Tinha por volta dos cinco anos e seu principal passatempo era brincar com suas bonecas de cabelos brilhosos feito capim-dourado, macios uma delícia de pentear, perdia a tarde inteira naquela prática. Mas o que mais lhe agradava mesmo era sair à rua acompanhada pela mãe que para garantir que ela não se soltasse e saísse desatenta correndo entre os carros a levava agarrada pelo pulso. Seria apenas mais uma ida comum como qualquer outra ao supermercado, tudo parecia normal como de costume até que a menina parou bruscamente interrompendo os pequenos saltos que dava entre um quadrado e outro da calçada e gritou apontando para o outro lado da rua “olha mãe como aquela menina é pretinha.”. A mãe de pele clara envergonhada com o comentário da filha não sabia bem o que dizer, mas talvez como uma forma de repressão ou mesmo em dúvida perguntou: “E você pensa que é o que? Não obteve resposta.
Mais tarde em casa enquanto a criança brincava com sua nova boneca de cabelos ruivos, comprada na mesma tarde na lojinha ao lado do mercado, a mãe ainda tinha na cabeça aquela frase tão forte proferida pela filha. Talvez se ela não conhecesse a família paterna que lhe trazia tanta alegria visitar com o pai nos domingos e feriados, passeios dos quais voltava pra casa cheia de coisas para contar sobre as histórias que o vovo viveu e as tranças que a tia fez para dar um jeito naquela cabeleira toda que a mãe não tinha controle. Mas não, nada explicava aquele comportamento. Contou então para o marido, sobre o comportamento da filha, que prontamente foi tomar esclarecimentos com a menina repetindo quase que a mesma pergunta. A resposta lhe atingiu feito um açoite como se diante de dele a criança daquele casamento inter-racial negasse mais de 120 anos de herança dos seus, ao qual aquele homem exclamava aos quatro cantos com orgulho sendo a origem de seus braços fortes que dia-a-dia incansavelmente ajudavam a construir seu país
Ela apenas disse “papai eu sou morena clara. ’’. E o que tem demais nisso? Cresceu em meio a tentativas dos pais de fazê-la enxergasse como realmente era enquanto que tudo ao seu redor refletia o que artificialmente queria ser. A moça na TV que se proclamava rainha das crianças lembrava tanto suas bonecas, os anjos da igreja eram tão lindos com seus olhos azuis e pele cor de porcelana e a princesa com lábios cor de sangue e pele cor da neve que esperava para ser salva pelo príncipe montado em seu branco alazão. Sendo assim não tenderia a ser diferente e inaceitável. Dizia ter os olhos cor de mel seu pai teimava que não, “são negros”.Negro?Negro não isso era feio coisa de gente ruim ,mostrava história da princesa que foi enfeitiçada após beijar um príncipe que mexia com magia negra ,não queria ser Princesa Sapo queria ser Rapunzel .
A moça do salão disse que cabelo liso crescia mais rápido, prometia ser sua fada madrinha, em um passe de mágica esticou os seus cachinhos o que permitiria que ela inicia-se a terceira série com o cabelo melhor, com mais balanço. Não foi a escola no dia seguinte a dor de cabeça não deixou e se não bastasse isso os cabelos perdidos no travesseiro denunciavam o que estava por vir após a primeira lavagem de seus fios aparentemente tão sedosos. Em sua cabecinha de princesa pairava a idéia de que aquela fada estava mais pra bruxa má que lançou mão de artifícios ilusórios mais cruéis que uma tesoura só para evitar que sua cabeleira se desenvolvesse esplendorosamente, para seus pais ficou a lição de que era cedo demais para deixar uma criança submeter-se a ditaduras estéticas do que é considerado bom, belo e aceitável.
Mas um dia ela teria que despertar daquele conto de fada que tapava os seus olhos e lhe impedia de compreender melhor as origens entre o emprego de claro e escuro nas lutas entre bem e mal. O primeiro sinal veio quando foi proibida categoricamente de brincar com uma coleguinha da escola cujo os pais haviam dito que achavam o gesto de sua mãe louvável de adotar uma menina assim escurinha. Adotada?Não entendeu muito bem o porquê, está certo que seu pai não ia muito a reuniões escolares o que poderia gerar um pouco de dúvida sobre a origem de seus traços, lábios grossos e cabelos rebeldes, mas ele sempre dizia que todos faziam parte de uma nação miscigenada onde todos descendiam de uma mescla de cultura europeia ,indígena e africana .
A puberdade chegou e junto dela os seus porquês. Tudo que seu pai tentava lhe explicar e fazer com que tivesse orgulho veio à tona por volta dos quinze anos em um dia no colégio em uma daquelas gincanas de atividades escolares um grupo de pagode iria tocar enquanto representantes de várias séries competiam para ver qual era a melhor dançarina, a ideia lhe pareceu horrível afinal não era nada que se assemelhasse as letras poético do músico Cartola que seu pai escutava nos dias de folga e sim um ruído sem conteúdo .Sua professora pediu pra que ela fosse ,imagina só se não bastasse que aquele ritmo não refletisse seu gosto musical ainda teria que compactuar com aquele concurso vergonhoso,disse que não sabia dançar quando escutou seu colega dizer com uma entonação maldosa “eu nunca vi preta que não samba”.
Aquela altura percebeu que ter que ser morena clara era o menor de seus problemas, que a afirmação do companheiro de escola não era de todo mentira, nem que a culpa de ter pensado assim por tanto tempo não era de seus pais. Cresceu sem se ver representada, como poderia se orgulhar daquilo que não via? A pele escura, os olhos negros, os lábios grossos e demais traços fortes passou ostentar com orgulho afinal eram herança de “muito mais do que 120 anos de história” .Soltou os cabelos encaracolados porque afinal só está preso quem deve algo a lei e ela não devia nada a ninguém,talvez a si mesma uma história da vida real pra outra menina olhar e se ver representada em algo mais do que a mulata semi-nua que balança as cadeiras no carnaval ou o menino da periferia bom de bola que venceu a pobreza.
Talvez um dia se referissem a ela apenas como uma menina, onde a frase “aquela menina negra de cabelo sarará” fosse empregada apenas como qualitativo físico e não determinante social. Mesmo assim nutria no peito a certeza de que podia ser o que quisesse muito mais do que seus estereótipos lhe impunham. Professora, advogada, economista, presidente, quem sabe. Mais do que nunca deixou os contos de fada de lado não queria ser princesa coisa nenhuma se podia ser rainha de verdade, queria ser Chica da Silva.
* A autora é acadêmica do curso de Relações Internacionais da UFGD