O dólar teve um dia de volatilidade, mas com oscilações em níveis mais contidos do que em sessões anteriores. A expectativa pela agenda carregada da quarta-feira, que inclui reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e depoimento do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no Congresso daquele país, limitou os movimentos. O fluxo externo para o Brasil ajudou a moeda a cair a R$ 5,41, em dia de definição dos preços das ações na abertura de capital (IPO) da Caixa Seguridade, mas novos ruídos em Brasília, com a CPI da covid no Senado com Renan Calheiros (MDB-AL) na relatoria, e com baixas importantes na equipe econômica reforçaram a cautela nas mesas de operação, também alimentada pela nova alta dos juros longos americanos, que nesta terça-feira voltaram a superar o nível de 1,60%.
No fechamento, o dólar à vista terminou o dia cotado em R$ 5,4612, em alta de 0,23%. No mercado futuro, o dólar para maio era negociado com valorização de 0,37%, a R$ 5,4580 às 17h35.
Relatos de entrada de fluxo externo para o Brasil prosseguiram nesta terça, dia em que a Caixa Seguridade definiu o preço de suas ações, com demanda forte, movimentando R$ 5 bilhões ao todo. Mas os ruídos envolvendo baixas na equipe de ministro da Economia, Paulo Guedes, reforçaram o tom de cautela nas mesas, com a visão de isolamento do ministro e perda de importância da pasta no governo. Inicialmente, a notícia foi da saída do secretário Especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, que já era esperada, mas outros nomes apareceram ao longo do dia, incluindo a secretária-adjunta de Comércio Exterior, Yana Dumaresq. Em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o ex-ministro Mailson da Nóbrega, vê as saídas "como sinal claro" de desgate de Paulo Guedes.
Para uma economista de uma gestora independente, o real não vem conseguindo refletir a melhora em outros fundamentos, como as contas externas, justamente por conta dos ruídos políticos nas alturas, além do risco fiscal que estará sempre presente enquanto a pandemia não for controlada. Por isso, em um dia como esta terça, a moeda brasileira até ensaiou ganhar força, mas foi atropelada pelos eventos locais.
A quarta-feira é o dia mais aguardado desta semana. Para o Federal Reserve, não são esperadas mudanças, mas a expectativa é pelas declarações do presidente Jerome Powell. Menções claras a elevação de juros e mudanças nas compras de ativos podem valorizar o dólar e as taxas de retorno dos juros longos americanos, comenta o estrategista-chefe do TD Bank, Jim O'Sullivan. Mas ele pondera que não acredita que isso vá ocorrer e o Fed deve sinalizar continuidade dos estímulos.
Para O'Sullivan, o mais provável é que o Fed vai mostrar maior otimismo com a economia americana, que de fato melhorou desde a última reunião, mas Powell vai sinalizar que é preciso mais progresso até que se comece a falar em retirar estímulos extraordinários, pois a economia ainda está "a um longo caminho" dos objetivos do BC americano.
Bolsa
Apesar do dólar em nível um pouco mais confortável mais cedo, a R$ 5,41 na mínima e a R$ 5,46 no fechamento desta terça-feira, Brasília fez preço nesta terça-feira, especialmente no Ibovespa, com uma série de substituições não antecipadas no Ministério da Economia, no dia da instalação da CPI da Covid, na qual o senador Renan Calheiros foi indicado para a relatoria, mesmo após o governo ter manobrado para tentar impedir que a função, central nos trabalhos da comissão, fosse atribuída a um adversário. Assim, a sensação de desmonte na equipe econômica, combinada à expectativa de aumento da temperatura política pouco depois de o governo ter se mostrado refém do Centrão na longa deliberação sobre o Orçamento de 2021, colocou o índice da B3 na mínima do dia a 119.003,27 pontos, menor nível desde o dia 13.
Nesta terça, o índice da B3 fechou em baixa de 1,00%, a 119.388,37 pontos, maior perda em porcentual desde 1º de abril (-1,18%), tendo saído de máxima na sessão a 121.012,34 pontos, com abertura a 120.594,61 pontos e giro financeiro a R$ 30,3 bilhões. Na semana, o índice cede 0,95%, limitando os ganhos do mês a 2,36% - no ano, tem ainda leve avanço de 0,31%.
A princípio, as baixas na equipe econômica observadas pela manhã - a saída da assessora especial para a reforma tributária, Vanessa Canado, indicada na noite de segunda-feira, seguida nesta terça pela do número 2 da Economia, Waldery Rodrigues, da secretaria especial de Fazenda - foram recebidas de forma branda na Bolsa que, embora em baixa, conservava até então a linha de 120 mil pontos que tem prevalecido nesta segunda quinzena de abril. A substituição de Waldery por Bruno Funchal, vindo da secretaria do Tesouro, foi bem recebida pelo mercado de ações: um quadro técnico por outro, sem o desgaste do primeiro, que havia entrado há um bom tempo em rota de choque com o Palácio do Planalto ao propor corte de benefícios como o abono salarial.
Pouco antes das 14 horas, contudo, o índice da B3 passou a acentuar perdas, com o sinal de que as mudanças, conforme observou uma fonte, seriam no "atacado", como uma "debandada". Pela manhã, a percepção era de que uma mudança ou outra no Ministério da Economia poderia ser até saudável, para injetar ânimo novo na equipe, debilitada por sucessivas derrotas políticas, especialmente na definição do Orçamento. À tarde, a lista de baixas cresceu, com a indicação de que Martha Seillier, secretária do PPI, também está de saída do governo, assim como a secretária-adjunta de Comércio Exterior, Yana Dumaresq, e o secretário de Orçamento, George Soares.
