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Opinião

ARTIGO - Getúlio Vargas, 60 anos depois: o governante brasileiro mais homenageado em Dourados

19 de agosto 2014 - 11h58 Por Ribeiro Arce
ARTIGO - Getúlio Vargas, 60 anos depois: o governante brasileiro mais homenageado em Dourados

GETULIO No mês de agosto de 2014, mais precisamente no dia 24, completa 60 anos da morte por suicídio do ex presidente brasileiro Getúlio Vargas, o que mais tempo ficou no cargo desde a implantação da República brasileira, em 1889. Na primeira vez que ocupou a presidência durante quinze anos consecutivos (1930/1945), não recebeu um único voto popular, na segunda vez foi eleito pelo voto direto do povo.

Getúlio foi um dos políticos mais astutos da República brasileira, aproveitou o momento oportuno, daqueles cravados no ditado popular “se o cavalo passar encilhado, monte-o”. Chegou ao poder, em 1930, num golpe de estado, apesar de muitos estudiosos classificarem como revolução. No governo trabalhou o poder político com maestria, rígido com os opositores em determinados momentos, porém era um exímio negociador, co-optava políticos, empresários e trabalhadores. Tinha clareza das transformações mundiais e se “considerava” o mentor das mudanças sociais e econômicas no Brasil. Utilizava a mídia como poucos, em benefício político pessoal ao ponto de ser batizado de “pai dos pobres” e “pai de todos”.

Enquanto interessou, tolerou o nazifascismo ítalo-germânico e o socialismo soviético. Mostrou sua queda pelo fascismo ao dar um golpe de estado e implantar a ditadura do Estado Novo, em 1937, enterrando a Constituição democrática de 1934 e adotando uma Constituição polaca, também conhecida como “prostituta” e de cunho fascista. Em determinado momento navegou com um pé no barco alemão e o outro na canoa dos Estados Unidos. Porém, no momento certo colocou os pés e o corpo todo numa única embarcação, garantindo sua sobrevivência política, foi na hora de decidir pela construção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), foi o governo norte americano que arrumou o dinheiro para a construção da empresa. Como classificar um político com as atitudes de Vargas, ambíguo ou oportunista?

Ao longo do tempo, após sua morte, o nome de Getúlio foi construído de maneira positiva por políticos interessados em colocar a imagem do ex-presidente de maneira sólida no imaginário popular. A justificativa são as ações de seu governo, como as leis trabalhistas e empresas públicas criadas no governo dele como a Petrobrás, CSN e Vale do Rio Doce, dentre outras. O município de Dourados é um bom exemplo da expressiva reverência. Getúlio Vargas é o governante brasileiro que melhor tem solidificado seu nome no imaginário popular, a figura dele aparece direta ou indiretamente em vários pontos do município, reforçando o carisma e as boas obras deixadas, por que as ruins, quem as homenageou sempre fez questão de apagá-las, ou não mencioná-las.

O nome de Vargas ganhou solidez na cidade, após a criação da CAND (Colônia Agrícola Nacional de Dourados) no inicio da década de 1940. Esse projeto de reforma agrária distribuiu milhares de hectares de terra na região e alavancou o crescimento da cidade de Dourados, além de favorecer o surgimento de inúmeros núcleos urbanos, muitos deles municípios emancipados na atualidade. Getúlio era considerado um verdadeiro herói pelos colonos, tanto é que antes da implantação da ditadura militar em 1964, a colônia é que decidia a eleição no município, sempre a favor dos candidatos do PTB e PSD, partidos criados por Vargas, no apagar das luzes do seu primeiro governo, em 1945, quando o velho caudilho ainda sonhava em continuar governando o país, e desta vez, participando da eleição como candidato.

O sucesso da CAND elevou o nome de Vargas em Dourados. Direta ou indiretamente seu nome está fincado no município. Quando olhamos a estátua do colono na Praça Antônio João, associamos aquela imagem do roceiro com seu machado desbravador da Colônia Nacional, representando os milhares de famílias das mais longínquas regiões do país que para cá vieram em busca de melhores condições de vida, graças à reforma agrária de Vargas.

Vale ressaltar que por trás da homenagem há os mais diversos interesses que vão do pessoal ao institucional, leva vantagem o homenageado e também quem promove a homenagem. No caso do colono anônimo da Praça Antônio João, representando as famílias de colonos que para cá vieram por causa da CAND, que foi viabilizada graças à “visão” do Getúlio Vargas. Interessante lembrar que o idealizador da restauração da estátua fez questão de gravar seu nome na placa que explica a razão de tal obra. De certa forma deixou seu nome exposto aos olhos de milhares de pessoas que transitam semanalmente pelo local.

