Desde os primórdios da nossa história os homens sempre protagonizaram grandes conflitos, promovendo uma cultura de guerra que, infelizmente, ainda persiste na sociedade de forma avassaladora.
Não podemos entender como PAZ somente ausência de guerras físicas propriamente ditas, pois as violências se manifestam de diferentes formas, podendo ser de imposição cultural ou econômica.
Atualmente, todos os processos de conquistas, de subjugação de povos ainda refletem com grande intensidade, pois somos conhecedores que o continente Africano e o continente Americano sofreram um amplo processo de exploração que fazem muitos povos serem vítimas destas heranças.
A terra sempre foi vista como elemento de poder, tal é verdade que os maiores motivos de guerras se deram em razão da busca pelo seu domínio, todos os pensamentos que visavam conquistar o mundo passavam necessariamente pela conquista de novos territórios e domínios de povos, se formando os grandes impérios da antiguidade.
Conquistar o mundo nestas ocasiões significava deter dimensões de terras e estes pensamentos foram as razões principais da Primeira e da Segunda Guerra Mundial ocorridas no século XX, que tinham como foco, a expansão dos domínios de territórios pelos países que formaram as alianças para as guerras.
Hoje, sabemos que o domínio do mundo se dá pela ciência, onde possuir dimensões de terras não contribui necessariamente para seu crescimento, visto que países como Rússia, China e também o nosso país não são detentores do status de países desenvolvidos pelo simples fato de possuir grandes dimensões, pois não dominamos o maior campo da evolução que é o conhecimento, tal exemplo mais explícito é o Japão que ressurgiu das cinzas após Segunda Guerra Mundial e se tornou uma das maiores potências econômicas do mundo, devido investimentos em educação e reforma agrária, embora sendo de pouca dimensão territorial.
Diante deste relato quero aqui contribuir com a reflexão que envolve nossos irmãos produtores rurais e nossos irmãos indígenas, que entendo serem vítimas deste processo de conquista por qual passou nosso país, visto que quando fomos conquistados por Portugal os povos nativos fizeram de forma contundente o enfrentamento da defesa de nosso território, todavia foram vencidos pelas forças opressoras do processo de colonização.
Em primeiro momento além de serem expulsos de suas terras também foram vítimas da tentativa de escravidão, fato que desencadeou conflitos acirrados pela não aceitação desta condição e estas situações levaram os povos indígenas a uma constante expulsão dos seus territórios, que lhes fizeram ficar aldeados com espaço delimitado pelas forças governantes que lhes oprimiram no decorrer de nossa história.
Atualmente estamos vivenciando esta problemática, sendo testemunhas das consequências deste processo, pois neste momento o nosso país assiste a construção de páginas tristes da nossa história, índios e não índios se armando para defenderem o direito a propriedade, o que representa uma incoerência em um país de tão grande dimensão territorial, mais é notório que o processo concentrador de terras é que determinou e culminou com esta situação.
Devemos reconhecer que os povos indígenas são merecedores sim do acesso a terra, entretanto, não podemos corrigir injustiças promovendo novas injustiças, pois as questões de ótica de valores colocam em choque culturas distintas, pois os povos indígenas não enxergam a terra da mesma forma que os não índios, para a comunidade indígena terra possui valores que os não indígenas cultuam, pois para os não índios terra é sinônimo de produção e é daí que se dão nossos maiores conflitos, por não aceitarmos os estilos de valorização da terra pelos irmãos índios, que é com certeza nosso maior conflito ideológico.
Por isso imaginar que a indenização resolverá nossos conflitos, é se enganar, se tornam medidas paliativas, apenas adiam o nosso sofrimento e se tornam decisões perigosas que poderão trazer conseqüências muito sérias e nos levando ao estopim deste grave problema.
Entendo que indenizar os produtores seja mais do que justo, porém estaremos resolvendo apenas os problemas dos mesmos e contribuindo para eclosão de conflitos ainda maiores no futuro, visto que as terras que passariam a serem ocupadas pelos indígenas dentro da sua ótica não seriam objetos de produção, ou seja teríamos sérios impactos econômicos negativos no município que levariam a conflitos sem precedentes, pois Mato Grosso do Sul é visto como referencial de produção e de vocação para o agronegócio e dentro destas condições sobre nossa ótica isso seria inadmissível .
Dentro de tantas situações de conflitos nos cabe mediar alternativas para de forma concreta dar início a construção de um entendimento, sendo necessário de que as partes se flexibilizem dentro do processo de negociação, pois deve-se estabelecer o diálogo,visto que permanecendo os conflitos todos nós deixaremos de evoluir.
Sabemos que as razões históricas que colocaram nossos povos neste longo conflito terão ainda muitos desafios a serem superados, todavia podemos contribuir para que nossas ações sejam de comprometimento na busca de soluções, evitando-se desta forma não se tornarem traumáticas para ambos os povos.
O nosso maior desafio é o de nos respeitarmos, de perceber que as diferenças são normais e que a convivência deve ser natural, que a sociedade oportunamente promovam os debates necessários, que as instituições de grande representatividade não se omitam para com esta discussão.
Destaco e defendo o grande papel da C.N.B.B., onde embora tentam fazer confusão com seus objetivos, fica evidente que é comprometida com as grandes temáticas sociais, se colocando como mediadora e demonstrando sua capacidade apaziguadora.
Que todos tenham bom senso diante desta delicada realidade para que a intolerância seja superada pela capacidade nobre de dialogar que todos nós possuímos.
* O autor é vereador, geógrafo, professor e presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal de Dourados.