Tenho 26 anos de idade. Não vivi a Ditadura Militar. Prefiro acreditar nos milhares de relatos e livros que atestam que o período foi mesmo devastador para nossa democracia. Por mais que haja alguns ou algumas alas que defendam o Regime como progressista, eu vejo por uma ótica diferente. Não concordo. É uma questão de opinião.
Como jornalista, costumo ler um pouco de tudo e uma notícia tem feito parte dos jornais ultimamente e causado polêmica. É a revisão da Lei da Anistia e instalação da Comissão da Verdade.
Não se trata de revanchismo ou revisionismo. Nada disso. É que não dá mais para o Brasil empurrar a sujeira do Regime para baixo do carpete. O que acontece é que é preciso tornar público os abusos que o Estado praticou contra seus cidadãos, quando a lógica propõe o contrário, que o Estado tinha e tem o dever de proteger essas pessoas.
Ninguém vai sair prendendo torturadores, até porque muitos deles já morreram, mas, é preciso que essas torturas sejam reveladas para que nunca mais atos como apagar bitucas de cigarros em seios de prisioneiras, estupros e choques nas genitálias voltem a ocorrer.
É preciso tornar público os “arrancamentos” de unhas e de membros, as surras e as palmatórias, as mortes, as quais estavam sujeitos aqueles que eram contra o Golpe. Os tais arquivos secretos têm de ser tornados públicos, doa a quem doer. E digamos de passagem, que será o próprio Estado quem fará isso. Nada mais justo.
Durante uma de minhas pesquisas, em um quartel da fronteira, no final do ano passado, na cidade de Ponta Porã, após uma brincadeira impensada que fizera em uma rede social contra uma repartição daquele quartel, fui repreendido por um oficial que não gostou do que eu escrevi. Fiquei em uma sala com ele e mais dois ouvindo ele me explicar sobre o funcionamento do Exército e sobre como eu estava errado pelo simples comentário que havia feito.
No meio de todo o “sermão”, regado à doses de simpatia, ao qual fui submetido, uma frase me chamou a atenção e me marcou: o que aconteceu lá atrás, no passado, entre nós e vocês jornalistas, está enterrado – disse ele. Se referia certamente à Ditadura, um tempo no qual, eu nem mesmo era nascido.
No mesmo dia, um outro, desta vez sargento, me perguntou o que eu achava da Comissão da Verdade. Eu disse que era a favor. Ele também, porém, ressaltou que só concordava se fossem investigados os “abusos” dos militantes de esquerda.
Eu olhei para ele e sorri. Estava ali pesquisando sobre um assunto não tinha de ligação com a Ditadura Militar e não quis aprofundar a discussão. Quase falei para ele que uma coisa é o Estado coagir e intimidar as pessoas e que outra, bem diferente, é que quem se sinta ameaçado reaja, como fizeram muitos lutadores da democracia, ainda que recorrendo às armas (mesmas armas do Exército) para essa finalidade.
Além do mais, se colocarmos na balança o Estado versus meio milhar de guerrilheiros espalhados pelo país, quem tinha mais poder? Quem era mais forte na época da Ditadura? Raciocínio lógico, dedutivo...
Não reclamo do tratamento que recebi. Pelo contrário, foram muito educados comigo. O que ficou na minha mente, é que se hoje, 27 anos depois do Golpe, alguns militares ainda vêm a nós civis como possíveis ameaças, imaginem em plena Ditadura?
Quem não deve não teme. O problema é quando setores do Exército comemoram como positivas as ações da Ditadura ou o aniversário do Golpe, dizendo que foi feito o que tinha de ser feito. Fez bem a presidenta Dilma em não apoiar a inclusão dessa comemoração no rol de festividades oficiais.
Agora, se um general saudosista quiser reunir seus camaradas também saudosistas para um churrasquinho para comemorar fora de serviço, em uma festinha particular, “vá bene”, afinal, estamos em uma democracia. Ainda bem não é mesmo? Porque se fosse em uma Ditadura não haveria churrasquinho e os organizadores estariam fritos.
Encerro minhas palavras lembrando que em Dourados os abusos também ocorreram, que vereadores foram cassados injustamente, que pessoas inocentes foram presas, ameaçadas. Todo mundo na cidade sabe disso. Fica minha dica para que a Câmara Municipal corrija essas injustiças, pelo menos pedindo desculpas às famílias dos cassados e em nome deles á todos os demais injustiçados. É uma sugestão, uma gota de água em um oceano de arbitrariedades praticadas no Brasil daquele tempo e que sinceramente espero nunca precisar presenciar. Como disse no início, prefiro continuar acreditando nos livros.
* O autor é jornalista profissional, pesquisador, especialista em Estudos da Linguagem, mestrando em Comunicação e à favor da manutenção do regime democrático.
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