Se Jair Bolsonaro sancionar o texto como está, agrada os parlamentares, mas não o ministro da Economia Paulo Guedes, que já pediu o veto. Se vetar, seu apoio político no Congresso recua, mas a ação será recebida com alívio pelo ministro e os técnicos da Economia. De qualquer modo, a questão do Orçamento evidencia a falta de compromisso fiscal que paira entre os parlamentares, ressalta Jackson. Por isso, o real vai seguir pressionado. A previsão da Capital Economics é de Selic a 4,75% ao final do ano, com dólar a R$ 5,75 e chegando a R$ 6,00 ao final de 2022. O banco alemão Commerzbank também não espera que a melhora do real vista esta semana perdure muito tempo. Em meio a crescentes riscos fiscais no País, o real não deve se beneficiar no curto prazo da alta de juros pelo Banco Central e seguir com desempenho pior que seus pares emergentes ante o dólar, comentam as analistas para emergentes, Alexandra Bechtel e Melanie Fischinger, em relatório. A piora da pandemia só ajuda a turbinar o temor de piora adicional das contas fiscais, avaliam as analistas do banco alemão. Além disso, há a preocupação de mais medidas populistas de Bolsonaro, especialmente com a volta do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva ao jogo político. A previsão do Commerzbank é de dólar a R$ 5,60 ao final de junho, R$ 5,30 em dezembro e R$ 5,00 ao final de 2022. "Está se tornando cada vez mais improvável que as reformas e consolidação fiscal sejam implementadas antes das eleições de 2022", comentam. No fechamento dos negócios, o dólar à vista encerrou a sexta-feira cotado em R$ 5,5848, em baixa de 0,77%. O dólar futuro era negociado em queda de 0,52% às 17h40, em R$ 5,5925. Bolsa Combinação entre dados econômicos da China, altos embora aquém do esperado, e um pouco menos de temor sobre o Orçamento de 2021, após reunião de Arthur Lira com representantes do setor financeiro, foi decisiva para manter o Ibovespa em terreno positivo no período da tarde desta sexta-feira, sustentando o nível de 121 mil pontos no fechamento pela primeira vez desde 18 de janeiro (121.241,63). Noticiário sobre empresas como Lojas Renner e Eletrobras também contribuiu para que o índice da B3 ganhasse maior dinamismo no meio da tarde. Assim, o Ibovespa emendou o terceiro avanço semanal e o quinto ganho diário nesta sexta-feira, em sua mais longa série positiva desde a observada no intervalo entre 23 e 27 de novembro. Nesta sexta, fechou em alta de 0,34%, aos 121.113,93 pontos, entre mínima de 120.198,90 e máxima de 121.333,36 pontos, à tarde, com abertura a 120.700,67 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 35,3 bilhões. Na semana, o avanço foi de 2,93%, após ganhos de 2,10% e de 0,41% nas duas anteriores. No mês, sobe 3,84% e, no ano, 1,76%. Apesar da incerteza sobre o Orçamento de 2021, que precisa ser sancionado até o dia 22, o sentimento do mercado melhorou ainda no começo da tarde, com a notícia de que Arthur Lira esteve reunido nesta sexta com representantes do mercado financeiro, no BTG Pactual, em encontro no qual buscou mostrar compromisso com as reformas, em particular a administrativa, e a privatização da Eletrobras, que prometeu colocar em andamento até o fim de maio. "O exterior tem ajudado muito e nesta semana, lá fora, tivemos o dólar a 1,20 para o euro, yield da T-note de 10 anos abaixo de 1,60%, uma acomodação que se reflete também no VIX (índice de volatilidade das ações em Nova York, com base em opções sobre o S&P 500). Hoje, esta reunião do Lira no BTG ajudou de alguma forma, mas é preciso ver o que está por trás, uma debilidade do governo: Lira não é nem ministro da Economia nem presidente da República", observa Pedro Paulo Silveira, gestor da Nova Futura Investimentos. "O Brasil continua muito atrasado em relação aos 'peers': é preciso melhorar a performance bursátil, e houve um pouco disso nesta semana", acrescenta Silveira, comparando o desempenho da bolsa brasileira com as de países como Chile, Israel, Taiwan, Rússia e Coreia. "O mercado não vê a hora de a confusão terminar e de o Orçamento ser equacionado." "O mercado começa a mudar o foco, mudar a narrativa, com certo cansaço sobre Brasília. Nesta segunda e na terça, deve haver volatilidade, com o feriado na quarta e a data-limite para a sanção do Orçamento, na quinta. A tendência para este fim de abril, com maio chegando, é mais 'Economics' e menos 'Politics', com o mercado passando a olhar mais para a reabertura da economia, o avanço da vacinação e os resultados das empresas. O exterior continua ajudando. Nesta semana, a curva de juros americana deu uma boa acomodada, contribuindo para a reprecificação dos ativos e também para estabilizar o câmbio. Em termos nominais, a Bolsa continua barata - e em dólar, nem se fala", diz Thomas Giuberti, sócio da Golden Investimentos. Nesta sexta, "houve redução na demanda pela segurança da divisa americana, enfraquecendo-se ante as moedas do G-10 por conta da perspectiva de crescimento acelerado na China e nos Estados Unidos, confirmada