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Brasileiras denunciam exploração ao trabalhar na Irlanda

03 de junho 2015 - 20h20 Por Do G1/Douranews
Brasileiras denunciam exploração ao trabalhar na Irlanda

O barulho do patrão tentando abrir a porta de seu quarto é a pior lembrança que Camila Munds, de 32 anos, tem das cinco semanas que trabalhou como au pair em Dublin, capital da Irlanda, em 2011.

Au pair é geralmente uma jovem que vem de outro país morar com uma família; ela aproveita a estada para aprender a língua local e ajuda com os filhos e tarefas domésticas.

Camila era encarregada, junto com outra brasileira, de cuidar de quadrigêmeos de dois anos e de um menino de cinco em troca de um salário de 140 euros (R$ 490) por semana, um quarto para dormir e alimentação.

Trabalhando mais de 40 horas semanais, incluindo sábados e domingos, Camila recebia menos de 3,5 euros por hora, muito abaixo do salário mínimo irlandês de 8,65 euros por hora e do valor médio de 10 euros por hora pago a babás que não moram com a família nem ganham ajuda para alimentação.

Enquanto isso, ainda precisava lidar com o assédio do pai das crianças.

"Ele tentava entrar no meu quarto todas as noites. Às vezes, estava bêbado. Por sorte, (eu) tinha o hábito de dormir com a porta trancada. Por que ele fazia isso? Não quero nem pensar. Levei muito tempo para conseguir falar sobre o assunto", conta ela à BBC Brasil por telefone.

'Exploração grave'
Este tipo de esquema de trabalho é popular entre brasileiras que vão estudar inglês na Irlanda, mas não é regulamentado no país.

É uma relação de trabalho informal que dá espaço para abusos. A exploração dessas au pairs veio à tona em um relatório divulgado na terça-feira pela Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA, do nome em inglês) em Bruxelas, sobre a gravidade da exploração trabalhista em países do bloco.

"Trabalhar todos os dias da semana por salários pagos a intervalos irregulares ou nunca, viver em espaços exíguos e em condições precárias, isolado do resto da comunidade, trabalhar sem contrato e sujeito a uma ameaça constante de deportação", são os exemplos da situação enfrentada por diversos trabalhadores em vários países da UE, apresentados no primeiro estudo do tipo realizado no bloco.

O setor de trabalhos domésticos é apenas um dos atingidos pela exploração; outros setores econômicos são agricultura, construção, hotelaria e serviços de bufês.

O caso das au pairs brasileiras é emblemático na Irlanda. Segundo o agente de políticas do Centro de Direitos de Imigrantes da Irlanda, Pablo Rojas, dos mais de 35 casos de exploração registrados em 2015, cerca de 75% envolviam cidadãs do Brasil.

"São meninas que vêm estudar inglês e enxergam neste esquema uma oportunidade de aprender mais a língua e economizar com o aluguel, que é muito caro no país", afirma Rojas.