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OPINIÃO: Hospital da Vida

15 de junho 2012 - 17h36 Por Luiz Machado
OPINIÃO: Hospital da Vida

Com freqüência tenho que deslocar até o Hospital da Vida para acompanhar nossos pacientes, da minha área do Programa da Família, do bairro da Cachoeirinha, em tratamento hospitalar.

E com preocupação e tristeza quando vejo meus colegas médicos tentando exercer uma medicina rígida por princípios e juntamente com os pacientes que recebem um atendimento sofrível. Penso: Não é possível um hospital público de responsabilidade, daqueles que são responsáveis, com 70 leitos aproximadamente oferecidos pelo SUS atender uma população de quase 1 milhão de habitantes.

Lembro-me do professor Drauzio Varella, quando afirmou que o juramento de Hipócrates está tão antiquado que soa ridículo ouvir jovens recém- formados repetirem sem saber o verdadeiro significado. Embora o juramento contenha intenções filosóficas louváveis a respeito da ética no relacionamento com as pessoas que nos procuram em momento de fragilidade física e psicológica. Convenhamos que a visão social do “pai da medicina” deixa muito a desejar. Ele era médico dos cidadãos gregos e de aristocracia da vizinhança atraída por sua fama merecida.

“Sem desmerecer o valor científico de Hipócrates que abriu caminho para a medicina baseada em evidências. Mas a mera existência de um juramento solene dá a impressão de que somos sacerdotes e de que devemos dedicação total aos que nos procuram”, afirma Drauzio.

Temos que nos preocupar com os aspectos profissionais, as condições de trabalho, pela remuneração pelos serviços prestados, contrariando a felicidade de fortes empresários gananciosos e políticos sem compromissos.

Por causa desse sacerdócio, os médicos se submetem ao absurdo dos plantões de 24 horas, seguidos por mais 12 horas de trabalho ao longo do dia seguinte, em desrespeito à própria saúde colocando em risco a dos doentes atendidos. Contrariando o mais elementar dos diretos trabalhistas: o de dormir.

Em plantão em um hospital que atendíamos pelo SUS, chegamos a fazer oito cirurgias, em um plantão noturno. Entrei às 19 horas e saímos do centro cirúrgico às 7 horas do dia seguinte.

O que faz ser médico é o compromisso diário com os doentes que nos procuram e lutar em melhorar a saúde da comunidade em que atuamos.

Medicina não é profissão para aqueles que têm preguiça de estudar, é a arte de ouvir, de observá-los, de examiná-los.

Também não concordamos com aqueles que a falta de tempo serve de desculpa para não ouvir os nossos pacientes e fazer um bom atendimento. Porque curar é secundário na medicina, mas sim aliviar o sofrimento humano.

No exercício da medicina por mais de 30 anos, sempre os doentes formam fila na porta dos hospitais, foi incorporado à cultura brasileira.

Seria ingenuidade achar que fosse fácil organizar o atendimento médico à população. Trata-se de um problema de enorme complexidade. Afinal, a população não para de crescer e a pobreza, de aumentar. Mas, não é possível que não exista jeito de organizar tudo isso.

Aos funcionários da área de saúde, que alguns moram distante, acordam para deixar o almoço, deixar as crianças na creche (quando tem vaga) e chegar ao hospital público às 7 horas para dar banho nos doentes, tudo com um sorriso nos lábios e levando esperanças para aqueles necessitados.

Como explicar o sofrimento humilhante de ficar nas macas impostas aos pacientes e daqueles ao veres familiares, idosos e deficientes alojados nos corredores?...

“Não se pode pedir de um médico mais do que se pode pedir de qualquer outro ser humano: a carga de sacrifícios, de frustrações e de coisas amargas que recaem sobre a profissão já é, em todo o caso, gigantesca”. Marcelo Coelho.

Vejo, conversando com os meus pacientes, o que eles pedem. Simplesmente uma cama, com lençóis limpos e alguém da família na sua cabeceira.

É muito pouco... Não é?

* Dr. Luiz Machado é médico do PSF- Cachoeirinha