Buscar quarta-feira, 2 de setembro de 2026
(67) 99913-8196
Dourados
15°C
Opinião

ARTIGO: A história por trás do 'meu charm'

29 de janeiro 2015 - 19h59 Por Eudélio Almeida de Mendonça
ARTIGO: A história por trás do 'meu charm'

Quando eu escrevi o prólogo de “Porta Aberta” (A minha História de Amor), chamou a atenção de alguns amigos a  fotografia onde eu apareço com um cigarro na boca. Fui criticado. Mas cearense não deixa crítica sem rebate e, advogado, réplica sem tréplica.  

Há que se situar no tempo. Aquela foto é do longínquo 1978. Eu sou dessa nossa geração  onde fumar era normal, ou mais, a gente era induzido a fumar pela propaganda na tv. O homem bonito, ficava ainda mais bonito se usufruisse do prazer  de fumar. Até Roberto Carlos cedeu “O Portão” para o belo videoclipe da Souza Cruz. Aventura é “o mundo de marlboro”. Sabor de ação é “continental preferência nacional”. “Eu gosto de levar  vantagem em tudo, certo?”. Eis  a gênesis da  lei do Gerson.

  Mas, “o importante é ter charm”.

 Nós somos da geração pós-guerra. Nós somos da geração onde tudo aconteceu com o extraordinário avanço das ciências. Somos a vanguarda do mundo. A nossa geração cantou La Bamba, curtiu Nat King Kole, dançou com Elvis Presley, vibrou com Rita Pavone. Amou os Beatles e os Rolling Stones. Riu e se emocionou com Charlie Chaplin, Cantinflas, Charton Heston, Al Pacino, Amácio Mazzaropi, Alain Delon, Sidney Poitier ou John Travolta.

Nós vimos Martin Luther King, John Kennedy e John Lennon serem assassinados. Vimos, sem entender, o que aconteceu com Ayrton Senna, Bruce Lee, Sharon Tate, Princesa Diana, Kurt Cobain, Michael Jackson , Os Mamonas Assassinas e Elis Regina.

 Sentimos o frio da “guerra fria”, assistimos à queda do muro de Berlim e o advento da Perestroika de Gorbarchev.

Repugnamos os atos extremos quando sentimos tremer o chão de Manhattan no 11 de setembro ou quando desfaleceram “as ovelhas” de Jim Jones em algum ponto da Guiana.

Fomos hóspedes de dois séculos, vinte e vinte e um.  Já vimos sete papas e presenciamos a passagem do cometa Halley. Acompanhamos Neil Armstrong com seu “pequeno passo” passeando  na lua.

Nós usamos cabelos longos, camisa xadrez com gola de sete centímetros, calça apertadíssima; sapato com plataforma e salto alto. Usamos também calça “saint tropez”; pantalona  ou “arranca touco”.

Vimos o Brasil ganhar todas as suas cinco copas do mundo. Testemunhamos a angústia de Andrada no Maracanã diante do Rei Pelé.

Somos os últimos representantes da última geração romântica da terra. Nós somos da geração Paz e Amor, batizada na lama de Woodstock.

Somos do tempo da brilhantina. “Jeca Total”.

 “Não me leve a mal, vou beijar-te agora, hoje é carnaval”. Somos, sim, os palhaços do Zé Keti e a última prova das lágrimas do Arlequim.

Somos Heidegger “passado, futuro e presente”. “Os amores na mente, as flores no chão, a certeza na frente, a história na mão”.

Somos “os filhos de Boby Dylan, clientes da coca cola”.

“Linda McCartney, quero o seu amor”.

Nós tomamos homéricos porres de cuba libre, hi-fi, chuvisco e ponche. A nossa geração bebeu e fumou “paca”. Mais que todas. E também viajou na “BR 3”  com Tony Tornado ou na “amanita matutina” de Zé Ramalho da Paraíba. Não. Nenhum de nós era para ainda estar por aqui, mas nós somos “justamente o significado da palavra temporão”. Continuamos bem lúcidos e vamos ficar mais do que todo mundo.

Nós somos da geração do “impossível”.

Assim, que não se cause estranheza, meus amigos, em 1978, o “charm” da minha boca. Mormente se apagado.

Ademais, a nossa geração foi o “avesso do avesso do avesso do avesso”.

“E, para aquele que provar que eu to mentindo eu tiro o meu chapéu”.

* O autor é advogado em Dourados,MS