Nos dias 14 e 15 de abril de 1945, em Montese, Itália, região dos Montes Apeninos, tropas da Força Expedicionária Brasileira conquistavam o município após fortes combates contra tropas alemãs. Os brasileiros os enfrentavam na Itália desde setembro do ano anterior e vinham acumulando vitórias, uma derrota e alguns recuos frente à Monte Castelo.
Desde então, após a queda de Monte Castelo em fevereiro e onde os brasileiros haviam ficado estacionados quatro meses, vinha sendo planejada uma nova onda de ataques para desalojar os alemães e os fascistas. Era a chamada “Ofensiva de Primavera”, que se espalharia por todo o front aliado, com tropas americanas, inglesas e de outros países atuando em conjunto.
O objetivo era evitar que o inimigo conseguisse retirar forças para outras frentes, cortar-lhes recursos e em conjunto com outras tropas levar as forças alemãs à um colapso total.
Os brasileiros
A Engenharia de Aquidauana/MS abriria caminho. Os homens do 11º Regimento de Infantaria, parte do 1º Regimento de Infantaria, e o Esquadrão de Reconhecimento deveriam partir para o ataque. Desde 5 de abril a Engenharia vinha estudando o terreno.
O ataque começou no dia 14 de madrugada e se estendeu durante todo aquele dia, casa por casa. Vários locais estavam minados e os alemães haviam espalhado armadilhas. À noite a batalha continuou e a artilharia alemã não deu sossego. Quando amanheceu o dia 15, os brasileiros tinham consolidado a posição e mais tropas avançavam para Montebuffone/Montello pelo norte e nordeste da cidade.
No dia 16 a artilharia alemã ainda bombardeava a cidade, ao ponto que das 1.200 casas existentes, 800 foram destruídas. Em 20 de abril o comando do IV Exército Aliado pediu que os brasileiros suspendessem o ataque porque dali em diante a 10ª Divisão de Montanha dos EUA que lutava à direita do Brasil tinha achado uma brecha entre as tropas alemãs graças ao ataque da FEB e agora buscaria pressioná-los. A batalha de quatro dias custara 428 baixas ao Exército nacional entre mortos e feridos.
O empenho dos soldados valeu um elogio do comandante geral do IV Exército Americano, Gen Crittenberger, que comandava todos os regimentos da Ofensiva de Primavera. “Na jornada de ontem, só os brasileiros mereceram as minhas irrestritas congratulações; com o brilho de seu feito e seu espírito ofensivo, a Divisão Brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade”.
Depoimentos
Quem participou da batalha, não a esquece, como o soldados sul-matogressense, Jorge da Silva (in memorian), do Esquadrão de Reconhecimento. Mesmo já nonagenário ainda chorou ao lembrar. “Eu lembro que em Montese[1] veio um soldado brasileiro correndo assim do lado de mim [ele no carro de combate] e caiu assim pertinho baleado. Sentiu que estava ferido e deitou. Ele pegou, abriu a camisa, olhou o ferimento, pegou um lenço do bolso e colocou em cima e morreu ali. Depois que terminou o tiroteio eu desci e fui ver. Não era lenço, era carta da mãe dele e dizia que não tinha perdido a esperança de ver ele voltar para casa”, contou chorando.
Agostinho da Motta combateu casa à casa para expulsar os alemães. “Foram quatro dias dentro de Montese e a artilharia alemã jogando bombas em cima e artilharia nossa, e a gente tirando alemão de dentro de buraco porque estavam todos camuflados. Foi difícil demais, era um território de mina que você não sabia onde pisava e a Engenharia que tinha que marcar. Muitas vezes o companheiro caía e você não podia entrar senão ficava lá também. Foram quatro dias ali que... Montese foi... [silêncio]”.
O Brasil na II Guerra
Na guerra, que acabou em maio de 1945, os expedicionários como eram conhecidos, enfrentaram além do inimigo que já guerreava havia quase seis anos, temperaturas que no inverno chegaram a -20ºC.
O treinamento que os brasileiros receberam foi de menos de seis meses, quando o normal era pelo menos um ano. Mesmo assim os brasileiros não fizeram feio, pelo contrário, ajudaram no esforço de guerra e combateram à altura dos Exércitos mais experientes, tanto dos aliados, quanto dos inimigos e depois de nove meses de lutas, os alemães se renderam incondicionalmente em 8 de maio de 1945. Em 239 dias de ação, a FEB fez mais de 20 mil prisioneiros e matou outros milhares, porém perdeu mais de 451 soldados, mortos em combate e registrou ainda 1,6 mil feridos, acidentados e desaparecidos em combate.
* O autor é Doutorando em Comunicação e Linguagens, estudioso da II Guerra e autor do livro “Confissões do front: soldados do Mato Grosso do Sul na II Guerra Mundial”.