Dia 18 dessa semana a cidade de Ponta Porã que já foi capital do extinto Território Federal do mesmo nome, de 1943 a 1946, completou cem anos, deixando de ser Distrito de Bela Vista em 1912. Percebemos que ali seus habitantes vivem numa harmonia com o vizinho Paraguai, onde os costumes se confundem e seus filhos têm orgulho de serem pontaporanenses.
Distante um pouco dali na Colônia Militar dos Dourados nasceu minha mãe Jahyr Martins Ferreira no dia 21 de março de 1918, depois foi viver no lugarejo chamado Porteira Ortiz, onde tinham uma pequena propriedade. Meu avô Mantilha Martins, natural de São Borja-RS, região das Missões Jesuíticas Guaranis, conhecia muito bem a região, seu meio de transporte naquele tempo era o cavalo, o melhor amigo do gaúcho, afinal era seu condutor, bem como a carreta de boi que transportava a família. Ele contava muitas histórias sobre a região, de Santa Virgínia, da Fazenda Campanário, lugares que ele conhecia a palmo, região da casa de lata, campestre, Cabeceira do Apa, onde seu avô Manuel Martins chegou em 1906, depois de viajar um ano e sete meses de São Braz, hoje pertencente ao Município de Santo Antonio das Missões, desmembrado de São Borja.
Por ocasião da invasão do nosso estado pelo desertor, Capitão Carlos Prestes que com seu bando em 1924 chegou à região de Ponta Porã, meu avô teve que se refugiar no Paraguai com a família no mês de julho/agosto, morava em Santa Virgínia. Quem ficou foi levado à força para assaltar as fazendas, muitas mulheres foram estrupadas, os chamados revoltosos que vieram do Rio Grande do Sul foram até o nordeste e depois retornaram, se embrenharam em terras bolivianas após serem combatidos pelas forças legalistas.
Na volta assaltaram também a Fazenda da Resignação da minha bisavó Carlota Almeron Lopes Gomes, viúva do último diretor da Colônia Militar dos Dourados, Major João Luiz Gomes. Este fato aconteceu no período em que a região ficou coberta de geada, cujo inverno sempre foi rigoroso. Retornando do Paraguai meu avô não encontrou nenhum animal, visto que o gado, ovelhas foram consumidos pelo bando e os cavalos roubados sob o comando do bandoleiro Prestes.
Diante do ocorrido meu avô mudou-se para Porteira Ortiz com minha vó Elisa, distante a cerca de seis quilômetros de Ponta Porã, minha mãe já tinha cerca de oito anos, minha tia Nair quatro anos e meu tio Juvenil (pilolo) dois anos. Ponta Porã era um lugarejo que nem escola tinha, os ricos estudavam em grandes centros e os pobres no Paraguai. Minha mãe, hoje com 94 anos e quatro meses contou-me que estudou em Porteira Ortiz do outro lado paraguaio e sua professora era uma francesa, pode aprender o francês, o espanhol e como vivia ali entendia o guarani, afinal naquele tempo este idioma não era ensinado nas escolas, mas falado pela maioria dos habitantes da fronteira. Devido ao isolamento da região muitas palavras usadas eram castelhanas e ela estranhou muito quando se mudou para a nossa região.
Assim começou sua vida, pode aprender algo e aos 18 anos de idade já era professora numa escola da região, nomeada pelo prefeito Lídio Lima, cujo primeiro título de eleitor, consta sua profissão como funcionária pública. Casou-se aos 21 anos de idade com Abílio Ferreira, ele com 26 anos em 25 setembro de 1939, vindo a morar na localidade de Picada do Romualdo em 1941, hoje Distrito de Picadinha, antes moraram no Cerrito por dois anos quando meu pai era guarda-livros do Sr. Antonio Alves Rocha (Nhonhô).
Ela conta que para chegar até Ponta Porã tinha que fazer o contorno pela Picadinha para poder atravessar o Rio Dourados, cujo meio de transporte era a carreta de boi e depois apareceu um carro Chevrolet de um turco. Para se fazer o percurso pelo caminho atual, era a cavalo e meu avô exímio cavaleiro, minha mãe uma amazona experiente, atravessavam o rio a cavalo. Minha irmã mais velha, Doroti, 76 anos, conta que certa vez ela foi à garupa do nosso avô e era tão normal que com seus seis anos de idade ia brincando com uma varinha sobre a água.
Em Ponta Porã na época existiam muitas famílias abastadas e muitas paupérrimas, ela era amiga de Rachid Salda Derzi, este não era rico, fez medicina, casou-se com uma mulher da família Coelho, tornou-se prefeito de Ponta Porã e foi médico do meu irmão Francisco Paraguassu nos primeiros anos de idade.
Até as pedras se encontram e isso aconteceu no mês de setembro de 1986 quando Rachid Saldanha Derzi esteve na Picadinha, encontrou-se com minha mãe, ele candidato a reeleição para o senado. Relembraram os velhos tempos, os bailes, a amizade da família, meus pais foram seus eleitores como eu.
Se andarmos pela fronteira de Ponta Porã/Paraguai, chegamos à conclusão que depois de cem anos, muita pobreza ainda existe na região, muita exploração, os campesinos no lado paraguaio e os brasiguaios no lado brasileiro. Tudo isso é a herança deixada pelos administradores da fronteira, consequência dos mais de sessenta anos do regime ditatorial que ali se instalou e devido à influência de muitos latifundiários brasileiros proprietários no Paraguai e que até influem na política paraguaia, vide os acontecimentos recentes.
Apesar de todos os problemas, Ponta Porã continua hospitaleira e recebe a todos com carinho, é um povo que conserva seus costumes, sua história é contada pelos seus filhos com muito amor.
Dourados-MS, 20 de julho de 2012.
* O autor é advogado, segundo tenente reservista, licenciado em letras com inglês, estudioso do idioma guarani e produtor rural.