A ideia apregoada por muitos de que o brasileiro é um povo pacífico caiu por terra mais uma vez como vem acontecendo desde o Brasil colônia. A multidão enfurecida está nas ruas do país cobrando mudanças. O que antes era pela diminuição do preço da tarifa do transporte coletivo urbano transformou numa extensa agenda de reivindicações que os líderes do movimento não sabem como encaminhar e os governantes não sabem como administrar o problema.
Esse movimento popular iniciado em São Paulo e que se espalhou pelo país como um rastilho de pólvora, deixa-nos algumas lições e interrogações. Veja senhor leitor que na atualidade não dá para subestimar o poder das redes sociais e, claro, ignorar o poder de um povo indignado. Milhões foram organizados do dia para a noite pela comunicação virtual e os manifestantes tocaram em feridas sociais que teimam há anos em cicatrizar por falta de vontade política e ações concretas dos governantes.
Era de se esperar que a qualquer hora os problemas viessem à tona, pois estão aí aflorados. Vivemos num país onde manter um aluno na escola pública custa menos do que manter um detento no presídio, sem falar que as penitenciárias são verdadeiras escolas do crime. A bandidagem está solta, criminoso do colarinho branco não vai para a cadeia, assassino tira a vida do cidadão trabalhador em troca de nada e quando condenado, dificilmente vai pra cadeia e quando vai nunca cumpre a pena na sua totalidade. Menor de idade, trafica, rouba, furta e mata e a pena máxima é três anos numa casa de recuperação, que não recupera ninguém.
O conhecimento aqui não tem sido tratado como prioridade, à educação básica pública é um caos; segurança pública nem se fala; saúde é um “deus nos acuda”; o transporte nas cidades dispensa comentários, foi o estopim das manifestações, tamanho as deficiências e abusos. Além disso, ainda tem a praga da corrupção impregnada em todos os segmentos governamentais. Diante de tudo isso, o governo prioriza copa do mundo de futebol e olimpíadas e torra o dinheiro público para satisfazer organizações e cartolas corruptos.
O movimento, até agora, deu uma lição no governo, colocando-o contra a parede e obrigando-o a baixar a tarifa do transporte coletivo urbano. Porém, esse mesmo movimento de luta e cidadania levou em sua rabeira, durante as manifestações, uma corja de malfeitores destruidores do patrimônio público e ladrões saqueadores de lojas particulares. Quem perde com o vandalismo é o próprio povo. O governante vai meter a mão no dinheiro dos contribuintes para consertar as obras destruídas e o empresário poderá diminuir empregos ou aumentar os preços para se safar dos prejuízos.
E os outros temas que aparecem nas manifestações, como serão tratados pelos líderes do movimento? A impunidade, a saúde, a educação, a segurança, a PEC37, dentre outros. Falando em PEC 37, esse projeto de emenda constitucional que tira o poder de investigação do Ministério Público apareceu nas faixas e cartazes país a fora, o presidente da Câmara dos Deputados percebeu que o povo é contra e agiu rápido retirando o projeto da pauta de votação. Por fim, até onde vai esse movimento que rejeita partidos políticos e não têm lideranças com respaldo e capacidade para negociar uma agenda complexa de reivindicações em nível nacional? E o governo até quando suportará assistir o povo enfurecido nas ruas sem apresentar propostas concretas para solucionar os problemas? O momento é bom para reflexão.
* O autor é professor da rede estadual de ensino de MS. E-mail: [email protected]