Na verdade, como recentemente explicou o renomado antropólogo Roque de Barros Laraia, em curta permanência em Dourados, onde concedeu entrevista e ministrou aulas junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), a antropologia talvez seja a última ciência social holística no Brasil. Por este motivo ela se apresenta bastante aberta ao diálogo com áreas afins: direito, geografia, história, medicina, sociologia etc. Não por menos, portanto, que a antropologia brasileira é considerada como uma das melhores e mais vibrantes do mundo, diferentemente do que acontece em países europeus como Inglaterra, França, Espanha e Portugal. Além disso, em nosso país antropólogos têm prestado relevantes serviços para a construção de uma sociedade nacional mais tolerante, plural e inclusiva. É o que acontece quando antropólogos se dedicam à chamada antropologia da saúde e produzem novos saberes que podem ser aplicados para a melhoria da qualidade de vida da população brasileira como um todo. Por isso eles têm sido contratados por diversos órgãos dos governos, sobretudo do governo federal (FUNAI, INCRA, IPHAN, Ministério Público Federal etc.), embora isso também aconteça em ONGs e empresas privadas.
Com efeito, não seria exagero afirmar que a antropologia tem se tornado um campo do conhecimento imprescindível para a construção da democracia no Brasil, algo que incomoda os mais intransigentes e intolerantes frente às diferenças socioculturais e econômicas que marcam a população do país.
No caso de Mato Grosso do Sul, em que pese saber dos inúmeros casos de violação de direitos humanos, antropólogos chegam a sofrer preconceito dentro e fora da academia: fora pelos opositores das reivindicações de direitos por parte de minorias étnicas e sociais; dentro por indivíduos empoderados com cargos administrativos e que fazem da política provinciana, rasteira e corporativa o maior entrave para o planejamento estratégico e o crescimento das universidades existentes no estado, especialmente as públicas. Neste sentido, felizmente na UFGD tem havido discussões não muito fáceis, porém interessantes, sobre a possibilidade da criação de uma graduação em antropologia na Instituição, articulada entre os campos da antropologia sociocultural e da arqueologia, cujas demandas para o mercado de trabalho são significativas e crescentes.
Oxalá um curso desse tipo possa ser criado nos próximos anos nesta que é uma das mais pujantes e jovens universidades brasileiras, o que certamente contribuirá para o aprofundamento de seu papel estratégico para o desenvolvimento sócio-econômico da região onde está inserida, o estado de Mato Grosso do Sul e o MERCOSUL.
* O autor é Doutor em História/Arqueologia pela PUCRS e professor da UFGD ([email protected]).