Aproveitando o fechamento de mais uma semana, desta vez a
Semana Santa, e as divagações naturais em meio a tantos feriados que praticamente anestesiam a economia nacional, decidi enveredar por um caminho que, se não perigoso, poderá parecer muito estranho aos que me conhecem, além de despertar reações inimagináveis aos que, em nome de Deus, preferem fechar os olhos a tudo o mais que os circundam no plano terrestre.
Comecemos com uma pergunta: Teria sido Judas [um dos doze apóstolos de Jesus] realmente um traidor?
Respondo, de imediato: Não, Judas foi quem primeiro definiu o sentido do amor!
Estudiosos bíblicos já tinham essa preocupação no passado, quando citavam em escritos arquivados pela História que a fé e o afeto de Judas por Cristo eram, no começo, nobres e dignos. Também Judas se sentiu, à época, adorado por Cristo. Muitos doentes chegaram a ser curados por ele, e muitas aldeias da Galiléia e da Judéia receberam dele as primeiras noções sobre Jesus.
Como explicar, então, essa transformação? Ninguém se torna amigo fiel ou traidor de uma hora para a outra. A nossa própria história tupiniquim mostra que algo de muito forte precisa ocorrer antes disso.
Judas perdeu-se por se ter se embriagado do orgulho próprio, julgando-se único no seu próprio eu. Nada estava acima dos seus próprios pensamentos egoístas, e semelhante atitude era já uma traição ao Senhor. Teria sido ele, além de tudo, inspirador de alguns dos sete pecados capitais?
É preciso, pois, lembrarmos aqui o momento do beijo. Quando, naquele dia, em meio ao clima de confronto com forças poderosas e atrasadas, Judas teria trocado com Jesus o beijo da paz, será que de fato o ato de amor e carinho teria sido motivo para a “ira” do Senhor?. Afinal, transcreve o Salmista: “Se a ofensa viesse de um inimigo, Eu a teria suportado; se a agressão partisse de quem me odeia, dele me teria escondido. Mas tu, meu companheiro, meu amigo íntimo, que te sentavas à minha mesa e comias comigo doces manjares!” (Sl 54, 13-15).
E o que é o beijo senão o termômetro da paixão, do amor, do carinho, manifestação mais intensa de um bom começo em qualquer relacionamento. “Quando um casal bem estabelecido deixa de se beijar apaixonadamente, ou até o 'selinho' desaparece, significa falta de entrosamento”, observa a psicóloga e terapeuta Margareth Reis, mestre em Educação pela Universidade Mackenzie, apenas para ilustrar o significado desse ato.
Que se registre aqui, também, que não foi só Judas que traiu, se é que assim o fez. Outros apóstolos também traíram o Senhor, embora de outro modo, e até o próprio Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, traiu Cristo. Ele que tinha a missão de ser a rocha sobre a qual se deveria edificar a Igreja ao longo dos séculos, negou covardemente o Senhor. E nem por isso deixou de ser o pai da Igreja...
Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido, já escreveu Jean Rostand, filósofo moralista e historiador francês, no século 18. Assim, não podemos chegar à conclusão simplista de que o beijo dado por Judas em uma das faces de Cristo teria sido o sinal da traição. Afinal, beijo no rosto pode significar tanta coisa: saudade, despedida, carinho...
Por isso mesmo, nesses tempos reflexivos, prefiro acreditar que, muito mais que um dos poucos e valentes seguidores do filho do Homem, foi Judas afinal o responsável por nos deixar um dos mais ardentes legados do amor, o beijo.