No limite, o temor é de que o Ministério da Economia venha a ser fatiado para acomodar interesses políticos, especialmente em um Planejamento, Trabalho ou mesmo Desenvolvimento recriado às vésperas da batalha que parece se avizinhar no Senado, sobre o calcanhar-de-aquiles do governo: a má gestão da pandemia. Neste pior cenário, mais do que um desmonte de equipe, o que estaria entrando em decomposição, segundo a percepção de analistas, é o próprio ministério, com Paulo Guedes como capitão cada vez mais solitário no navio que faz água.
"Estamos longe de um 'Guedes Day', isso não está na conta e mesmo que venha a acontecer, haveria uns dias ruins, mas, a depender de quem viesse e da costura feita, a reação poderia ser boa com o tempo. No médio prazo, uma recomposição com maior presença do Centrão no governo pode ser positiva, se houver compromisso com o avanço das reformas, que estão paradas. A CPI da Covid, com o governo em dificuldade na comissão, é um obstáculo a mais nisso. Acho que no momento o olhar está mais na CPI do que propriamente nas mudanças na equipe econômica, que não vêm de hoje", diz Rodrigo Knudsen, gestor da Vítreo.
Ele chama atenção também para o fato de o câmbio e os juros terem embutido mais o risco fiscal e político até a sanção do Orçamento do que a Bolsa, que vinha se alinhando aos dias positivos no exterior para reduzir o atraso no ano e passar a acumular um leve ganho em 2021, ameaçado nesta sessão. "Hoje, temos um dólar mais tranquilo para a situação atual, enquanto a Bolsa ajusta mais, o que é natural. Olhando para além do dia, o cenário ainda é positivo para a Bolsa, há muitas coisas acontecendo na esfera corporativa, com concessões, negócios em andamento entre as empresas, para além do que nos chega de Brasília", acrescenta.
Na B3, o balanço da Vale no primeiro trimestre, da noite de segunda-feira, colocou a ação ON da mineradora em alta de 1,43% no fechamento desta terça-feira, enquanto as ON e PN da Petrobras registraram, respectivamente, perdas de 2,40% e de 2,86% na sessão, em que os destaques foram CVC (+5,66%) e Braskem (+3,89%), na ponta do Ibovespa. No lado oposto, BRF cedeu 5,91%, Via Varejo, 5,37%, e Hering, 5,17%.
Juros
Os juros futuros fecharam em alta nos vencimentos de médio e longo prazos e estáveis na ponta curta da curva, refletindo desconforto com a debandada na equipe econômica, que foi crescendo ao longo do dia, e a maior pressão vinda dos Treasuries, com o yield da T-Note de dez anos rompendo novamente a marca de 1,60%. Desde cedo, outro fator que contribuiu para a inclinação da curva foi o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de abril melhor do que o consenso, enfraquecendo as apostas de um Comitê de Política Monetária (Copom) mais agressivo na reunião da próxima semana.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 4,63%, de 4,641% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 7,696% para 7,76% no fechamento da sessão regular. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 8,39%, de 8,324% na segunda-feira.
Após dias de calmaria na curva, a terça-feira teve vetores a estimular um ajuste, começando pelo IPCA-15, que subiu 0,60%, desacelerando 30 pontos-base ante março (0,93%) e abaixo da mediana das estimativas (0,67%). Na precificação da curva, a probabilidade de novo aperto de 0,75 ponto da Selic no Copom de maio, como já vem sinalizando o BC, acelerou para perto de 80%, contra cerca de 20% de avanço de 1 ponto.
O IPCA-15 manteve o mercado bem comportado nas horas iniciais, mas no fim da manhã o humor começou a piorar na medida em que o noticiário sobre saídas no Ministério da Economia ganhou corpo.
O episódio mostra que o mercado pode ter se precipitado ao comemorar o fim do impasse do Orçamento, mas ao que parece a novela não terminou. "O corpo técnico parece estar desgostoso com a solução encontrada e com a necessidade cada vez maior de encontrar cargos para acomodar as demandas do Centrão. Tudo está longe de estar resolvido", disse Danilo Alencar, trader de renda fixa da Sicredi Asset.
O dia também teve leilão de NTN-B, com oferta reduzida de 4,3 milhões na semana passada para 2,4 milhões nesta terça e vendida integralmente. Alencar, da Sicredi Asset, vê os papéis, sobretudo nos prazos intermediários, como uma boa proteção contra o cenário de incertezas, que dificulta "ficar aplicado em pré". "Apesar do IPCA-15 hoje melhor, há sinais de que a inflação está fora de controle e que o BC não parece estar tão intolerante assim com a inflação acima da meta", afirmou.
No fim da tarde, a piora do mercado teve os Treasuries como pano de fundo. Um dia antes da decisão de política monetária do Federal Reserve, a T-Note de dez anos bateu máximas desde o dia 20, rodando acima de 1,60%. Não se espera alteração nos juros, mas há expectativa com a entrevista do presidente da instituição, Jerome Powell, sobre a inflação, além de uma possível orientação sobre o momento de começar a reduzir as compras de ativos.