Homenagear Getúlio Vargas caiu no gosto de vários governantes locais, o ex prefeito Braz Melo, que governou o município por duas vezes, construiu dois monumentos que reverenciam Vargas. O Monumento ao Colono, obra tirada da prancheta do arquiteto Luiz Carlos Ribeiro, seu mentor intelectual, reverencia o desenvolvimento regional proporcionado a partir da CAND. A outra homenagem é direta, edificou a estátua de Vargas na área central da cidade. Esse governante, enquanto prefeito, não pertencia a nenhum dos partidos políticos trabalhistas que reverenciam Vargas (PTB e PDT), mas teve ao seu lado como auxiliar direto vários trabalhistas, como Harrison de Figueiredo – um getulista convicto.

O ex-prefeito Humberto Teixeira, político que passou por várias legendas, inclusive do PDT, também homenageou indiretamente Getúlio Vargas, construindo o Marco da CAND, entre os núcleos urbanos dos distritos da Vila São Pedro e Indápolis, local simbólico do inicio da colônia, onde já se mencionou, por várias vezes, até a construção de um museu no local. Getúlio Vargas é muito bem homenageado, perto dali está vila Vargas, um importante distrito de Dourados por onde passam diariamente milhares de pessoas que trafegam pela rodovia BR 163. No núcleo urbano do distrito se encontra a escola estadual Getúlio Vargas, onde estudam as crianças e jovens da região.

Os políticos daqui foram generosos com Getúlio na área educacional, nominaram logo duas escolas com o seu nome, além daquela da Vila Vargas, homenagearam o ex presidente com a instituição pública estadual mais tradicional de Dourados – a escola Presidente Vargas, no centro da cidade. Hoje é comum encontrar pessoas que batem no peito na hora de informar onde estudou. “Estudei na escola Presidente Vargas”, dizem com orgulho.

Getúlio também ganhou uma das mais importantes vias públicas de Dourados - a Avenida Presidente Vargas. Corta boa parte da cidade no sentido sul/norte passando pela área central em direção a cidade de Itaporã. Essa via começa na tradicional feira livre na Rua Cuiabá, naquele local, nos finais de semana a via está sempre lotada dos apreciadores de sobá, do pastelzinho feito na hora, da boa garapa de cana-de-açúcar, dentre outras delícias vendidas ali para quem visita a feira. É uma via de grande visibilidade, pois abriga importantes empreendimentos empresariais e órgãos públicos, por ela passam diariamente milhares de transeuntes.

O ex presidente Getúlio Vargas está com seu nome gravado na memória do douradense, porém vale lembrar que não é tão fácil assim emplacar um nome em logradouro público aqui na cidade. “Batizar” um bem público, muitas vezes, é uma verdadeira disputa política entre segmentos sociais interessados na homenagem.

Vou aqui lembrar dois exemplos recentes. O primeiro trata-se da escola estadual Celso Müller do Amaral, concluída no governo do Zeca do PT. O grupo que governava a cidade defendia que a escola se chamasse Dorcelina Folador, ex-prefeita de Mundo Novo, assassinada em 1999. Segmentos sociais da elite local e setores da imprensa eram contra e defendia o nome do professor Celso Müller do Amaral, homem de família influente na cidade. Na Assembleia Legislativa chegou apenas o nome de Celso que foi aprovado por unanimidade pelos deputados.

A outra disputa aconteceu no momento de nominar o Centro de Educação Infantil do bairro Jardim Colibri. O grupo da prefeitura defendia o nome do renomado educador Paulo Freire. Outra vez grupos se articularam contra, o argumento deles era forte, a administração municipal deveria homenagear um professor da cidade. Pesou o bairrismo e a Câmara de Vereadores, após muito debate, acabou por aprovar o nome do professor Bertilo Binsfeld para o referido CEIM. Sempre por trás da nomeação de um bem público tem interesses políticos de grupos locais, dificilmente a família de um cidadão oriundo da classe pobre consegue emplacar seu nome num logradouro público após sua morte. Esses problemas os defensores das homenagens a Getúlio Vargas não enfrentaram.

*O autor é professor da rede estadual de ensino de MS. E-mail: [email protected]