pelos dados econômicos". "Tivemos hoje sinalização positiva do exterior, apesar da semana pesada no doméstico, com CPI da Pandemia, Orçamento sem tratativa muito clara; pelo lado positivo, veio esta reabertura de São Paulo. O risco fiscal ainda pesa sobre o real, e o dólar dificilmente irá abaixo de R$ 5,50 enquanto não houver tratativa para o Orçamento e redução da percepção de risco sobre as contas públicas", diz Camila Abdelmalack economista-chefe da Veedha Investimentos. Na B3, o dia "foi dividido pela alta dos setores de varejo e construção, impulsionados pela queda da curva de juros e, no lado do varejo, em meio a rumores em torno de fusões entre grandes nomes, como Arezzo e Hering, e Lojas Renner e Marisa. Do outro lado, uma alta mais tímida, beirando (em certos momentos) o negativo, no setor de commodities metálicas, algo natural depois de uma forte sequência de alta e com os dados aquém do esperado da economia chinesa em março", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. "O setor de varejo também responde à confiança do consumidor, em antecipação ao reaquecimento da atividade", aponta Davi Lelis, sócio e assessor da Valor Investimentos. No começo da tarde desta sexta-feira, o governo de São Paulo anunciou que, a partir do sábado, o Estado ingressa em fase de transição nas medidas de distanciamento social, de forma a permitir, no dia 24, ampliação da reabertura da economia para serviços, restaurantes, salões e academias. A notícia contribuiu para firmar o viés positivo do Ibovespa na sessão, acima de 121 mil pontos. Na ponta do Ibovespa nesta sexta-feira, Lojas Renner fechou em alta de 11,91%, à frente de Hering (+6,66%) e de Eletrobras PNB (+5,15%). À tarde, a Lojas Renner confirmou em fato relevante que avalia a possibilidade de realizar oferta pública de distribuição primária. A Renner pondera, no entanto, que ainda não há definição final quanto à realização da oferta, sua estrutura, destinação de recursos ou volume. No lado oposto do Ibovespa, Natura fechou em baixa de 5,07%, Minerva, de 4,29%, e JBS, de 3,19%. Entre as blue chips, Petrobras PN e ON cederam respectivamente 0,61% e 1,18%, enquanto Vale ON subiu 0,43% nesta sexta-feira, de desempenho ao final majoritariamente positivo também para siderurgia, com Usiminas em alta de 2,71% e CSN, de 2,02%. Os bancos também avançaram na sessão, com destaque para Bradesco ON (+1,40%) e Itaú PN (+1,12%). Juros Os juros fecharam em baixa, estimulados pelo apetite ao risco no exterior e otimismo em relação ao cenário fiscal, após o presidente da Câmara sinalizar em reunião com participantes do mercado financeiro que a questão do Orçamento será resolvida respeitando o teto de gastos. Com a curva mostrando prêmios atrativos acumulados em várias semanas pela piora do risco fiscal e também externo, os agentes têm aproveitado a calmaria nos Treasuries e o dólar abaixo de R$ 5,60 para recompor parte das posições vendidas desmontadas recentemente. Na ponta curta, as sinalizações do Banco Central nos últimos dias sobre o plano de voo para a Selic têm surtido efeito e as apostas em aceleração do ritmo de alta para 1 ponto porcentual no Comitê de Política Monetária (Copom) de maio arrefeceram. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 caiu de 4,707% para 4,645% e a do DI para janeiro de 2025 terminou na mínima de 7,96%, pela primeira vez abaixo de 8% desde 23 de março (7,91%), de 8,176% no ajuste anterior. Também na mínima do dia encerrou a taxa do DI para janeiro de 2027, em 8,60%, de 8,844% no ajuste anterior. Para o operador de renda fixa da Renascença DTVM, Luis Felipe Laudisio, o movimento de desta sexta esteve relacionado à sinalização do leilão de prefixados da quinta, mostrando volta do apetite, "muito por conta do nível de taxas, após semanas com o mercado meio largado". "Adicionalmente, os comentários do Lira deram mais motivos para que os players adicionassem risco às carteiras", acrescentou. O ambiente de menor tensão com a pandemia, a despeito da lentidão no ritmo da vacinação no Brasil, também colaborou para a curva fechar. "Temos desaceleração no ritmo de internações por covid-19 em várias cidades e anúncio de que as restrições à circulação, ao comércio e serviços em São Paulo serão flexibilizadas a partir da semana que vem", destacou um economista. Embora as declarações do presidente da Câmara tenham dado a senha para desencadear ordens de vendas, é consenso entre os profissionais que isso só ocorreu com autorização do cenário externo. "Temos um processo de correção importante de exageros no mercado de Treasuries que está produzindo efeitos benéficos nos ativos em geral, mesmo com o imbróglio fiscal por aqui", disse o economista citado acima, lembrando que ainda não há nada de concreto com relação ao Orçamento aprovado em 25 de março e que tem de ser sancionado até o dia 22. O texto teve despesas obrigatórias subestimadas para acomodação de emendas parlamentares e, se sancionado como está, poderá configurar crime de responsabilidade fiscal.