Neste início de semana, que no Brasil vai começar acabando, tem tudo para inaugurar uma certa paz de espírito nas inquietações do investidor: na Grécia um novo Primeiro Ministro parece comprometido com as reformas, na Itália – além da queda do controverso Berlusconi – o Senado e a Câmara em Roma aprovaram um orçamento mais condizente com o fluxo de caixa descontado esperado pelos investidores onde o não consumo de hoje pode gerar o excedente para o amanhã.
Resumo o sentimento: está tudo certo e nada resolvido.
Mas algo persiste no incômodo, algo ainda parece não fechar a conta. O fenômeno deste mal estar se revela, entre outros canais, pela preferência pela liquidez expressa, e pesada, na taxa zero dos EUA, apesar deste mesmo EUA ter sido rebaixado e estar evidentemente em inoperância política com uma Câmara rachada e onde situação e oposição estão em plena guerra fratricida pela eleição de 2012.
Os títulos de 10 anos dos EUA estão em níveis ainda muito baixos, mais baixos ainda que o período da quebra dos irmãos Lehman.

O futuro voltou-se contra si mesmo ao impedir que no presente floresça sua força. A liquidez não vasa para a produção e a máquina gira em falso reafirmando apenas velhos lugares comuns. Como já disse aquele diplomata, com toda razão, o dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem.
Os EUA aparecem como o fiel depositário do futuro, e isto fica claro pelo fato de que, apesar daquela economia não crescer, ela ainda é financiável ao arrepio dos argumentos fiscalistas. O déficit orçamentário e comercial não deixam de crescer, e se usássemos os mesmo critérios quase-moralistas que usamos para apontar o dedo na Europa para os EUA o sistema não se manteria em pé.

Não espero pelo dia que todos os homens concordem, mas o gráfico acima, somado a taxa zerada dos treasuries, configuram para mim argumento suficientemente forte para dizer que o aperto fiscal na Europa não é necessariamente a melhor forma de lidar com a crise.
Como o problema nunca é a dívida em si, mas seu nível relativo ao PIB, existem dois caminhos para resolver esta razão. Ou os europeus diminuem a dívida ou fazem o PIB crescer. Escolheram diminuir a dívida, mas incorre aí um cálculo diferencial importante.
Se, ao apertarem as contas públicas a dívida diminui, o que importa saber é se esta diminuição da dívida não será acompanhada por uma diminuição do PIB em magnitude ainda maior. Se este for o caso o resultado será desastroso.
A produção das principais economias industriais retrocedeu aos níveis de 2003/04 e no caso da Europa é ainda mais severa a queda.

Soma-se a isto que, diferentemente dos EUA que tem no dólar o anti-depressivo correto para uma economia hiper-consumista, a Europa não consegue mais gerar os superávits comerciais necessários para “bancar” a união monetária.

Esta novíssima ordem mundial ainda não nasceu de fato, mas é inegável que uma estrela já anunciou o nascimento do rebento. A ordem política no mundo árabe parece ter alterado de pólos (acompanhemos com atenção esta história muito mal contada sobre o programa nuclear do Irã), os EUA garantem sua moeda de forma tautológica, emitindo mais da mesma valendo-se do seu poderio na imaginação popular, e a Europa sobrevive do seu ativo intangível (da sua reputação).
Curioso pensar que a França ainda é AAA sendo que os EUA são um pouco menos. Se verdade fosse os juros reagiriam no mesmo sentido. Pelo visto as ideias não correspondem aos fatos.
O mundo tem que enfrentar a questão de frente; uma nova ordem é urgente. A boa nova é que desta vez esta nova ordem é mais inclusiva e pode ser negociada de forma pacífica.
Assim esperamos.
* O autor é Economista-chefe da Gradual Investimentos