O município de Antônio João foi sacudido nesta segunda-feira, 6 de junho, com uma notícia trágica que comoveu toda sua população. Juneir Martinez Marques, prefeito da vizinha cidade, teve sua vida interrompida por novo acidente de trânsito, na mesma rodovia em que ele havia se envolvido em outro sinistro, há cerca de vinte dias, no qual um taxista perdeu a vida. Ele não atinou, mas aquilo era um aviso.
A vida do Junei, do qual fui amigo desde que ele iniciou na política, na década de 80, deu uma guinada muito grande a partir do momento em que ele se tornou prefeito. O poder embaralha as vistas, faz perder o foco. Então, cada um seguiu seu rumo. Ele perseguiu e conquistou o poder com muita determinação. Aliás, essa é uma qualidade que ninguém lhe pode tirar. Eu, que outrora o ajudava na produção de um jornal em troca de pouso e comida, já que assim como eu, ele não tinha dinheiro para gastar, segui o caminho do jornalismo.
Ele e a mídia, que tanto prezava e valorizava, não foram clementes. Nem de um lado, nem de outro. Estivemos ora falando a mesma língua, ora em lados opostos, mas mantivemos a amizade fora do mundo político. Sempre que precisava não se intimidava com o problema e me ligava, para ‘trocar figurinhas’. “E aí, maninho, como é que eu resolvo isso?”, perguntava. Minha amizade com a família do Junei é de longa data. Nossos pais foram amigos, nossas mães e esposas são amigas.
Para chegar aonde chegou, o ‘Corujinha’, como era popularmente chamado, enfrentou muitas adversidades, problemas familiares, mas se mostrou um grande articulador político. Com o tempo, houve quem o amasse e quem lhe fizesse oposição aberta. Mas tenho certeza que ninguém desejava sua morte. Afinal, sempre pensava grande. Tanto que foi um dos prefeitos que mais conseguiram recursos para a cidade.
Quando ocorreu o primeiro acidente este ano, eu alertava que o meu amigo deveria procurar uma igreja, já que uma avalanche de acontecimentos lhe tirava o sossego diariamente. Dizem que um problema nunca vem sozinho, sempre vem acompanhado. Essa ‘companhia’ às vezes é uma seqüência de aborrecimentos que comumente são incompreensíveis aos olhos do homem.
Quando se enfrenta uma seqüência de problemas, é previsível que ela acabe levando a outros piores. E foi o que aconteceu. A teimosia do Junei em fazer suas coisas pessoalmente, como dirigir o próprio veículo, pode não ter sido a causa, mas foi fator preponderante neste acidente. Quem perde é a família, mãe e irmãos, de quem sempre cuidou como poucos, desde que seu pai faleceu. Também perdem sua esposa e seus filhos, que terão de assumir seus destinos.
Perdem os amigos, privados de sua alegria e de seu grande poder de persuasão e, fatalmente, a população de sua cidade. Como pessoa temente a Deus que era, poderia ter evitado este sofrimento, se conseguisse ouvir os recados do Senhor para ele. As turbulências do dia-a-dia, do mundo, quase sempre abafam a Palavra, sobrepõem-se à voz de Deus. O ser humano sempre potencializa as necessidades e reduz o tempo. Não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo: ouvir e agir.
Tenho certeza que Deus, em sua infinita bondade, haverá de amparar sua família e seus amigos neste momento difícil. O fato mais importante da curta passagem por esta vida, é que o Junei cumpriu uma promessa que ele fez em seu gabinete, logo após assumir a prefeitura: “Paulinho, eu vou deixar meu nome marcado na história de Antônio João”. Isso ele conseguiu. Descanse em paz, meu amigo.
O autor é escritor e jornalista, editor-chefe do Jornal da Praça, diretor de jornalismo do site Mercosul News e imortal da Academia Pontaporanense de Letras.