O sonho de todo político é o poder e quanto mais alto o cargo, obviamente melhor. Todos sonham! Qual vereador não sonha dar um passo a frente e chegar à assembleia ou à prefeitura e assim por diante. Aliás, administrar a cidade onde mora é gratificante para todo político. Porém, chegar até lá é um feito reservado para pouquíssimos. Vejamos um exemplo, a cidade de Dourados, segunda maior do estado de MS, com duzentos mil habitantes, uma quantidade diminuta terá o privilégio de ocupar a cadeira de prefeito. Logo, a grande maioria dos cidadãos nunca ocupará o cobiçado cargo.
Conquistar o honroso cargo de prefeito de Dourados, para muitos é chegar ao comando do casarão, uma alusão a sede do poder executivo municipal. Antes chamado de casarão da João Rosa Góes, porque a sede da prefeitura ficava localizada na rua João Rosa Góes, esquina com a Joaquim Teixeira Alves, bem no centro da cidade. Hoje é o casarão da Coronel Ponciano, nome da via para onde foi transferida a sede da prefeitura. Desde a emancipação político administrativa da cidade, em 1935, há 80 anos, por lá já passaram 21 prefeitos.
Além de ser dificílimo chegar ao posto de prefeito de Dourados, dificílimo também tem sido manter-se no auge político após a saída do cargo. Analisando o quadro dos ex prefeitos, percebe-se que poucos conseguiram mais de um mandato. Outros deixaram a prefeitura e nem disputaram mais cargos eletivos. Verifica-se que a sorte eleitoral não tem ficado do lado dos ex prefeitos por muito tempo depois que deixam a chefia do executivo municipal. Até parece uma “maldição do casarão”.
Entre os privilegiados por ter governado o município por duas vezes está João Totó Câmara, que também exerceu o cargo de deputado federal. Após sua segunda passagem pela prefeitura (1973/1977), não teve mais a “sorte” grande da eleição, ainda tentou o Senado Federal e o cargo de vice prefeito sem sucesso. A sorte eleitoral também não acompanhou o radialista Jorge Antonio Salomão que administrou a cidade de 1970 a 1973. O decano do rádio douradense ainda tentou chegar até o Congresso Nacional, candidatando-se à deputado federal, mas o eleitorado não lhe confiou o mandato, obrigando-o a continuar atrás do microfone, divulgando notícias, entrevistando autoridades e disparando seguidamente seu jargão predileto, “ta valendo”.
Outro prefeito popular e “famoso” pelas obras construídas foi Braz Melo que governou a cidade por dois mandatos. O homem já foi tido como “imbatível”. Eleito pela primeira vez numa eleição polêmica, protagonizada por uma urna pra lá de duvidosa da escola Tancredo Neves, Braz venceu apertadamente por uma diferença de apenas 40 votos. Foi eleito vice governador e outra vez prefeito de Dourados (1997/2000). Depois do segundo mandato a “maldição do casarão” parece ter acometido o homem que teve um apagão político, anda tentou se eleger deputado estadual, sem sucesso.
Outro “amaldiçoado pelo casarão” é o José Elias Moreira. Político “forte” nas décadas de 1970/1980, Zé Elias governou Dourados de 1977 a 1982 e ainda foi eleito deputado federal por dois mandatos. Mas quando tentou voltar para o “casarão”, por duas tentativas não obteve êxito, foi derrotado pelo desafeto Braz Melo, ainda disputou a Assembleia Legislativa e também não se elegeu. Humberto Teixeira, prefeito de 1993 a 1996, é outro que passou pelo “casarão mal-assombrado” e contraiu a maldição eleitoral, o máximo que conseguiu foi uma suplência na Assembleia Legislativa, perdeu o apoio das urnas e ultimamente nem é mais lembrado nas eleições.
Como se vê, o “casarão” não tem poupado seus “inquilinos”. Laerte Tetila passou por lá por dois mandatos, entre 2001 e 2008, saiu do governo comemorando índices de aprovação de mais de 80%, mas nas eleições de outubro passado não conseguiu a reeleição para deputado estadual. Ari Artuzi, eleito em 2008, nem conseguiu concluir seu mandato, renunciou o cargo após denúncias de corrupção e ainda ficou inelegível por oito anos.
Para quem está ocupando o casarão ou para aqueles que por ventura venham a ocupá-lo em um futuro próximo, fique a lição. Agora, para quem acredita em assombração e sonha em administrar a cidade e continuar a carreira, galgando outros cargos eletivos, o melhor é se precaver dos fantasmas do “casarão”. Dizem por aí que a melhor prevenção contra os “males do casarão” atende pelos nomes de honestidade, respeito para com o cidadão, consultar e respeitar as opiniões da população e cuidar como uma jóia e investir com seriedade cada centavo do dinheiro público.
*O autor professor da rede estadual de ensino de MS. E-mail: [email protected]