A eleição do ex prefeito de Dourados, Ari Artuzi, morto vítima de câncer, no dia 23 de agosto último, constitui-se num fato atípico na história política do município. É um caso que no futuro deverá render bons estudos, especialmente após o momento que for facilitado o acesso aos documentos públicos que ainda tramitam nas varas judiciais, ou se encontram escondidos nos escaninhos da prefeitura. Agora pare, pense e reflita. Ari é diferente porque não veio de onde vieram os outros mandatários da cidade, porém as práticas políticas em nada diferem.
Sua carreira meteórica foi construída com apoio do povo do extrato social mais baixo, foi basicamente esse eleitor que o elegeu vereador, deputado estadual e prefeito da segunda maior cidade do estado. A elite endinheirada e a classe média que sempre mandaram na política local, indicando e elegendo o prefeito, perderam feio para o fenômeno Artuzi. Para se ter uma ideia os dois candidatos representantes desses setores, quando perceberam que ‘a vaca estava indo para o brejo’ tentaram uma união, porém o ego falou mais alto e o entendimento não prosperou. O resultado: sabemos de ‘cor e salteado’.
Eleito com apoio do povão, de alguns ‘gatos pingados’ da elite e da classe média que viam nele uma oportunidade de ganhar alguma coisa e de figurões da política estadual com domicílio em Campo Grande, Ari Artuzi protagonizou a maior catástrofe política da história de Dourados. Vale destacar que a grande maioria da elite política nunca levou Artuzi a sério. O desrespeito a pessoa dele era tanto que chegou a ser apelidado de ‘animal de pelo curto’ pelo governador de MS. Enquanto aprontava suas estripulias na prefeitura os políticos e instituições da cidade se calavam, aguardando seu tropeço final nas leis que regem o estado, o golpe final veio com a operação ‘Uragano’.
Artuzi foi um fenômeno eleitoral, mas não inovou em nada na forma de fazer política. Ganhou utilizando métodos arcaicos e clientelistas. Não tinha uma proposta consistente para cidade e era dominado por políticos da Capital. Aproveitou o vácuo que a administração do PT não conseguiu preencher nos oito anos de mandato e ganhou a prefeitura. Ficou menos de dois anos no cargo e renunciou o mandato, acusado de desvio de recursos públicos e outros crimes.
Bom, e o legado e o mérito do título do artigo? Morreu e passou para a história como corrupto que aprontou as mais incríveis bandalheiras com o bem público. Foi o único prefeito de Dourados preso e algemado pela polícia, assinou o pagamento da prefeitura de dentro de uma cela de uma cadeia de Campo Grande, processado por racismo e zombado por muitos pelos ‘chutes’ no vernáculo, renunciou o mandato dado pelo povo. Até agora não vi nada na mídia que lembre algo de bom construído e deixado por Artuzi. Passar para a história de forma positiva, realmente é muito difícil pelo fim trágico de sua administração.
Apesar de tudo Ari tem seus méritos. Afinal ele conquistou uma parcela considerável de eleitores durante o curto período de sua atividade político partidária. Mesmo não sendo culto, como exige setores sociais para os políticos, ele entrou no imaginário popular e convenceu o eleitorado de que era a verdadeira mudança. Outro fato importante a relatar é a construção do anel viário. Essa obra discutida, reivindicada e incluída nas campanhas eleitorais, especialmente a partir do primeiro mandato de Braz Melo, lá no final da década de 1980 e começo da década de 1990, só virou realidade com a luta e persistência de Ari, se não fosse a luta dele dificilmente teríamos hoje o tal anel, que desafogou sobremaneira o tráfego de veículos pesados no centro da cidade. Poucos se lembram e uns tantos fazem de tudo para que não seja lembrado.
Em tempo: devo esclarecer que nunca tive nada contra a pessoa de Ari Artuzi, porém fiz oposição a sua prática política e sempre as tornei pública. Agora, negar seu mérito, jamais.
* O autor é professor da rede estadual de ensino de MS. E-mail: [email protected]