Dizia-se que Corumbá, Capital do Pantanal, um dos lugares mais belos da Terra, só não tinha representatividade política forte e eficiente para dar à sua bela forma o conteúdo de investimentos em infraestrutura e equipamentos sociais. Nem a fascinante moldura do Pantanal e nem o carisma singular de um povo hospitaleiro e fiel às suas tradições culturais fizeram com que, da fundação, em 1778, ao final do século 20, a cidade se libertasse do equivocado conceito que a limitava fisicamente ao contexto urbano espremido entre o Rio Paraguai, a morraria e a fronteira com a Bolívia.
Crescer para onde? Esta era a pergunta acomodada e medíocre que se faziam alguns dos gestores executivos e legislativos, eleitos ou não, que um dia tiveram nas mãos algum bastão de poder para interferir em favor da região. O Plano Nacional de Desenvolvimento, concebido pelos governos militares, inventou o Programa de Desenvolvimento do Pantanal (Prodepan) e jogou no início dos anos 1970 a semente de projetos estruturantes ambiciosos para a região, um deles a construção de uma rodovia que ligaria Corumbá a Cuiabá, atravessando o Paraguaizão. A semente nem rompeu o solo. Ficou petrificada no aterro que começa numa lateral da BR-262 e acaba 14km depois, corredor que ficou conhecido como Estrada da Codrasa.
E no decorrer dos diversos carnavais – um dos símbolos resistentes da densidade cultural dos pantaneiros – a história se repetia ano a ano, com legiões de corumbaenses tendo que deixar o torrão natal para buscar oportunidades sob outros céus. Nessa esteira, a cidade era sufocada por problemas crônicos, como a debilidade financeira, gerencial e conceitual que a impedia de receber obras estruturais de saneamento e drenagem porque a sentença político-administrativa em vigor era a de que a pedraria no subsolo e os elevados custos para removê-la não permitiriam obras desse porte.
Não ao acaso, a cidade veio acumulando sucessivos revezes em sua economia. A pujança do porto, que até os anos 1940 era um dos mais importantes pontos de intercâmbio comercial e cultural da América Latina, foi ficando para trás. A exploração das reservas minerais – que ao lado das Forças Armadas e do serviço público – era uma das principais atividades geradoras de empregos, resvalava nas intempéries sazonais do mercado. O turismo se mantinha graças, sobretudo, à pesca, meramente extrativa e não raramente predatória.
O panorama de desafios, muitas vezes oculto pela estampa forte e marcante do espírito alegre e comunicativo dos corumbaenses, revelava uma cidade com imensas lacunas sociais, como o déficit habitacional, o desemprego e a baixa cobertura em saneamento. A autoestima do corumbaense nunca morreu, nem adormeceu, mas havia sido duramente atingida. Era preciso uma verdadeira revolução, não na postura de seus habitantes, mas no comportamento, na ótica e no grau de compromisso e competência dos gestores escolhidos para cuidar da cidade branca.
Queiram ou não os desafetos, este momento de mudança só aconteceu a partir do momento em que Corumbá se viu reconhecida na dimensão justa e adequada de seu elevado status geográfico, histórico, cultural e populacional, na quantidade e na qualidade. Na prática e no compromisso, o início de tal reconhecimento, pode-se afirmar, teve dois grandes momentos emblemáticos no final do século passado: um em 1987, quando o governo de Wilson Martins/Ramez Tebet entregou o trecho Miranda-Corumbá da BR-262, e outro em 2001, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Zeca inauguraram a ponte sobre Porto Morrinho.
No início deste século, a cidade entrou de vez e completamente no seu ritmo atual de mudanças, com as atenções do governo Lula a partir de 2003 e o programa de ações implantado pelo prefeito Ruiter Cunha desde o primeiro dia de mandato, em 2005.
Ora, como ignorar ou minimizar atos e responsáveis pelo resgate do Município que vinha sendo estigmatizado sumaria e implacavelmente como referência do geocrime na mídia nacional, e que para muitos ainda significava uma de suas traduções do dicionário (lugar ermo e distante, segundo o tupi-guarani curupah)?
Independentemente de vínculos afetivos, grupais, políticos ou ideológicos, desprezar a importância e o protagonismo pessoal do prefeito Ruiter Cunha nesse processo é menoscabar a própria capacidade de avaliação. É brigar com a inteligência, é defenestrar do cérebro o bom senso. Um ser humano e, como qualquer outro gesto, com seus defeitos e imperfeições, o prefeito não aboletou-se na rede do comodismo e da leniência, nem assustou-se com o tamanho das pedrarias do subsolo e da superfície. E foi buscar todas as garantias possíveis para cumprir a obrigação que assumiu diante de sua gente.
Uma dessas garantias, a de estabelecer o concerto de parceiros para realizar a complexa tarefa, foi buscar os principais aliados capazes de assumir com inteiras convicção e fidelidade o compromisso de dar prioridade a Corumbá. Natural que o primeiro nome dessa lista fosse o senador Delcídio do Amaral, um corumbaense repatriado e política e eleitoralmente transformado em celebridade numa aposta audaciosa do PT – especificamente do grupo liderado por Zeca, com participação direta de Vander Loubet e Paulo Duarte – e, é evidente, pelos próprios méritos. Hoje, e pela sétima vez, Delcídio é um dos 100 mais influentes do Congresso.
Se a história evidencia um enredo de somas em torno do processo de afirmação política, administrativa, urbana e social de Corumbá, porque se revela agora um capítulo nebuloso em que, aparentemente, vaidades ou caprichos, em diferentes níveis de razão e requinte, indicam a possibilidade da diáspora? Até que ponto o argumento de ignorar a Prefeitura e caminhar com a Câmara, esgrimido por Delcídio para escantear Duarte, vai ser produtivo e útil a Corumbá e aos corumbaenses? O projeto de ser governador a qualquer preço está em curso ou a autodefesa do senador precisa alimentar-se dessas doses de imunização?
Edson Moraews é corumbaense, jornalista e blogueiro (www.edsonmoares.jor.br)