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Opinião

ARTIGO: Engana-me, eu gosto!

13 de dezembro 2014 - 10h18 Por José Alberto Vasconcellos
ARTIGO: Engana-me, eu gosto!

No Brasil é tradição a prática de um ato, que se tornou com o tempo um costume recorrente. Embora deprimente para a moral, os bons costumes e a idoneidade, é aceito passivamente. Quando se materializa, tem o sugestivo nome de “me engana, que eu gosto!” Inteirada da pouca-vergonha, a sociedade faz do ceticismo uma apologia às avessas à Democracia e, emocionada, grita: “me engana, que eu gosto!” como um chamado para uma “Missa Negra”. Sorrisos sarcásticos e nervosos, provocados pela hipocrisia que se materializa num escroque, invariavelmente seguro, de que nenhuma ou quase nenhuma conseqüência corretiva, poderá alcançá-lo!

                        O homem forte do “Baú da Felicidade”, Silvio Santos, depondo como testemunha na Justiça, à primeira pergunta relacionada à quebra do Banco Sul Americano do seu grupo, respondeu que “não se lembrava”. (Veja)

                        A mesma Justiça, refazendo algumas perguntas ao Nestor Cerveró, homem forte da Petrobrás,  agora no elenco artístico do “Petrolão”, matreiro, para fugir da incontornável contradição, respondeu apenas: “Ratifico minhas declarações anteriores”.

                        O primeiro, o Sílvio Santos, não levou em conta que quem fala a verdade

nunca se esquece do que disse! O segundo, o Nestor, sempre soube que quem mente, nunca está livre de contradizer-se.

                        Ocorreram, no caso de Silvio Santos e Nestor Cerveró, dois casos típicos, legítimos e incontestáveis da expressão catalogada e já consagrada pela tradição brasileira, a imortal “me engana, que eu gosto!” Sempre iniciada com o pronome pessoal “me”, para melhor ilustrar a pouca-vergonha e a miséria da nossa gramática.

                        E no fumegar do cachimbo, notamos que nos depoimentos da delação premiada do Paulo Roberto Costa – a primeira e a mais festejada! –  para que pudéssemos acompanhar o calendário do delator, talvez por sugestão da própria Polícia federal, que faz um bom trabalho nessa operação “Lava jato”, Paulinho (como era chamado por Lula), inaugurou a ribalta desprovido de bigode, quando delatou um ajuntamento de ladrões na Petrobrás; depois, com bigode, voltou à ribalta para delatar outra chusma de escroques; finalmente, com barba e bigode, diante das TV´s e de todos os holofotes do mundo, delatou mais uma caterva de meliantes. 

                        Esses grupos denominados “ajuntamento”, “chusma” e “caterva”, denunciados sem bigode, com bigode e, finalmente, com barba e bigode, formaram um bloco sólido, com um só objetivo: somar esforços com os funcionários da empresa, para “comer” o fundo dos acionistas e o patrimônio da Empresa de Economia Mista, controlada pelo governo federal, sócio majoritário. E o governo não sabia de nada! Com licença: “me engana que eu gosto!”

                        Enquanto a seriema procura o parceiro para entoar seu canto, lembremos que essa história que relaciona a Petrobras com o PT e outras potências políticas, que juntas arrancaram e partilharam o butim da empresa e com ele até a bengala do ascensorista do elevador, só tem paralelo, na língua lusitana, com a estória do português que diante do gênio foi autorizado a fazer três pedidos: no primeiro, pediu bacalhau; no segundo, mais bacalhau; e no terceiro, um “reforço” no bacalhau!...

                        Na Petrobrás, primeiro, assumiram a empresa para “ganhar” propinas; na segunda, pediram mais propinas; e na terceira, um reforço nas propinas. O bacalhau do português foi para a panela. O butim arrancado da Petrobrás, depositado em bancos estrangeiros. Depois, mentiram, negaram e alegaram problemas cardíacos. Fizeram caretas, quando a Polícia Federal fê-los dormir no chão da jaula, dividir quentinhas e privar-se de cotonetes.  Não se tem notícia de que tenham recebido sabonetes.

                        Depois de espantar a cabrita da horta, posso dizer que a pouca-vergonha revogou a Lei da Responsabilidade Fiscal, e a obrigatoriedade da manutenção do “Superavit primário”, reserva que é feita para pagar os juros da dívida pública.  Quem esperava solução diferente por parte do Congresso Nacional, é porque acredita em Papai Noel! Descontadas as choramingas da “presidenta” e os “argumentos” de deputados e senadores “sabidos”, conclui-se, sem esforços, que neste acontecimento cabe um grito com gáudio: “me engana, que eu gosto!”

                        Como diz um comentarista da TV Gazeta: “É assim que o mundo gira e é assim que as coisas acontecem!”

                        Enquanto minha condução não passa...

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras. [email protected]