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Opinião

“Publish or perish” ou o produtivismo acadêmico na era do Homo lattes

24 de outubro 2011 - 09h22 Por Jorge Eremites de Oliveira
“Publish or perish” ou o produtivismo acadêmico na era do Homo lattes
A expressão em inglês publish or perish, traduzida como “publicar ou perecer”, serve para caracterizar o atual momento por que passam os pesquisadores nas universidades do país. Ocorre que desde os dois governos FHC, a academia brasileira passou a ser marcada por exigências ligadas à produção e publicação de novos saberes. Isso ocorre em todos os campos do conhecimento e dessa regra praticamente nenhum pesquisador dessas instituições pode se esquivar. Na verdade, foi-se o tempo em que o título de doutor agregava prestígio e bastava por si só. Agora, além da titulação, o docente pesquisador tem que produzir cada vez mais e mais. São pesquisas, orientações, aulas e muitas publicações a fazer. Isso gera uma carga horária de trabalho acima das 40 horas que seria a ideal.

Além disso, o curriculum vitae dos pesquisadores está disponível na Plataforma Lattes do CNPq. Não por menos, portanto, que a vida acadêmica dos docentes universitários tornou-se acessível a quem tiver interesse em saber do assunto. Alunos, professores e técnicos administrativos normalmente acessam dados curriculares de vários servidores, às vezes para saber o que eles produzem, outras para saber quem produz mais. Daí a expressão Homo lattes (o ser humano do Currículo Lattes). Tal situação muitas vezes estimula o individualismo e a competitividade entre colegas de trabalho. Chega até mesmo a gerar contendas no que se refere a espaços e poderes disputados na acadêmica: bolsas de produtividade, concursos para professor titular, captação de recursos em agências de fomento à pesquisa, participação em programas de pós-graduação (mestrado e doutorado) e em eventos científicos etc.

Penso que o governo federal está certo ao cobrar produção científica de alguém cujo doutorado saiu caro aos cofres públicos, além do salário mensal que recebe. No entanto, ao levar a cabo esta política, por vezes o Estado Brasileiro coloca outras atividades fins da academia em segundo plano. Refiro-me, por exemplo, ao ensino de graduação e à extensão universitária. Por outro lado, é fato que tal cobrança também tem a ver com o investimento que agências de fomento como CNPq, CAPES e FINEP têm feito em programas de pós-graduação e no aumento da produção científica no país. Na verdade, não se pode pensar em um país de “primeiro mundo” sem o desenvolvimento da educação, da ciência e da tecnologia. Com efeito, o domínio do conhecimento é e será o divisor de águas entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento no contexto mundial.

O problema maior dessa situação está no custo de todo esse produtivismo. Isso porque a produção científica não pode ser feita a partir do paradigma do “desenvolvimento a qualquer custo”, em vigor desde há muito tempo no Brasil. Não é fácil ver professores serem avaliados por quantos artigos, capítulos de livros e livros publicaram em determinado período, ou em quantos trabalhos tiveram seus papers citados. Muitos docentes universitários não aguentam tamanha pressão e por isso não são raros os casos de estresse, depressão, síndrome do pânico e outros males que assolam a vida na academia. Trabalhar em casa e nos finais de semana, por exemplo, tornou-se rotina para milhares de professores de instituições de ensino superior.

O fato é que se você não produzir na academia, certamente irá padecer ou perecer de alguma maneira, como, por exemplo, ter menos recursos para projetos de pesquisa, ser excluído dos quadros de programas de pós-graduação (mestrado e doutorado) e até mesmo considerado um docente de “segunda categoria”.

Encontrar um caminho alternativo, que concilie produção acadêmica, valorização do magistério superior e um melhor salário, deve ser o desafio colocado na pauta do dia dos pesquisadores, sindicalistas, dirigentes de universidades, governantes e parlamentares comprometidos com o desenvolvimento sustentável do Brasil.

 

O autor é  doutor em História/Arqueologia pela PUC-RS e professor da UFGD ([email protected])