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Dólar cai a R$ 5,36 com Fed e Powell ao menor nível desde 2 de fevereiro

28 de abril 2021 - 20h45 Por Estadão Contéudo
Dólar cai a R$ 5,36 com Fed e Powell ao menor nível desde 2 de fevereiro
A declaração do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, de que ainda não é hora nem de começar a discutir a retirada dos estímulos extraordinários nos Estados Unidos ajudou a enfraquecer o dólar no mercado mundial e a fortalecer os ativos de risco. Em meio a recordes nas bolsas em Nova York e desaceleração da alta dos juros longos americanos, o dólar ampliou a baixa nos países desenvolvidos e emergentes, caindo a R$ 5,35 ante o real na mínima do dia. Ajudado por fluxo externo e um noticiário positivo interno, que inclui criação de vagas em março, medida pelo Caged, melhor que o esperado e previsão de chegada na quinta-feira do primeiro lote de vacina da Pfizer ao Brasil, o real teve o melhor desempenho nesta quarta-feira no mercado mundial de moedas, considerando as 34 divisas mais líquidas. No fechamento, o dólar à vista terminou a quarta-feira em queda de 1,82%, cotado em R$ 5,3616, menor nível desde o dia 2 de fevereiro (R$ 5,35). No mercado futuro, o dólar para maio era negociado em baixa de 1,78%, a R$ 5,3580 às 17h30. As declarações de Powell após a reunião de política monetária do Fed, que manteve os juros e as compras mensais de ativos, foram vistas como "dovish", ou seja, defendendo juros baixos e mais tolerantes com a inflação. Powell e os demais dirigentes reconheceram a melhora da economia americana e a aceleração dos preços, mas avaliam que ela se deve a fatores transitórios e o apoio do Fed ainda é necessário para manter o fôlego da economia. "Não é ainda a hora de 'começar a começar' a falar sobre redução nos estímulos", afirmou o dirigente, levando a moeda americana para as mínimas e as bolsas para as máximas. "O Fed foi claro em sua intenção de seguir provendo estímulos extraordinários para a economia", avalia a economista-chefe da corretora americana Stifel, Lindsey Piegza. Ela observa que Powell destacou que ainda não há sequer um cronograma para voltar a subir os juros e que os dirigentes são favoráveis a seguir tudo como está, pois é preciso "progresso adicional substancial" da atividade antes que o Fed mude sua política. No noticiário local, o ministro da Economia, Paulo Guedes, comemorou a criação de vagas de março, de 184,1 mil vagas, e disse que todos os setores estão criando postos de trabalho, além de sinalizar avanço na reforma tributária, o que sempre agrada as mesas de operação. Ele disse que as primeiras doses de vacina da Pfizer chegam ao País nesta quinta-feira e no dia seguinte haverá a privatização da companhia de saneamento do Rio, a Cedae, o que pode trazer mais fluxo externo ao Brasil. Dados do Banco Central mostram que o fluxo cambial em abril está positivo em US$ 773 milhões até o dia 23, com destaque para o canal comercial, com entradas de US$ 599 milhões. Na semana passada, houve maior peso do canal financeiro, com entrada líquida de US$ 831 milhões. Juros Os juros futuros fecharam a sessão regular com viés de baixa. Após os eventos do Federal Reserve no meio da tarde, as taxas zeraram a alta exibida em boa parte do dia. A autoridade monetária, tanto no comunicado da decisão quanto na entrevista do presidente Jerome Powell, reforçou a intenção de manter sua política monetária altamente estimulativa, tolerando inflação acima da meta por algum período e demonstrando total apoio à recuperação da economia. O mercado de juros havia armado posições de proteção em caso de mudança na postura do Fed, que acabaram sendo desmontadas na medida em que a sinalização se manteve. Nos juros locais, o impacto foi moderado em comparação com outros ativos, em função do risco fiscal e político. O mercado ainda se ressente das saídas na equipe econômica, com aumento nesta quarta do ruído após comentários do ministro Paulo Guedes sobre a China, e também pela cautela no desenrolar da CPI da Covid-19 no Senado. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou a sessão regular em 4,625%, de 4,642% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 7,766% na terça para 7,71%. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 8,37%, ante 8,394% no ajuste anterior. O aumento das incertezas após a debandada no Ministério da Economia sustentou ganho moderado de inclinação na curva, com as taxas curtas estáveis e as demais em alta, até a última hora negócios, quando o Fed entrou em cena. Após indicar no comunicado que deixará a inflação moderadamente acima da meta de 2% por "algum tempo", Powell disse que "não é a hora de começar a falar sobre redução de estímulos" e que será mantido "apoio poderoso" até que o nível de atividade nos EUA se recupere. Em reação, o juro da T-Note de dez anos, que mais cedo foi a até 1,65% e ajudava a pressionar a curva local, inverteu o sinal e caiu para 1,61%. O dólar perdeu força no mundo todo, caindo no Brasil para R$ 5,35 na mínima. Tal movimento, porém, não foi capaz de impor trajetória firme de baixa nos DIs, pois