Espera-se uma solução urgente nesta questão que se arrasta há muito tempo
promovendo desequilíbrio enorme na comunidade também negra do distrito
Dá a impressão que falar sobre esse assunto é mexer e se envolver com um vespeiro. Entre outras, está aqui uma das razões que me motivaram dispender elogios, nesta oportunidade, e parabenizar a entrevista produzida pela repórter Thalyta Andrade (Diário MS/DouradosNews) a respeito do imbróglio que se arrasta há anos, envolvendo parte da Picadinha, Distrito de Dourados, localizado a 18 quilômetros, sentido Leste/Oeste ou Centro/Itahum.
O texto bem concatenado discorre sobre questões de interesse de famílias residentes na localidade, descendentes de Dezidério Felipe de Oliveira, negro que veio ao então Mato Grosso, no início do século passado, via Nioaque e Maracaju.
Na entrevista, o professor Mário Teixeira de Sá Junior, chefe do Neob – Núcleo de Estudo Afro-brasileiros da UFGD – Universidade Federal da Grande Dourados, discorre com propriedade sobre questões históricas, reais e jurídicas sobre uma determinada propriedade com aproximadamente 1.6 mil (mil e seiscentos hectares).
Uma coisa é o achismo natural que permeia o imaginário popular, outra é se ater a fatos verídicos, históricos e não ‘istóricos’ como se apregoam aos quatro ventos.
Falar no assunto desperta revolta, intrigas, xingamentos, até vias de fato, principalmente, por quem desconhece o fundamento de tudo. A Picadinha atualmente é povoada por centenas de famílias. Desde que era criança ouvia meu pai, tios e conhecidos antigos comentarem sobre a legalidade e sobre a posse da terra dentro de uma faixa pertencente aos seus e meus ancestrais. No afã de recuperar o que havia, em tese perdido, muitos foram engolidos por falácias e promessas, praticadas por bagres ensaboados como se diz na gíria popular.
Tenho bom relacionamento com a comunidade da Picadinha, sejam chacareiros, sitiantes, fazendeiros, dentre outros. Vejo que ocorre uma disparidade tremenda quando se diz respeito a agressão praticada, principalmente por quem se acha no direito de entrar em seara que muitas vezes não lhe diz respeito.
Sempre existirá, para o bom entendimento entre as partes interessadas, o desejo primeiro de conhecer a verdade dos fatos, antes de sair falando o que não sabe e o que não lhe diz devido respeito. Numa situação como esta, o que mais vale e também o que se espera, é o conhecimento e a razão. Normalmente, como o coração, biblicamente falando, é enganoso, não é de bom alvitre colocá-lo como bom juiz.
Dizer de maneira bisonhamente racista que pobre e preto não ensejam consideração, como outras raças, não é um correto pensar, muito menos em nosso País onde a miscigenação é um dos principais componentes de nossa etnia.
Deixar que o tempo passe sem ao menos ter uma resolução que apazigue ânimos exaltados e conceda o direito de posse definitiva e inquestionável sobre as terras a quem pertence, é no mínimo insuflar conflitos e desejar que a situação se prolongue por mais tempo, fragilizando cada vez mais os que de fato são legítimos donos das terras que um dia pertenceram a seus familiares.
Popularmente alguém comenta que a situação das terras da Picadinha corre o mesmo risco de cair no abandono e se tornar apenas matagal, como aconteceu recentemente no distrito de Panambi. Uma coisa nada tem a ver com outra. Entendo e respeito opiniões, mas o contraditório também faz parte do bojo do entendimento. Li, ouvi e acompanhei discussões acirradas sobre a Picadinha, cada um aplicando seu posicionamento e em muitos casos, com raríssimas exceções, havia concordância que viesse ser favorável aos “negros”. Como vivemos num sistema capitalista por excelência, os incautos de pronto ficavam do lado de quem detém, em tese, uma gorda conta bancáaria. Ora, fica cômodo atacar aqueles cuja responsabilidade não temos. A verdade nunca falha, nunca tarda.
Não vem ao caso apontar culpados, o que se espera é que a verdade venha a lume, enquanto um lado delineia que o ataque é a melhor defesa, os de fato herdeiros do trono ficam na espreita com as mãos grudadas no trono da justiça. Não é fácil conviver com decepções, o bom senso indica moderação. Portanto, ao invés de atacar apenas um lado, se posicione de maneira sensata, e acima de tudo equilibrada, seja qual for o resultado que virá.
Respeito todas as posições apresentadas até aqui envolvendo a comunidade do distrito, porém não concordo com muitos pontos principalmente na falta de respeito do sistema para com à comunidade negra, são cidadãos (ãs) de entendimento de caráter e sangue vermelho nas veias, portanto, o único dono de tudo é Deus.
Justiça, já!
* O autor é Jornalista - [email protected]