As manifestações dos últimos dias, especialmente a do dia 20 de junho, “ofuscaram” parâmetros anteriores, como Diretas Já e o Fora Collor, tanto na proporção, quanto pelas inúmeras pautas de reivindicações.
Multidões ocuparam as ruas e mudaram o eixo do debate no país, até então, pautado pela Economia. Vieram à tona, as políticas públicas, a insatisfação com a mobilidade urbana, com a qualidade de vida, com a ineficiência administrativa e com o abuso de poder. Um verdadeiro levante contra os modelos tradicionais de representação política, que já foi comparado aos manifestos da Primavera Árabe, Praça do Sol, na Espanha, e Occupy Wall Street, entre outros.
Um elemento comum entre todos esses protestos é a forma de mobilização: as redes sociais, um novo espaço próprio de organização e mobilização que não existia. Sem ter à frente partidos e sindicatos, essa auto-organização de massa é espontânea e difusa. Por isso, não se pode analisar este momento com as lentes do passado, mas com um olhar que combine esperança e ação. A força das ruas já sinalizou a necessidade de uma nova forma comportamental por parte do poder público.
Quero fazer algumas considerações sobre o tema mais palpitante do momento, a saúde, que como mostram as pesquisas de opinião pública, é a maior preocupação dos brasileiros.
Há uma sábia frase de Hipócrates, o pai da Medicina, que diz “A cura está ligada ao tempo e, às vezes, também às circunstâncias”. Então, chegou o tempo e a circunstância ideal para curar as chagas que assolam o Brasil – entre as quais, os investimentos insuficientes no setor da saúde, a desvalorização dos profissionais e a má gestão dos recursos públicos.
Uma das alternativas apresentadas pelo Governo Federal, para suprir a fixação de médicos no interior do Brasil, é a contratação de profissionais estrangeiros. Proposta rejeitada pelas entidades médicas, que defendem a aprovação imediata da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 454/2009, a qual cria a carreira médica nos serviços públicos federal, estadual e municipal, semelhante à de juízes e promotores. A medida evitaria a importação de médicos, sem a realização do Revalida (exame que mede o conhecimento dos profissionais que se graduaram em Medicina, em outros países e habilita-os a exercer a profissão no Brasil).
Todos sabemos que a vinda de médicos estrangeiros é apenas um paliativo. Não resolve o problema. Importar médicos requer, também, a ampliação dos recursos destinados à saúde. É preciso investir em infraestrutura e modernização do setor.
No entanto, diante da situação de absoluta falta de profissionais no interior do Brasil, não se pode refutar a contratação de médicos estrangeiros.
O Brasil é o segundo país em número de escolas médicas, perdendo, apenas, para a Índia. São 197 escolas de Medicina e uma média de 14 mil médicos formados a cada ano.
Para que esses novos profissionais optem pelo interior do país é preciso, além de investir na qualidade do ensino e na valorização dos médicos que dedicam seu tempo ao ensino da Medicina, ampliar a formação de generalistas, preparados para enfrentar a realidade do interior, pois atualmente nos deparamos com um modelo questionado em diversas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos, embasado nos altos custos, hospitalocêntrico, focado nas subespecialidades médicas e nas caras tecnologias. Precisamos de médicos bons, bem formados, comprometidos com o atendimento humanizado e um modelo de saúde menos comprometido com as indústrias de equipamentos médicos e medicamentos.
Enfim, problemas complexos exigem soluções elaboradas que os debates ajudam a construir em benefício de todos. E, no momento atual, este debate pertence a uma multidão que está abalando as velhas práticas e formas de poder.
* O autor é presidente da CASSEMS e médico cardiologista