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Opinião

Fé, amor, esperança e chipa paraguaia

06 de abril 2012 - 15h09 Por Júlio Saldivar
Fé, amor, esperança e chipa paraguaia

julio_saldivar Esses dias onde especialmente a igreja católica prepara todo um ritual no sentido de nos levar a uma reflexão em torno da historia da morte e ressureição de Jesus Cristo, para mim, descendente de paraguaio que sou, é um dos períodos em que mais me remete a lembrança da infância vivida aqui nos primórdios da nossa Dourados.

Naquela época, isso falo entre os anos de 60 ate o início dos anos 80, sou nascido em 1963, desde o inicio da semana santa, já começavam os preparativos na família, todo um ritual de reuniões e combinados, entre minha avó, suas filhas, e entre elas minha mãe, e também as noras, e olha que a turma era grande, para reunir os ingredientes e na quinta-feira santa confeccionar todas as guloseimas próprias dessa época, de acordo com a tradição paraguaia. Nesse dia a reunião de senhoras da família estava armada na casa de Ranulfo Saldivar e dona Joana Saldivar, e o grande forno de barro aceso no quintal, utilizando folhas de bananeiras como forma, assava deliciosas chipas, sopas paraguaias, pães, bolos, etc..

Por imposição de minha avó, levando a ferro e fogo a tradição dos antigos, a quinta e sexta-feira santa eram dias de profundo respeito ao apelo religioso que essa data inspira. Era como se realmente estivéssemos vivendo de forma real a morte de Jesus Cristo. As crianças eram a todo tempo cobradas a fazer o mínimo possível de barulho, sem correria, e música nem pensar. Existiam normas como limpar a casa até no máximo quinta-feira pela manhã. Na tarde da quinta e durante toda a sexta santa mexer com limpeza ou qualquer tipo de trabalho representava total falta de respeito aos preceitos religiosos. Fazer comida na sexta-feira santa nem pensar, o alimento eram as guloseimas feitas no dia anterior. As novenas e rezas reuniam boa parte da família durante toda a semana.

Apesar de todo o respeito a essa data que nos era imposto, para nós crianças tudo era alegria, afinal de contas estávamos todos reunidos na casa de meus avós, num ambiente familiar e acolhedor e com farta quantia de guloseimas. Tudo que uma criança precisa para estar feliz! E não eram poucas crianças não, os netos de dona Joana Saldivar já eram quase uns trinta no inicio dos anos 70.

As reuniões de toda a família na casa de meus avós para manutenção dessa tradição foi morrendo à medida que fomos ficando adultos e a família se expandindo, e terminou de vez com a morte de minha avó no inicio dos anos 90.

Passados os anos, a tradição do consumo de artigos da culinária paraguaia nesta época ultrapassaram os limites das famílias paraguaias para se tornar um costume de quase todos que moram em nossa cidade, e porque não dizer em todo o Estado de MS, mas a lição maior que tiramos dessa tradição e tentamos manter e passar para nossos filhos é o da união da família. Passa um filme na minha mente, e fico muito feliz observando hoje minha mãe e minhas irmãs, assim como a mãe e irmãs da minha esposa combinando de levar os ingredientes para juntas fazerem as guloseimas, e mais feliz ainda vendo a alegria de nossos filhos reunidos.

A garantia de uma boa formação, baseada na união e no amor, pode estar representada na manutenção de uma tradição familiar, e fica ainda mais atraente quando essa tradição vem acompanhada de uma deliciosa chipa, ou uma suculenta sopa paraguaia. FELIZ PÁSCOA PARA TODOS.

* O autor é consultor de causas trabalhistas, douradense, descendente de tradicional família paraguaia.