Existe hoje em Dourados e alhures, especialmente na chamada base social do Partido dos Trabalhadores (sindicatos, movimentos sociais e redes comunitárias, movimentos das juventudes e aqueles que desejam o reconhecimento às diferenças etnicorraciais e de gênero, servidores e alunos das Universidades), ampla perplexidade com a proposta de aliança com o DEM. Muitos perguntam “O que é isso companheiro (a)?”
Há de fato muitas razões para o questionamento. Gostaria neste texto, de apresentar apenas uma de caráter mais amplo, cujos delineamentos gerais podem ser lidos em texto de João Cardoso Rosas.
A história da política moderna foi caracterizada pela cisão entre direita e esquerda. A dicotomia que era apenas geográfica na época da Revolução Francesa, passou a ser ideológica, no final do séc. XIX, definindo as identidades dos partidos e movimentos políticos em suas diversas interações com a sociedade. Mas como definir no espectro político moderno a direita e a esquerda? Ao longo do tempo, dois conceitos foram tomados como referências: a igualdade e a retificação.
De maneira geral e sem desconsiderar as nuances presentes na constituição daquilo que poderíamos chamar de campo da política, a esquerda é historicamente reconhecida pela junção daqueles setores favoráveis a uma maior igualdade social. Uma componente básica dessa posição é a consideração teórica de que toda a desigualdade social decorreria de um processo histórico-social, fruto das relações e contradições do tempo-espaço, da experiência humana. Já o pensamento e o espaço político de direita tende a ser mais condescendente com a desigualdade, pois a considera fruto de relações naturais, de diferenças naturais que existem entre os grupos e os homens, sobre as quais pouco se pode fazer e, se o fizer, significará um grau de violência contra a natureza disposta da ordem social.
Da perspectiva da esquerda não basta reconhecer que as desigualdades sociais são históricas e não naturais. Desse princípio decorrem mais dois movimentos: primeiro, é necessário desmistificar as desigualdades, reconhecê-las, conhecer os movimentos de suas gêneses e genealogias, ou seja, da sua formação e expansão para o conjunto do tecido social; segundo, além de conhecer é imprescindível a sua correção, retificação. Toda organização de esquerda, inclusive os movimentos sociais reivindicatórios, nascem e crescem na articulação da teoria e da prática dessa compreensão sobre as desigualdades sociais. Daí o ativismo político que caracteriza os espaços políticos de esquerda, sempre em busca da mobilização social e, pelo contrário, a necessidade de manutenção da ordem que impera nos espaços políticos de direita. As mobilizações de direita, quando existem, são sempre esporádicas e defensivas, normalmente se caracterizam como contra-movimento.
Por conseguinte, é possível afiançarmos que as articulações das representações de esquerda não são as mesmas das articulações da direita política. Em geral são representações que se confrontam e distinguem as opções entre políticos conservadores (de direita) e reformadores/inovadores (de esquerda) e que, por isso, orientam e distinguem as filiações dos indivíduos e grupos sociais, com os quais firmam laços e identidades coletivas, bem como, projetos de sociedade, o que em si mesmo representam benefícios à vida democrática das nações.
No caso brasileiro, não existe qualquer dificuldade da análise política para reconhecer que os dois partidos políticos mais representativos respectivamente do campo da esquerda é o PT – Partido dos Trabalhadores e do campo da direita é o DEM – Democratas, antigo PFL. Esses partidos sempre se comportaram como adversários na cena política brasileira e, não por acaso, pois o PT representa, em sua história e em seus projetos, o ideário reformista presente nas camadas populares, nas minorias políticas de gênero e etnicorraciais e o DEM representa segmentos que advogam a manutenção da estrutura social herdada. As duas posturas são legítimas, mas são incompatíveis. Não só a teoria quanto a prática política das duas agremiações demonstram tal condição.
Como é possível, então a aliança entre DEM e PT em Dourados? Em nome da cidade!? Ora, ora a cidade não é a mesma para o conjunto da população, cada grupo social a representa e a usufrui de maneiras muito diferentes e às vezes até opostas. No meu caso, por exemplo, sempre imaginei e projetei a cidade como um espaço de direitos, imprescindível à democracia, à cidadania e à justiça social. Mas, reconheço que muitos segmentos e organizações sociais se apropriam da cidade como espaço de produção e reprodução da riqueza que é apropriada por poucos.
Mas se é assim, porque cada Partido não apresenta seus diferentes projetos?
Aliás, se a aliança entre DEM e PT vingar qual projeto será relegado? O da mudança ou o da conservação?
Olhando assim... o “jogo jogado” indica que sairá perdedor o projeto da transformação, o da cidade de direitos, o da construção do tempo-espaço na cidade onde o impossível torna-se possível, o qual o PT ainda representa nacionalmente.
Daí a perplexidade, “O que é isso companheiro (a)?”.
O autor é Professor Efetivo da Universidade Federal da Grande Dourados e Reitor da UFGD (2005-2010)