o quadro interno é delicado. "A situação está longe de estar tranquila", ressaltou o estrategista-chefe da CA Indosuez, Vladimir Caramaschi. Na agenda, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou saldo positivo de 184,1 mil vagas em março, acima da mediana das estimativas, de 150 mil, mas sem tornar as apostas para o Copom mais agressivas nem afetar os DIs. "A forma como a curva vem se comportando não aponta nessa direção, os curtos teriam de abrir", afirma Caramaschi. Na gestão da dívida pública, o Tesouro divulgou seu relatório referente a março. O estoque subiu 0,85% ante fevereiro, para R$ 4,987 trilhões. O coordenador-geral de Operações da Dívida, Luis Felipe Vital, informou que o colchão de liquidez da instituição fechou março em R$ 1,119 trilhão, com ajuda de R$ 140 bilhões que estavam parados em fundos do governo e R$ 32 bilhões de devoluções do BNDES, suficiente para mais de 7 meses à frente de vencimentos. Bolsa Com o S&P 500 em nova máxima histórica intradia durante a fala do presidente do Federal Reserve, o Ibovespa retomou a linha de 121 mil pontos nesta tarde, enquanto o dólar à vista acentuava correção e chegava a R$ 5,3571 na mínima da sessão. Powell reiterou "apoio poderoso" à economia até que o nível de atividade nos Estados Unidos se recupere, o que mais uma vez impulsionou o apetite dos investidores por risco. O Fed indicou que aumentará a carteira de Treasuries em pelo menos US$ 80 bilhões mensalmente, além de adquirir mais ativos lastreados em hipotecas - em ao menos US$ 40 bilhões por mês. Assim, com S&P 500 e Nasdaq oscilando para o positivo com Powell, o Ibovespa foi a 121.275,86 pontos na máxima do dia, testando o nível pela terceira sessão consecutiva, mas desta vez conseguindo sustentá-lo no fechamento pela primeira vez desde 16 de abril - foi a segunda vez desde 18 de janeiro que o índice da B3 conseguiu fechar na casa dos 121 mil, saindo nesta quarta de mínima a 119.391,70 pontos, na abertura. Nesta quarta, fechou em alta de 1,39%, aos 121.052,52 pontos, com giro financeiro a R$ 34,3 bilhões. Na semana, passa a avançar 0,43% e, no mês, 3,79% - em 2021, o Ibovespa acumula agora ganho de 1,71%. "O mercado estava de olho na diretriz do Fed, em particular a visão do Powell sobre inflação e emprego, com sinal de que vai esperar a inflação aparecer para só então agir, deixando até lá o juro neutro. Na margem, temos visto um ambiente melhor também no Brasil, se conseguirmos separar o ruído do sinal. À medida que a vacinação avança, diminui a chance de um terceiro lockdown. E o dólar mais fraco tem refletido alguma recuperação do interesse do estrangeiro, especialmente por Bolsa. Após um primeiro trimestre difícil, quem teve paciência para esperar, começa a colher o resultado", diz Arthur Constancio, especialista de produtos e alocação na BlueTrade. De acordo com os dados mais recentes, referentes até o dia 26 de abril, o estrangeiro manteve fluxo positivo para a B3 na série de quatro sessões até a data acima. No mês, o saldo chega a R$ 6,972 bilhões, elevando o fluxo estrangeiro para a Bolsa a R$ 19,131 bilhões no ano. Constancio chama atenção também para os resultados até aqui do primeiro trimestre, em especial da Vale (ON +1,63%), "com geração de caixa colossal", favorecida não só pelo preço do minério mas também pelo dólar, desempenho positivo que deve se estender não apenas a empresas com exposição a exportações, mas também a voltadas à economia doméstica, como as de consumo não discricionário - como Pão de Açúcar, Carrefour - e ao comércio eletrônico. "Os resultados tendem a concentrar a atenção do mercado nas próximas três ou quatro semanas", acrescenta. Nesta quarta-feira, destaque para a abertura da temporada de balanços de bancos, com os números do Santander, que colocaram a Unit da instituição na ponta do Ibovespa, em alta de 8,06% no fechamento, à frente de Cemig (+5,85%) e de Bradesco PN (+4,97%). Recebidos como 'proxy' para o setor, os números do Santander ajudaram não apenas as ações do Bradesco (ON +4,78%) como também as do Itaú (PN +4,33%) e, em menor grau, Banco do Brasil (ON +1,78%), com o desempenho positivo do segmento de maior peso na composição do índice ajudando o Ibovespa a romper a marca dos 121 mil pontos na sessão, assim como o de Petrobras (PN +3,64%, ON +3,56% no fechamento). Além do forte desempenho de Santander, novo alento do Caged, com geração de vagas acima da mediana de expectativas para março, contribuiu para melhorar o humor desde a manhã desta quarta-feira, levando o Ibovespa a reverter a perda de 1% do dia anterior, quando havia se movido em linha com os últimos ruídos políticos e econômicos de Brasília. "O dia de hoje foi mais otimista, o que se refletiu no câmbio desde a manhã, positivo para os emergentes em geral, com destaque para o real. Os ruídos de ontem de Brasília levaram o mercado a precificá-los, mas hoje veio alívio, inclusive com a visão de que trocas no Ministério da Economia, mesmo para estreitar relacionamento com o Centrão, podem ajudar a avançar a pauta reformista", diz João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos.