Aparentemente uma propriedade normal, porteira com cadeado, abrigo na frente da fazenda para os funcionários esperarem o ônibus, terra tombada, gradeada, sendo corrigida e mecanizada para recuperação da pastagem, formiga, cocho de sal, gado pastando, cavalos e éguas. Enfim, tudo parece normal
Com olho atento descortina a diferença! Lagos ou açudes de águas da fonte sendo colhidas moléculas por moléculas servindo para o sustento dos animais, mais na frente observa-se a proteção das nascentes através de cercas visivelmente modificando a paisagem com a vinda dos arbustos e árvores características de onde a água passa lavando as raízes das plantas. Água limpa, doce, cristalina, água recuperada, protegida por nativas e protetoras plantas. Se descer e desligar o carro escuta-se o barulho agradável da água que força a passagem entre as plantas, já se avista o rego d’água serpenteando no dorso da terra, levando sua riqueza pura e límpida.
Assim, por onde andar nesta região, nesta propriedade, nesta fazenda, avista-se a iniciativa isolada de um proprietário conhecedor das conseqüências que se produzem quando se destroem as nascentes dos rios dos córregos e dos varjões e pindaíbas. Região com 750 metros de altitude, terra mista arenosa, vento lento e contínuo, pequenos morros, nos dão a real situação da altura que estamos. À noite, subindo o morrito, enxerga-se o clarão de cinco cidades da região: Ponta Porã, Antonio João, Bela Vista, Maracaju e Dourados, um privilégio pouco conseguido em outra região.
Onde foi fechado e protegido pelas cercas que impedem o gado de transitar já é visível a transformação, umidade, ar fresco, aumento considerável do volume de água nos açudes e rego d’água, árvores da região sendo plantadas estrategicamente: Ipês, Aroeira, Eucaliptos, Pinheiros, Santa Barbara, Sangra D’água e outras. Com isso, a chegada de pássaros, e centenas de aves que migram na busca de encontrarem um bom lugar para seu ninhal. Um recurso hídrico fantástico que pouco a pouco está se transformando e tomando sua vocação natural.
Esta propriedade é um dos mananciais de nascente mais importantes para o nascimento do Rio Dourados, é uma divisão de águas. Na frente da fazenda está o nascimento do Rio Miranda, do lado direito está a nascente do Rio Santa Maria, há poucos quilômetros está a Cabeceira do Apa, o nascimento do Rio Apa. Porém, o mais interessante é que o Rio Dourados ali nasce e viaja rumo ao nascente e busca abraçar o Rio Brilhante, o rio Apa nasce e baileia entre as árvores e pedras rumo ao sul, ligeiro e fogoso ao encontro inevitável do Rio Paraguai e o Rio Miranda que, teimoso, ali nasce e faz uma viajem sem volta totalmente o contrário dos outros dois vai rumo ao nascente colhendo riachos, córregos, sangas, nascentes, até mergulhar nas águas do Rio Paraguai onde caprichosamente vai passar pelo Rio Apa alguns quilômetros abaixo, parecendo dizer: “nascemos tão próximos e tivemos rumos totalmente diferentes, mas o destino nos fez encontrar novamente e viajarmos juntos novamente.”
Enquanto isso o Rio Dourados viaja molhando seus longos varjões e encharcados, acompanheira-se com o Rio Brilhante e juntos entram, caudalosos, no Ivinhema e viajam até derramarem seus presentes colhidos ao longo do caminho no Rio Paraná onde este se encarrega de fazer novamente o encontro destas nascentes que antes, mínimas, nasceram em uma mesma região e agora já dentro do Rio da Prata encontra-se novamente com seus irmãos de nascimento.
Assim, podemos sonhar que outros muitos fazendeiros, proprietários momentâneos, protejam suas riquezas hídricas e recuperem suas reservas florestais e silvestres, colaborando para a continuação deste passeio das águas feito por Deus, presenteando a todos nós.
De parabéns os proprietários da Fazenda Capão Bonito, empresários Beto e Cenira, da Pão e Companhia. Eles exemplificam e dão sentido de que proteção do Meio Ambiente é puro investimento, aumentando o padrão de vida nativa de sua propriedade e dando saúde à região e recuperando uma geografia já degradada pelo tempo e pelo Homem desprovido de sensibilidade ambiental.
O autor é consultor de Agronegócios