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Opinião

Lula e André no subterrâneo das necessidades

08 de agosto 2011 - 19h37 Por Edson Moraes
Lula e André no subterrâneo das necessidades
A sucessão municipal é naturalmente encarada como preâmbulo do cenário mais provável a ser desenhado dois anos depois, na sucessão estadual. Há situações que, de tão peculiares, obrigam o prócer experiente a não esperar a clássica "hora certa" para tomar providências de auto-defesa preventiva, na expectativa de blindar os calcanhares e reduzir ao máximo os riscos do insucesso nas urnas.
Em algumas das cidades mais importantes do País, a certeza de que um revés do amanhã pode significar a derrota do depois está induzindo partidos e dirigentes a rever e a redimensionar suas necessidades táticas e estratégicas para entrar na disputa. Todos os cenários e desdobramentos precisam ser considerados. Até, e principalmente, os mais improváveis.
É como ocorre em São Paulo e Campo Grande, com o estabelecimento de dois panoramas pré-sucessórios: um, visível, desenvolve-se na superfície convencional da temporada que antecede as convenções homologatórias das candidaturas e coligações; outro, subterrâneo, acondiciona-se no mais íntimo fortim dos desejos, intenções, vaidades e demais sentimentos manipulados pelo instinto de preservação política.
O panorama de superfície exibe na capital paulista o PT buscando soluções para sair o menos arranhado do dilema de escolher entre dois nomes fortes para 2012: a senadora Marta Suplicy e o ministro da Educação, Fernando Haddad, incentivado pelo ex-presidente Lula. Na mesma vitrine de pretensões e especulações que se expõem à sociedade, o PMDB do governador André Puccinelli e do prefeito Nelson Trad Filho aponta um rol de opções que se esgota nos nomes de três ou quatro peemedebistas (Carlos Marun, Edil Albuquerque, Paulo Siufi e Waldemir Moka), um republicano (Edson Giroto) e um democrata (Luiz Henrique Mandetta).
Esta relatividade então faz germinar o panorama subterrâneo, onde se debatem as preocupações dos dois maiores partidos do Brasil na perseguição do palanque perfeito para vencer as eleições em São Paulo e Campo Grande. A força e a competitividade de Marta e Haddad não geram suficiente conforto aos petistas para um enfrentamento que terá, na arena de conflagração, nomes de peso como os do atual prefeito, Gilberto Kassab, e do ex-governador José Serra, entre outros. Se assim for, nada impede que Marta e Haddad saiam de cena para entrar um candidato seguramente mais competitivo, mais forte – sim, ele, o ex-presidente Lula, que até agora é visto como cabo eleitoral da candidatura do ministro.
Da mesma forma o campo-grandense não pode se surpreender com uma provável candidatura do governador André Puccinelli à Prefeitura. O que é improvável em agosto de 2011 pode ser necessidade no primeiro semestre de 2012, quando as pesquisas confiáveis de opinião pública revelarem um quadro indesejado pelos detentores da hegemonia de mais de duas décadas na política local. Alguns sintomas reforçam essa hipótese. O prefeito Nelsinho Trad viu cair a níveis preocupantes sua popularidade e precisou de intervenções espetaculosas para, segundo novas pesquisas, reassumir o Olimpo do prestígio. O PSDB está abalando-se da garupa do PMDB para lançar seu próprio candidato a prefeito – e ele é um campeão de urnas, o deputado federal Reinaldo Azambuja.
Além disso, os adversários não ignoraram o impacto na sociedade e o balde de ânimo derramado no PT com a hipótese de uma chapa timoneada pelo senador petista Delcídio do Amaral. Tal hipótese está por ora descartada, mas não sepultada, desde que o senador sinta sua projeção de candidatar-se ao governo em 2014 ser atropelada. E essas variantes transitam na ininterrupta oficina cerebral de Puccinelli.
Assumir agora que quer candidatar-se ao Senado dá a pista enigmática de um estrategista que sabe usar recursos científicos de alta precisão ou artifícios rudimentares. Parece que a candidatura ao Senado seja esta última opção, comparável ao de alguém em fuga que, para despistar seus perseguidores, avança de costas deixando as pegadas em sentido contrário.
Não foi por sorte nem por conjunturas externas favoráveis que Puccinelli escreveu sua vitoriosa trajetória. Ele construiu sua própria conjuntura. E não é por sorte, nem por circunstâncias que pretende conservar o PMDB hegemônico. Para isso, explora bem as fraquezas dos adversários, aposta nos desencontros do PT, fragiliza os aliados menos fiéis e põe a máquina ao seu serviço para não dar sopa ao azar.
A lógica da futurologia política ensina que tudo é possível. Toda cautela e todo caldo de galinha são insuficientes para quem não aprendeu ainda que política vitoriosa não se faz com a barriga, nem com cérebro preguiçoso e muito menos olhando para o próprio umbigo. Se 2012 é hoje, 2014 também. Mas um de cada vez.

Edson Moraes é jornalista e blogueiro (www.edsonmoraes.jor.br)