A manhã destes treze dias de fevereiro vai ficar marcada para o resto da minha vida, uma vez que poucos minutos para dar às 7 horas fui surpreendido por um telefonema do jornalista/radialista Antonio Coca, atual diretor/presidente da FUNED (Fundação de Esportes de Dourados), onde ele me comunicava o assassinato covarde do meu amigo e também jornalista e escritor Paulo Roberto Cardoso Rodrigues, o Paulo Rocaro, de 51 anos.
No telefonema, Antonio Coca informou que Paulo Rocaro como era mais conhecido o meu amigo na fronteira, em especial, em Ponta Porã e no território paraguaio, havia sido, assim como muitos, alvo de uma emboscada cometida por dois covardes pistoleiros, e como sempre, a Polícia Civil e as demais autoridades policiais da região de fronteira desconhecem os pistoleiros e provavelmente o suposto mandante da execução.
Antonio Coca ao relatar os fatos para mim, fez com que de imediato caísse nesta manhã “uma tempestade em cima de minha cabeça”, tanto que o gosto que ainda tinha em minha boca do café da amanhã, literalmente ficou amargo, e passei a ter uma sensação de angustia, de impotência e até mesmo de nojo, pois sabia que naquele momento, que havia perdido mais um grande amigo do peito não por doença, por um acidente de trânsito ou de velhice, mas sim, de forma cruel, de pura covardia praticada por duas pessoas que não se dá pra dizer ser gente, mas sim feras bestas que teriam de ser exterminada do convívio social.
A morte estúpida de meu amigo, que volto a repetir, foi executado de forma fria e covarde com cinco ou mais tiros de pistolas nove milímetros por um elemento que estaria como sempre na garupa de um motociclista, há menos de 100 metros da divisa do território brasileiro com o paraguaio, de acordo com a minha previsão, que assim como muitos crimes de pistolagens caíram no esquecimento naquela região de fronteira, este com certeza será mais um a entrar na lista dos crimes insolúveis, disso não tenho nenhuma duvida.
Por falar em “tempestade” lembro-me que era meio do ano de 2002 quando Paulo Rocaro por telefone manteve contato comigo e gentilmente pediu para que eu fizesse um prefácio do livro que ele estava escrevendo, aonde através de seus dedos e de sua inteligência, narrava histórias de crimes de execuções sumarias, típicas na qual dez anos depois acabou sendo protagonista dos seus algozes.
O livro foi lançado com grande pompa na noite de 27 de setembro de 2002 e até os dias atuais tenho um exemplar autografado por Paulo Rocaro, aonde ele deixa claro à amizade, o respeito e a admiração que ele tinha por mim.
Paulo Rocaro, como jornalista, conseguiu conviver com o submundo do crime, sem ser criminoso; conseguiu conviver com as lagrimas dos outros, sem chorar; conseguiu retratar a violência, sem fazer parte dela; que estava -e ainda está- no meio de uma sociedade, às vezes hipócrita, sem ser conivente com ela. Talvez esteja aí, nessa nossa espinhosa profissão, meu eterno amigo, a vontade de muitas pessoas, em especial, os jovens, em querer se “casar” com o jornalismo.
Por outro lado, pelo que eu saiba, nos últimos meses, Paulo Rocaro vinha travando uma “guerra fria” com delegados da Polícia Civil de Ponta Porã e inclusive teria sido processado por eles, daí claro, não afirmar aqui que a sua morte tenha partido ou relação com este impasse, todavia, uma coisa é mais do que certa, a de que somente um milagre dos Deuses é que a sociedade pontaporanense, em especial a família dele e a imprensa em geral, poderá saber às causas que levaram a “dupla da moto” a matar o jornalista, e principalmente se teria ou não por trás um suposto ou supostos mandantes.
No livro, Paulo Rocaro diz ser douradense de nascença, porém fronteiriço de adoção e que desde a infância tinha paixão por ser jornalista, assim como lembrou que havia sido policial civil e posteriormente repórter policial.
Em trecho inicial de meu ponto de vista sobre o livro de Paulo Rocaro lembro a ele e aos seus leitores “que a felicidade é uma eterna luta no cotidiano de uma pessoa e que a busca por ela somente será -ou fará- sentido, se for trilhada pelo caminho natural das coisas: o bem. Todavia, também sabemos que bem poucas pessoas podem olhar para o horizonte e gritar bem alto, com as mãos para o céu, para todo mundo ouvir, que são felizes” e assim foi o amigo, que mesmo sendo assassinado, com certeza foi em vida uma pessoa muito feliz.
Diante disso, só me resta manifestar um desejo, aliás, três:
Que Paulo Rocaro vá e fique com Deus; que Deus na sua infinita bondade conforte seus familiares e que os seus algozes e suposto (s) mandante (s) entre para o mundo das trevas e que ardam no fogo do inferno quando também partirem deste mundo de tantas idas e vindas.
Finalizando, o livro “A Tempestade” a bem da verdade relatou a clareza de fatos que marcaram a vida de muitas pessoas, e de diversas famílias que tiveram seus entes queridos executados a tiros na região de fronteira, em especial Ponta Porã sem que as autoridades policiais chegassem aos autores e possíveis mandantes, a maioria deles formados por contrabandistas e narcotraficantes que infestam aquela região do país, em especial o Mato Grosso do Sul, e incluem agora os familiares deste amigo que foi sem duvida alguma para mim, um grande jornalista na região da sempre temida fronteira, aonde os covardes agem sempre como ratos de esgotos, claro, apostando sempre na impunidade e principalmente na fragilidade da Justiça, quê Justiça...!?.
Que Deus na sua infinita bondade conceda muita luz a Paulo Rocaro e que abençoe e dê o conforto espiritual que a sua família tanto faz por merecer em um momento triste como este...!
Depois desta parei e fui, mas volto, quando eu não sei, ainda..!
* O autor é jornalista e membro do SINJORGRAN (Sindicato dos Jornalistas da Grande Dourados)