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Opinião

Lurdesvoni, mais uma cruz na estrada!

29 de agosto 2011 - 10h15 Por Edson Moraes
Lurdesvoni, mais uma cruz na estrada!
As cruzes vão se multiplicando ao longo da estrada do tempo neste grande cemitério indígena chamado Mato Grosso do Sul. Cruzes encharcadas de sangue e de lágrimas, de dores atemporais que se derramam por nossa violentada ancestralidade. São cruzes fincadas num chão despatriado, improvisadas na geometria disforme que agressões certeiras e covardes desenham.
Na proporção das causas, as cruzes de morte morrida vão sendo engolidas pelas de morte matada e induzida nas aldeias – ou no que resta delas – e nos confinamentos urbanos. São cruzes de uma sangrenta demanda industrial que, como produção em linha, sinalizam que sob a terra de todos e de ninguém há corpos, sonhos, possibilidades apagadas e desditas de bebês golpeados pela desnutrição, de adolescentes despossuídos da esperança, de homens e mulheres de todas as idades expostos às balas de aluguel e ao efeito letal do consumismo envolvente.
Índios morrem por desnutrição, índios se matam por depressão, índios sem saída se deixam contaminar e adoecer pelo álcool, pela droga, pela descaracterização cultural. Índios são assassinados. E viram personagens de ocorrências absurdamente cotidianas, tratadas por inaceitável paradigma de normalidade. É absurdo, mas real, tamanhas as doses de desfaçatez e de cinismo das autoridades na falta de respostas precisas contra os assassinatos de encomenda perpetrados na arena onde os donos da terra estão acuados.
E as cruzes se amontoam nesta estrada aberta pela impunidade.
Marçal de Souza Guarany, Tupã-Y, morto a tiros em 25 de novembro de 1983.
Julite Lopes, kaiowá, assassinada a tiros em janeiro de 2007.
Ortiz Lopes, guarany-kaiowá, executado a tiros em 08 de julho de 2007.
Osvaldo Lopes, guarany-kaiowá, assassinado a tiros em maio de 2009.
Marcos Verón, guarany-kaiowá, assassinado a tiros em 13 de janeiro de 2003.
Givaldo Vera e Rolindo Vera, guarany-kaiowá, sequestrados e desaparecidos em novembro de 2009. Só o corpo de Givaldo foi encontrado, dias depois, com marcas de violência.
No ano passado, 34 índios foram assassinados em Mato Grosso do Sul – 56% do total de casos registrados no País, segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
No dia 23 passado, morreu na Santa Casa de Campo Grande a índia terena Lurdesvoni Pires. Tinha 28 anos, era separada do marido e deixou quatro filhas. Havia sido internada no dia 4 de junho, depois que, na noite anterior, o ônibus que transportava estudantes e moradores da Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, foi atacado e incendiado com coquetéis molotov por agressores ainda não identificados. Lurdesvoni estava entre os quatro passageiros que sofreram os mais graves ferimentos e queimaduras. A área em que vivia é palco de disputas entre fazendeiros e o povo terena.
Em 2011, nossos índios continuam sendo executados, humilhados e brutalmente estigmatizados, enquanto a grande imprensa burguesa insiste em tratar essa conjuntura com registros que não excedem os limites clássicos da formalidade editorial.
Infelizmente, há mais cruzes disponíveis e carpinteiros impunes de plantão á espera da próxima vítima. Vergonha é pouco!

 

Edson Moraes é jornalista, poeta e blogueiro (www.edsonmoraes.jor.br)