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Opinião

ARTIGO: Je Suis Francesco!

23 de janeiro 2015 - 19h49 Por Eudélio Almeida de Mendonça
ARTIGO: Je Suis Francesco!

eudelio Quando eu era menino lá em Mirante do Paranapanema, quase todo dia presenciava uma arenga entre a molecada. A população preponderante da cidade era nordestina (principalmente cearenses, pernambucanos, alagoanos e sergipanos). Gente do “sangue quente”, como se costuma dizer. Mesmo os moleques, os que não eram nordestinos P.O eram 7/8, assim, por nada, já começava uma discussão. Mas havia um código implícito, a coisa, invariavelmente, só evoluía para as “vias de fato” quando um dos contendores ofendia a genitora do ex adverso. Se ficassem somente no bate boca e nenhum desse “o começo”, ou “lembrasse” da santa mãezinha do outro, era sinal de que não queriam brigar. Das coisas que nos passavam nas aulas de religião e que a gente só concordava para tirar nota, uma era o ensinamento de Cristo de que “se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39). Na prática o pessoal não seguia. É difícil o sentido disso para um adulto que dirá para moleque nordestino briguento. Porém, a “briga de moleque” mais famosa da cidade aconteceu pelos idos de 1965/66 e não foi protagonizada por nordestinos. Deu-se entre um paulista e um nissei.

Há que se registrar também que, pelo menos, vinte por cento da população local era formada pela colonia japonesa. O Kurata era um “japonesinho invocado”, também se irritava facilmente. O Tininho, um paulista brincalhão e gozador. Os dois se desentenderam enquanto brincavam no pátio da igreja. Dizem que os ânimos já estavam serenados, mas o Tininho queria briga: chamou o Kurata de ‘bakayarou’.  Os dois rolaram pelo chão e o Kurata fez uso de uma arma branca que portava. O boato de que ele tinha desferido onze facadas no Tininho se espalhou pela cidade feito fogo em palha. Depois ficamos sabendo que as “onze facadas” na verdade eram onze “riscos” nas costas do Tininho provocados com um pequeno canivete. Os ferimentos foram tratados com todo carinho pela dona Luiza só com merthiolate que, à época, já vinha com aquela pazinha para facilitar a aplicação.

Eu me lembrei dessas coisas de Mirante do Paranapanema em razão do Papa Francisco. Do mundo inteiro ecoaram vozes condenado o brutal ataque dos terroristas extremistas islâmicos ao jornal satírico Charlie Hebdo no dia 7 de janeiro de 2015,em Paris. Todosnós sabemos que a França é o país com maior liberdade de imprensa que existe. E o Charlie Hebdo faz sátiras de católicos, muçulmanos, judeus, hindus, evangélicos, cristãos, budistas, do Papa, de Maomé, de Moisés, políticos, reis, rainhas, artistas, enfim, não escapa ninguém. O Papa Francisco, autoridade religiosa que merece todo o nosso respeito e admiração, também se pronunciou. Ele condenou o ato terrorista, o que chamou de aberração, mas fez uma observação de que a liberdade de expressão há que respeitar e não insultar a fé dos outros. Eu poderia aqui fazer um comentário sobre isso, mas o “gancho” é outro. A lei de talião (que a gente conhece simbolizada pela expressão “olho por olho, dente por dente), já existia nos primórdios, antes da Bíblia e antes mesmo do rei Hamurabi. Seus preceitos estão no Código Hamurabi, no Velho Testamento da Bíblia e com muita ênfase no Alcorão.

Devo lembrar que talião não é uma pessoa ou um lugar, ou seja, não é um nome próprio, é uma palavra que vem do latim (talionis) que significa: “como tal”, “semelhante”, “da mesma forma”. Moisés escreveu: “Mas, se houver outros danos, urge dar vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida” (Êx 21, 23-25). Ainda nos outros livros bíblicos do pentateuco, como o Levítico  (Lv 24, 10-23) e o Deuteronômio (Dt 19,21), Moíses repete os preceitos taliônicos, com leis inimagináveis para o tempo hodierno. Cristo viu que a lei de talião defendida por Moisés não era boa – que era um exagero, e impôs a ab rogação para algo mais racional. O certo, ao meu sentir, é que ninguém merece ser assassinado em razão de charges, por mais que sejam consideradas blasfemas.

O detalhe que me chamou a atenção e que eu achei interessante é que, no contexto do atentado ao jornal francês, o Papa declarou ainda que se alguém xingar a sua mãe leva um soco. Olha só que beleza. Francisco é o representante de Deus, mas não é Deus. Que outro Papa diria uma maravilha mais humana? Muita gente não achou graça, por outro lado “os moleques” de Mirante vibraram. Tem até um dizendo “Je Suis Francisco”. Deus vai perdoar, os moleques e o Papa. Ademais, ofender a mãe é mesmo chamar pra briga. Francisco não é Moisés. Não é Jesus Cristo, mas segue agradando. Eu gosto dele.

*O autor é advogado em Dourados – MS