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Opinião

ARTIGO: “Ghost Writer” – O fabricante de histórias

11 de janeiro 2015 - 13h03 Por José Alberto Vasconcellos
ARTIGO: “Ghost Writer” – O fabricante de histórias

              “Ghost writer” (escritor fantasma), é a designação que se dá a uma pessoa, que ouvindo o relato de outrem, escreve um livro. Pronta a obra literária, nela consta como autor quem a ditou.

              Assim é o livro “Il Milione”, cuja autoria atribui-se a Marco Pólo que, na realidade, registra mais do que o próprio “ouviu falar” do que realmente testemunhou. (Veja, pág. 119, ed. 03.12.14).

             Outro autor famoso é Adolf Hitler (1889-1945). Quando na cadeia, depois de tentar, em 1923, o “golpe da cervejaria” em Munique, cumpriu um tempo na jaula (1923-1924). Durante o encarceramento, ditou o livro publicado em 1925, com o título de “Mein Kampf”, onde expunha os princípios do nazismo; o culto da força; o anti-semitismo; e a superioridade da raça ariana pura, que precisava (segundo afirmava o autor) de um “espaço vital” para se desenvolver.

            Esse livro, cujo autor era carinhosamente chamado de “Führer” (aquele que conduz o povo), foi considerado na época a “bíblia” dos alemães e mais lido que a própria Bíblia. O conteúdo do livro empolgou, orientou e preparou os saxões, agora etiquetados como raça pura ariana, para a II Grande Guerra (1939-1945).  Veja trechos do livro que o “Führer” ditou para o escriba na prisão:

          “O arado, nesse momento será a espada, e, regado com as lágrimas da guerra, o pão de cada dia será assegurado à posteridade”(pág. 16). Noutro ponto: “Infelizmente, as coisas não se modificaram posteriormente, de modo que do judeu só receberam o pago mil vezes merecido pelos pecados cometidos contra seu povo. Aliaram-se com o demônio, e foram parar onde ele está!” (pág.201). Ainda: “O Partido Nacional Socialista não deve ser um esbirro da opinião pública mas senhor da mesma”(pág.290).

                    POSFÁCIO do livro “Mein Kampf” (Minha luta), obra literária que empurrou a Nação alemã, com a pompa de raça ariana pura, para a II Grande Guerra, verbis:

A 9 de novembro de 1923, no quarto ano de sua existência, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (National Sozialistische Deutsche Arbeiterpartei) foi dissolvido e proibido em todo Reich. Hoje, em novembro de 1926, ele de novo é livre no Reich inteiro, mais forte e intimamente mais sólido do que nunca. – Todas as perseguições ao movimento e aos seus dirigentes, todas as injúrias e difamações nada conseguiram contra ele. O acerto de suas idéias, a pureza da sua vontade, o espírito de sacrifício de seus adeptos, até hoje fizeram com que ele saísse de todas as opressões mais prestigiado do que nunca. – Se no mundo de nossa atual corrupção parlamentar cada vez mais ele se compenetra da essência de sua luta e se sente como corporificação do valor da raça e do indivíduo e se dirige de acordo com esses princípios, com certeza quase matemática, ele sairá ainda vitorioso na luta da mesma maneira que a Alemanha necessariamente tem de recuperar a posição que lhe compete nesse mundo, desde que seja dirigida e organizada pelos mesmos ideais. – Um Estado que, na época do envenenamento das raças, tem de um dia se tornar senhor do mundo. – Que os adeptos de nosso movimento não se esqueçam nunca disso, mesmo que, pela enormidade do sacrifício, possam vir a recear da possibilidade do sucesso.(sic).

            Não fosse um “Ghost Writer” ter escrito o que o ditador nazista ditou-lhe na cadeia, seguramente os alemães que ainda sofriam as privações que lhes foram impostas pela I Grande Guerra (1914-1918), não teriam partido para uma nova aventura bélica, que os massacrou; e aos judeus, custou seis milhões de vidas!

          Conclusivo que se o “Ghost Writer” produz histórias, também produz, com seu trabalho, verdades e mentiras; coisas bonitas e coisas abomináveis; algumas sem conseqüência: inodoras e divertidas; outras com cheiro de diesel e o fedor dos cadáveres insepultos – o ar que se respira nas guerras! Essa a diferença entre “Il Milione” e “Mein kampf”

          O livro de Marco Pólo (1254-1324) “Il Milione” teve, mais de 140 versões manuscritas, sobre os 24.000 quilômetros que ele teria percorrido no remoto Oriente, e que em cada conto, seguramente, aumentou-se um ponto. (Veja, ed. 03.12.14). No seu livro “Mein kampf”, Hitler disse o que pretendia fazer, debaixo do queixo dos representantes das demais nações do Mundo, e fez!

           Histórias e estórias! Cada história que você ouve, procure entendê-la em consonância com o caráter de quem as conta ou as escreveu e por que a escreveu, assim você entende o recado e pode evitar surpresas!

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras. ([email protected])