As universidades federais e outras instituições congêneres de ensino superior possuem um papel muitíssimo relevante para o país. Isso não se deve apenas ao protagonismo ligado à formação de milhares de profissionais todos os anos: professores, engenheiros, médicos, advogados, dentistas, contadores, biólogos, químicos etc. Há também outras inúmeras ações voltadas para o desenvolvimento científico e tecnológico, à inclusão social, à preservação do meio ambiente e da biodiversidade e à garantia de direitos a segmentos historicamente excluídos da população. Por estes e tantos outros motivos é que estas instituições assumiram um papel estratégico, inovador e crucial para o Brasil, país emergente cuja economia desponta entre as maiores do mundo.
A cidade de Dourados, por exemplo, tem se beneficiado, e muito, com o desenvolvimento do ensino superior: construção civil, comércio, prestação de serviços, atividades culturais, agronegócio etc. Isso tudo tem gerado emprego e renda a milhares de pessoas que direta e/ou indiretamente tiveram alguma oportunidade a mais para viver com dignidade na região.
No entanto, paradoxalmente, um professor universitário, com o título de doutor, mais de dez anos de formação acadêmica e expressiva produção intelectual, recebe um salário menor que muitos funcionários de certos legislativos existentes de Norte a Sul no país. Disparidades salariais assim causam desconforto e indignação no meio acadêmico. Somam-se a isso as dificuldades de diálogo com o governo federal para entendimentos com vistas à reposição de perdas salariais, melhorias no plano de cargos e salários de docentes e técnicos administrativos e direito a uma aposentadoria à altura para enfrentar a velhice com dignidade.
Esta situação explica, ao menos em parte, a greve deflagrada por professores/pesquisadores de dezenas de universidades federais distribuídas por todo o território nacional. Exemplo disso é o que ocorre na UFGD e na UFMS, as duas universidades federais existentes em Mato Grosso do Sul. Técnicos administrativos, por seu turno, seguem com a mesma estratégia para a reivindicação de direitos.
Em que pese saber dos motivos que levaram à greve desses servidores públicos, acredito que nos dias atuais as universidades federais não têm ou podem paralisar completamente suas atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração. Paralisar projetos de pesquisa (como experimentos e trabalhos de campo), atividades de extensão (eventos científicos nacionais e internacionais, por exemplo) e aulas de pós-graduação (mestrado e doutorado), dentre outras, podem funcionar como um tiro pela culatra. Isso porque os prejuízos recairão sobre a própria comunidade universitária, bem como à população em geral e às próprias instituições de ensino superior. Esta avaliação é válida, inclusive, no que diz respeito à captação de recursos para atividades fins. Ademais, se houver a paralisação de apenas o ensino de graduação, como tem sido comum nas últimas décadas, os estudantes serão os maiores prejudicados. Refiro-me, especialmente, àqueles que já estão como que encaminhados para o mercado de trabalho: os aprovados em concurso público, os que terão que prestar serviço militar obrigatório, aqueles que receberam propostas de emprego no setor privado etc.
Por motivos dessa natureza é que pesa aos servidores públicos federais, docentes e técnicos administrativos, o desafio de repensar e reinventar suas estratégias de luta e conquistar a opinião pública a seu favor. Pressionar o governo federal por meio de atos públicos e acionar redes sociais disponíveis na Internet são algumas dentre tantas possibilidades. O movimento “Veta Dilma” é um exemplo disso. Mesmo assim, não tenho dúvidas de que esta é uma luta de todos em defesa da universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente comprometida com o desenvolvimento socioeconômico do país.
Oxalá que o governo federal tenha sensibilidade, vontade política e competência para atender às reivindicações apresentadas pelos sindicatos e esta greve termine o mais rápido possível e com conquistas para os servidores públicos.
* O autor é Doutor em História/Arqueologia pela PUCRS e professor da UFGD. E-mail: [email protected].