Começou o Conselho de Desenvolvimento Estratégico do Futebol Brasileiro. O nome é pomposo e o projeto faz parte da repetitiva promessa da nova diretoria de “abrir a CBF”. Mas a formação dessa primeira reunião só mantém a impressão de que a seleção brasileira continua sendo tratada como uma comunidade fechada da qual só podem participar aqueles que um dia já tiveram o sagrado privilégio de representarem a “Amarelinha”, como gosta de dizer o velho Lobo Zagallo, membro do “comitê”.
Desde o fim da Copa do Mundo, do eterno 7x1, todas as soluções apresentadas foram “ex-alguma-coisa”. Dunga voltou ao cargo que ocupou – e fez bom trabalho – entre 2006 e 2010. Ao seu lado, companheiros do tetra de 20 anos atrás.
Para aconselhar os jogadores, a cada convocação, um campeão mundial de 94, 70, 62... Ou atletas que não ganharam, mas tiveram talento reconhecido em 78, 82... Agora, após o primeiro fiasco dessa nova era, técnicos do passado. Do tempo em que a única dúvida de uma partida contra a Venezuela era qual seria o tamanho da goleada. Hoje, o Brasil sua sangue para vencê-la. E nem sempre vence.
Alguns desses treinadores conquistaram resultados muito mais medíocres na Seleção do que aqueles obtidos por Dunga. O site da CBF publica que o diagnóstico desse primeiro encontro foi o da necessidade de “retomar a verdadeira identidade do futebol brasileiro”. Frase de efeito que deve ter sido dita milhões de vezes nos últimos anos. Resgate, resgate, resgate...
Parreira escalonou as prioridades: em curto prazo as Eliminatórias, em médio prazo a Copa do Mundo de 2018, e em longo prazo o futebol brasileiro. Pobre futebol brasileiro... Ficará sempre para trás. Pois quando acabar essa Copa, virá outra Copa América, outras Eliminatórias, amistosos, o técnico precisará de resultados... E o prazo para solucionar o futebol brasileiro será tão eterno quanto o 7x1.
Zagallo disse que a Seleção tem condições de jogar de igual para igual contra qualquer adversário. Errado. Não tem! O “pachequismo” já não convence rivais como Peru, Colômbia, Paraguai e Chile, que entram em campo contra o Brasil convictos de que podem vencer, nem mesmo os próprios brasileiros. Ainda considerar a Seleção como uma camisa amarela que joga sozinha e encanta é saltar muitas casas para trás.
Há, de fato, inúmeros problemas nas categorias de base, como constatado no encontro, mas muito mais complexos do que a falta de estímulo à criatividade dos garotos. Os clubes formam atletas para abastecerem seus cofres, abalados por péssimas gestões com as quais a CBF tem sido conivente. E esses jovens crescem para enriquecerem seus times, empresários, assessores, descobridores, parentes, “parças”...
Pelo menos, observou-se que o fortalecimento da seleção brasileira passa por melhorias nos clubes. Só que não apenas na base, como aponta o raso diagnóstico, mas na gestão, na organização, na maneira como tratam seus profissionais, no excessivo número de jogos, na instabilidade dos elencos, na fragilidade de seu principal campeonato. A Seleção é o topo da pirâmide, é o produto final de uma estrutura forte, essa que Parreira quer tratar a longo prazo.
A CBF promete inserir no debate, técnicos estrangeiros, jornalistas, e outros segmentos da sociedade. É preciso discutir o jogo. Mesmo vindos de grandes clubes europeus, os atletas brasileiros, quando se juntam, não conseguem apresentar a evolução coletiva. Por aqui, ainda se aplica conceitos individuais a um esporte coletivo. A simples junção de bons jogadores não garante um bom time. E sim, há bons jogadores, há uma boa geração.
Dunga já demonstrou ser capaz de entender isso. O técnico sofreu com desfalques inesperados, surpreendeu-se com a falta de personalidade do grupo e não conseguiu remontar uma equipe a tempo de apresentações dignas. Agora, precisa se livrar completamente das amarras patriotas que ainda resistem em admitir: o desenvolvimento do futebol fez o Brasil ser atropelado enquanto lustrava seus troféus.
É inaceitável que se trate com naturalidade o fato de as outras equipes da América do Sul terem evoluído, e só o Brasil não. É como se a seleção pentacampeã já tivesse atingido o ápice e não pudesse mais evoluir, tamanha a perfeição de seu jogo. Longe disso.
A CBF precisa abrir as portas, abrir de fato a Seleção e abrir a mente para um novo futebol que não está nem aí para quantas estrelas cercam seu distintivo na camisa amarela. Enquanto insistir em ex-jogadores, ex-técnicos e ex-campeões, seguirá tendo a ex-melhor seleção do mundo.