Outro dia, enquanto eu caminhava em direção ao meu carro, em um estacionamento de um supermercado, notei que logo mais adiante uma senhora, aparentando ter mais de setenta anos, caminhava desorientadamente a procurar sua carona. Notei que ela estava perdida, então lhe ofereci ajuda. Perguntei qual era o seu nome; e ela já nitidamente cansada e ofegante, trazia no braço esquerdo uma tremura que lhe acompanhava a cada passo que dava, em direção da busca pelo carro de propriedade de seu genro. “Procuro um carro preto”, disse ela! “Meus olhos não veem e já estou tonta”, completou.
Imediatamente me somei a ela nessa procura. Entre um caminhar e outro, ela me dissera que havia saído do supermercado e num descuido se perdera do genro a quem o acompanhava numa típica manhã de início de mês. Resolvemos parar um pouco, porém, os olhos daquela senhora não paravam um só segundo. Queriam a todo custo avistar aquele que seria seu caminho de volta para a casa. Quando de repente o som comprido de uma buzina quebrou o rugido comum daquele ambiente carregado de gente preocupada apenas em chegar e sair...
Um susto! Do lado de fora, uma idosa com feição cansada e olhos marejados; do lado de dentro, um motorista insensível e nem um pouco preocupado com o que poderia estar acontecendo bem à sua frente. Na hora fiquei estático. Sinceramente, não queria acreditar em tamanha ignorância. Mas o que fazer diante de tamanha grosseria? Quando pensei já ter visto o pior; surpreendo-me com uma voz rouca gritando às minhas costas. Era ele!
O genro que inacreditavelmente descarregava naquela mulher já quase sem fala, toda sua raiva por ter que procurar há mais de dez minutos, alguém que segundo ele próprio disse “tinha que ter ficado em casa!”
O silêncio daquela senhora foi suficiente para calar também a minha voz. O olhar daquela senhora foi suficiente para que eu visse naquele homem o exemplo de Ser Humano que não se deseja para nenhuma família. Aos berros e a passos largos ele se dirigiu até o carro. Já ela: não posso dizer que o acompanhou na mesma pegada... Mas posso afirmar que o homem só se calou quando bateu com a porta de seu carro que não era preto, mas sim, cor prata.
Cores à parte, confesso que o silêncio tomou conta de mim. E então eu pergunto: O reencontro perdeu o sentido? Será que sua mãe merece isso? Sua avó merece isso? Onde está a paciência com o outro? A busca virou um martírio? A fala que devia tranquilizar, amedronta! A buzina que devia pedir licença, na verdade, abre passagem para o descarregamento do stress, daquele que não percebe que logo sua juventude também chegará ao fim!
O que será isso, minha gente? Que lugar é esse, onde pessoas perdem a sensibilidade diante da vida humana?
Não! Não quero crer que todos sejam assim! Recuso-me a acreditar que o ser humano tenha se transformado numa máquina insensível e de ação duvidosa e medíocre. Não posso deixar que a falta de amor no coração do outro me contamine também. Preciso ser forte e não fazer de conta que está tudo bem e que isso é assim mesmo. Não. Verdadeiramente, não pode ser assim!
* O autor é comunicador, escritor e narrador de rodeio.Membro da Academia Douradense de Letras. E-mail [email protected]