O dia primeiro de setembro de 2010 ficou registrado como a data do maior escândalo de corrupção da história política recente de Mato Grosso do Sul. Destaco primeiro de setembro, porque foi naquele fatídico dia que a Polícia Federal tornou pública as investigações e colocou na prisão “figurões” da política douradense que ocupavam altos postos no Executivo e Legislativo municipais, além de empresários conhecidos na região. Foi um “deus nos acuda” que deixou a sociedade sem rumo e a cidade manchada negativamente na mídia nacional.
O trabalho da Policia Federal e do Ministério Público, nesse caso, foi louvável e aplaudido pelas pessoas de bem. Espera-se o mesmo do Judiciário na conclusão dos processos que envolvem os indiciados pela PF na operação batizada de “Uragano”, furacão em italiano, bem como da anterior a “Owari”, ponto final em japonês. Muita coisa aconteceu no meio político após esse escândalo, tais como: prisões, renúncias e cassações. Para se ter uma idéia do estrago, basta lembrar que Dourados, de setembro do ano passado para cá, teve quatro prefeitos diferentes. Como diz o ditado popular “muita água passou por debaixo da ponte”.
Enquanto a PF, MP e Judiciário trabalharam e continuam trabalhando debaixo do quieto, a Câmara de Vereadores armou um verdadeiro “circo” para julgar uma parte de seus membros envolvidos no mar de lama da corrupção comandada pelo ex prefeito Ari Artuzi. O legislativo levou cinco meses e 21 dias para limpar parcialmente a sujeira que envolve aquela Casa. Ressalto, parcialmente porque não instaurou processos contra os vereadores Dirceu Longhi, do PT e Gino Ferreira, do DEM, ambos indiciados pela Polícia Federal, bem como do ex suplente e hoje vereador Cemar Arnal, visto alegre e sorridente nas gravações da PF. A Câmara também tem a responsabilidade de investigar e punir as denúncias feitas na tribuna por um dos cassados, envolvendo vereadores que à época eram suplentes.
Aliás, denúncias não faltaram nas sessões de cassações da Câmara. Surgiram denúncias de relatório fabricado, de manipulação de provas, de mensalão na Assembléia Legislativa pagos com dinheiro do Fundersul, de esquemas de pagamentos para suplentes de vereadores. Jogaram lama no ventilador e atingiu em cheio a já combalida reputação da classe política. Foi um festival da acusações que merecem ser investigadas em sua totalidade pelas autoridades competentes, sob pena de também terem suas reputações manchadas pela inoperância.
O povo viu de tudo nas sessões de cassações da Câmara, teve choro com lágrimas de “jacaré”, pedidos de perdão, clemência e misericórdia, tudo para salvar mandato apodrecido pela roubalheira do dinheiro público. Na hora de passar a mão no dinheiro público preferiu o breu das tocas, foi flagrado nas imagens e áudios gravados pela PF. Na hora da cassação rogou a misericórdia de Deus, recorreu a clemência do estado e pediu perdão para o povo. Isso tudo em público, imagina só o que aconteceu no privado, distante dos olhos e ouvidos do povão. É muita cara de pau, o vereador foi preso na operação “owari”, um ano depois preso de novo na operação “uragano”, se tivesse dignidade teria renunciado o mandato a bem do serviço público ao invés de protagonizar show de histeria pública para justificar a safadeza política. Mas o que se viu foi uma luta bisonha para salvar o mandato, valeu até usar o nome de Deus em vão.
Como se viu, os vereadores que enfrentaram comissões processantes, apelaram o que puderam para não ser cassados, porém não adiantou. Entre os “uraganos” com mandato e indiciados pela PF, alguns preferiram evitar o vexame público e renunciaram, é o caso do ex-prefeito Ari Artuzi, do vice Carlinhos Cantor e do ex-presidente da Câmara, Sidlei Alves.
Apesar de todo vexame e desgaste político, uma grande lição ficou para o povo de Dourados e do estado. Primeiro é que a corrupção não compensa, ela só traz prejuízos para a cidade e para o povo do bem. O resultado está presente no caos porque passa a maior cidade do interior de MS. A segunda lição é que não adianta embarcar no “oba oba” eleitoral e votar em espertalhões interessados em tirar proveito econômico do bem público. Outra lição importante que fica é que não basta só votar, tem que acompanhar o eleito e fiscalizar suas ações. Se uma parte da população não tivesse reagido, inclusive com sapatada em vereador corrupto, estariam todos ocupando os mandatos. Na operação “owari” o povo se indignou e não reagiu, agora foi diferente, exigiu e acompanhou a cassação dos envolvidos.
O trabalho ainda está longe do fim, conforme relatei acima, na Câmara ainda tem vereadores indiciados pela PF representando o povo como se nada tivesse acontecido com eles. O legislativo também tem a obrigação de investigar as denúncias que vieram a público durante as sessões de cassação de vereadores envolvendo membros da Casa. O castigo merecido, espera-se do judiciário com a condenação de todos os envolvidos com devolução do dinheiro roubado, cadeia e inelegibilidade pelo tempo máximo permitido pela lei. Aí sim, o trabalho estará satisfatório.
O autor é professor da rede estadual de ensino. E-mail: [email protected]