Atitudes como guardar (e gastar) dinheiro secretamente, atrapalhando – ou arruinando – os planos conjuntos, são o que os experts chamam de traição financeira, tão nociva para a relação quanto um caso amoroso.
Depois de noites em claro e de enfrentar muito sofrimento por causa de uma gastrite e um estado constante de nervosismo, ansiedade e tensão, a dentista Beatriz Lima, 43 anos, de Belo Horizonte, resolveu abrir o jogo com o marido. Ela havia acumulado uma dívida de mais de 100 mil reais – sem que ele jamais tivesse percebido – e estava financeiramente quebrada. Ao alívio de contar a verdade, seguiu-se o choque com a reação do companheiro, com quem é casada há 20 anos. “Eu preferia que você tivesse me traído com outro homem”, disse, assustado com a revelação.
A maioria de nós só entende como traição o envolvimento secreto do cônjuge com outra pessoa. Mas os especialistas já detectaram um novo tipo de infidelidade: a financeira – que, segundo defendem, pode desestruturar o relacionamento amoroso tanto quanto um caso extraconjugal. “Embora sejam diferentes, ambas as situações levam às mesmas consequências: um grande sofrimento e um enorme desafio para aquele casal que passou por isso, mas quer superar a dor”, analisa a psicóloga Cleide Bartholi Guimarães, colaboradora do Ambulatório dos Transtornos do Impulso do Hospital das Clínicas de São Paulo.
O tema tem mobilizado cada vez mais os estudiosos do comportamento e experts em finanças pessoais. Em seu livro mais recente, Os Segredos dos Casais Inteligentes (Sextante), o consultor financeiro Gustavo Cerbasi aborda a questão e toca em um ponto polêmico, que pode ser a causa de boa parte das traições nessa área: a conversa sobre dinheiro. Vários casais consideram o assunto tabu e fogem dele. Mas Cerbasi enfatiza que o papo sobre grana é essencial para a felicidade a dois e, em um dos capítulos, ensina como começar um sem brigar. É um terreno pedregoso. Em uma pesquisa americana da National Endowment for Financial Education (Nefe), organização que orienta indivíduos e famílias a tomar decisões financeiras, cerca de um terço dos 2 mil entrevistados admitiu ter mentido para o parceiro sobre seus gastos e investimentos. Em parte dos casos, o “crime” até era pequeno: esconder do outro uma compra um pouco mais dispendiosa ou uma fatura de cartão ligeiramente mais pesada do que a habitual. Mas uma parcela confessou manter contas bancárias secretas ou nunca revelar sua real renda. Ou, ainda, não contar o tamanho de uma dívida que já se tornara volumosa. Para Ted Beck, diretor executivo da Nefe, essa falta de honestidade pode levar, a longo prazo, a danos irreversíveis na relação.
Cartas na mesa
Ok, ninguém está dizendo que você precisa confessar a aquisição de um par de sapatos ou de um estojo de maquiagem assim que entra em casa ou que pessoas em relacionamentos estáveis devem prestar contas detalhadas ao parceiro de todos os centavos gastos. Até porque alguns casais mantêm, além do dinheiro conjunto, cotas particulares que podem ser usadas como cada um bem quiser, sem a obrigação de dar satisfação. Então, afinal, o que é traição financeira? “Podemos classificar assim situações em que a liberdade individual coloca em risco planos assumidos pelo casal ou ameaça a liberdade do outro”, define o consultor Gustavo Cerbasi. Mas quanto é capaz de fazer esse estrago? Será que basta estourar o limite do cartão de crédito em alguns reais ou é preciso torrar sozinha a herança que você acabou de receber para ser considerada uma parceira infiel? Nem uma coisa nem outra. Ou melhor: as duas. O x da questão aqui nada tem a ver com o valor consumido, mas com a constatação de que o parceiro está tomando decisões unilaterais em prejuízo dos planos a dois ou da família. “É uma decepção grande e uma grave quebra de confiança perceber que o companheiro não manteve o acordo estabelecido”, explica a consultora financeira americana Ruth Hayden, autora do livro For Richer, Not Poorer: The Money Book for Couples (ainda não publicado no Brasil), um guia para ajudar casais a lidar bem com o dinheiro. Conforme o site Claudia.