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Opinião

Dez mil ! É pouco, minha gente...

28 de março 2012 - 17h43 Por Waldemar Gonçalves - Russo
Dez mil ! É pouco, minha gente...

Não tenho - e não gostaria de ter - nenhuma procuração para defender os vereadores de Dourados nesta polêmica sobre o aumento dos próprios salários, assim como também não ficar indignado com a atitude de muitas pessoas que os cerca, em especial, os que se dizem eleitores, estes sim, verdadeiros sugadores e porque não responsáveis diretos para que os parlamentares acabem em sua maioria das vezes, caindo para o lado da corrupção com único objetivo, arrecadar dinheiro para poder atender, digamos assim, as suas bases eleitorais.

Baseado no meu ponto de vista acima, vou narrar uma história (com h gente) presenciada por mim quando numa tarde de sábado se encontrava com um vereador conversando sobre tudo, menos política. e tomando uma cerveja em uma lanchonete em um determinado bairro periférico da cidade.

Naquela tarde pude perceber o quanto é duro ser vereador em uma cidade como Dourados e do porque, embora não se justifique, muitos acabam caindo na tentação da corrupção, da propina e de outros tipos de golpes, como fizeram recentemente os nove vereadores – além do prefeito, 1ª dama, vice prefeito, servidores públicos e empresários - que foram sacados de seus cargos enquanto dois outros vereadores, foram apenas indiciados pelos federais.

No bate papo alegre com o vereador, que aqui preservo o nome dele para até mesmo não fazer digamos assim a sua campanha, eis que chega uma mulher e pede para conversar com ele em particular, e ele prontamente a atende, e eu a distância percebi quando ela tirou da bolsa uma conta de água e de luz, e pronto, lá vai o meu amigo a abrir a carteira e passar cinqüentão para a ilustre visitante.

Assim que pegou a grana, a mulher saiu toda feliz rumo a sua casa e o vereador voltou a fazer companhia na minha mesa e o papo sobre futebol voltou à tona.

Menos de cinco minutos depois que a mulher foi embora, chegou ao local dois rapazes com idade entre 18 e 25 anos e entraram na lanchonete e poucos minutos depois tive uma nova surpresa. Lá de dentro do estabelecimento, um deles gritou para o vereador: ‘Fulano, paga uma cerveja pra nós’, e lá vai o vereador a confirmar positivamente para o dono do local a atender o pedido.

Antes mesmo de a dupla engolir o primeiro gole da cerveja, outro jovem gritou: ‘Fulano, posso pegar um Fox, é só um real’, e mais uma vez o vereador atendeu ao pedido.

Encabulado com aquilo, perguntei ao vereador se por onde andava pela cidade a sua vida era daquele jeito, e ele respondeu que sim e para a minha surpresa, acrescentou que naquela tarde as coisas estavam mais calmas.

Depois destes dois exemplos, em menos de uma hora que estávamos juntos, o vereador atendeu, podem acreditar, cinco pessoas, a maioria delas com grana, além de se ver obrigado a pagar cachaça, cerveja e cigarros para as pessoas que na maior cara de pau e sem cerimônia lhe abordavam.

Para finalizar, entre as cinco abordagens, a maior cara de pau mesmo foi de um cidadão que sem ficar com a cara vermelha, pediu ao vereador para que ele pagasse quatro passagens - duas de idas e as demais de volta - para uma cidade de Rondônia, porém neste episódio resolvi interceder pelo meu amigo, pois senti que ele iria morrer mais uma vez em sua carteira.

A HISTÓRIA

O cara chegou e sem nem mesmo dizer boa tarde para mim e para o vereador já foi dizendo: ‘Vereador, você sabe que meus pais estão morando em Ji-Paraná né, e sabe como é né, faz tempo que não os vejo’, e o vereador respondeu: ‘Tá, e daí!’ e como resposta veio a mordida clássica do eleitorado sem escrúpulo: “Sabe, é que eu estou pensando em pegar a nega véia e os meus dois filhos e ir lá visitá-los, daí gostaria que você me ajudasse a fazer esta viagem, pois meus pais estão morrendo de saudades dos netinhos deles né!’.

Com a mordida dada, o vereador indagou ao seu suposto eleitor de que forma poderia lhe ajudá-lo nesta viagem e a resposta foi sem cuspe, na cara do vereador: ‘Ora, dando as passagens minha e da nega véia e sabe como é né, como a viagem é longa né, o senhor poderia arrumar pra mim uns trocados para nós comer alguma coisa pela estrada, né!’.

Neste papo, quando senti que ele iria dar um jeito de “ajudar” o dito cujo, entre de sola: “O cara, estamos aqui conversando um assunto sério. O vereador não tem dinheiro, tanto que quem vai pagar as despesas daqui, serei eu. Se você sair daqui agora a pé com a sua família, com certeza até o final do mês estará lá na casa dos seus pais”, disse ao ‘mordedor’ que, pego de surpresa com a minha reação, deixou o local puto da cara tomando rumo ignorado.

Com isso, ao final desta prosa, decidi convidar o vereador para irmos embora, e assim foi feito após dividirmos o pagamento da conta.

Quero deixar aqui uma observação aos leitores, de que em menos de uma hora cinco pessoas chegaram até ao vereador não para parabenizar a sua atuação frente ao Legislativo Municipal; por estar fiscalizando o Poder Executivo; por estar criando leis em prol da população entre outras obrigações para cumprir na função para qual foi eleito, mas sim para avidamente e vorazmente mordê-lo, daí aquele velho ditado de que “ser vereador é ser empregado do povo” e bota povo nisso.

Finalizando, com esta polêmica da votação do aumento dos salários dos vereadores, entendo que talvez seja por ter acompanhado um deles e ter presenciado tudo aquilo, entender hoje que dez mil de salário é muito pouco para ele atender “o diabo do pobre”, caso contrário, é assim que se vai criando os corruptos no meio da tão combalida política brasileira, em especial, a douradense.

Depois desta, parei e fui, mas volto...!.

* O autor é jornalista e membro do Sindicato dos Jornalistas da Grande Dourados