A tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, aconteceu em um momento que nos leva a refletir. O carnaval este ano acontece no começo de fevereiro. O tempo entre um evento e outro é muito curto, sobretudo considerando os preparativos para o carnaval que já estão a todo vapor. É preciso mostrar os “gritos” - não os de dor das famílias que perderam seus queridos, mas os que anunciam a maior festa de rua do mundo! Ou alguém pensou em cancelar o carnaval?
Teremos pouco tempo para refletir sobre as causas da tragédia, sobre o trancamento das portas para evitar que as pessoas saíssem sem pagar a conta, sobre o não funcionamento dos extintores, sobre o porquê de tantos menores estarem irregularmente naquele lugar, sobre a precariedade de todo sistema de segurança, sobre a falta de alvará da boate e sobre tantas outras questões que se levantam na tentativa de explicar ou entender a tragédia. É muita coisa para refletir em pouco tempo. O carnaval está ai e tanta tristeza não combina com a alegria e com a lucratividade do carnaval.
Não é que vamos nos esquecer da tragédia. Só não vamos nos lembrar dela em muito pouco tempo. A gente não esqueceu do Índio Galdino de Brasília, do desabamento do Edifício Liberdade no Rio de Janeiro, daquele prédio do falecido deputado Sergio Naya que caiu matando várias pessoas, daquele trem que descarrilou... a gente não esqueceu, só não lembra mais.
É claro que faremos alguns minutos de silêncio em homenagem às vítimas nas primeiras semanas. É preciso que a nação mostre que sente tantas perdas de vidas e que exija a punição de algum culpado. Isso, sim!
Mas é pouco o tempo para refletir sobre as tantas mortes de pessoas tão jovens, que tinham uma vida toda pela frente, tantos sonhos para serem realizados e tantas alegrias para serem vividas. Não teremos muito tempo para pensar nos tantos almoços de domingo, nas tantas partidas de futebol pela televisão, nas incontáveis rodas de chimarrão, nas infinitas horas com os amigos e familiares simplesmente fazendo nada, que já não virão.
O tempo para refletir sobre a brevidade da vida e sobre essa coisa tão certa que é a morte é muito pouco. O tempo que temos para pensar na fragilidade humana, sobre a irracionalidade de julgar-se melhor ou superior ao outro como se, diferente do resto, fossemos imortais; sobre o valor das coisas simples, da tarefa que fazemos com o filho, do passeio na praça de mãos dadas com a esposa, da roda de tereré com os amigos, da companhia das pessoas que amamos, é sempre escasso.
O tempo para pensar nisso tudo é muito curto. Por isso, nessa hora de dor que compartilhamos com todas aquelas famílias que perderam seus queridos, quis aproveitar para refletir e para dividir esse meu sentimento com todos vocês.
Meus amigos, pensemos um pouco na brevidade da vida, para aprendermos a celebrá-la com toda intensidade que ela merece!
A todos o meu abraço e o meu carinho.
* O autor é comunicador. escritor, membro da Academia Douradense de Letras, e vereador de Dourados-MS